Crítica | Sem tomar riscos, ‘Dois Papas’ é humano e sensível

Os bastidores da Igreja Católica sempre é um tema controverso e delicado para se debater em qualquer tipo de mídia. Fernando Meirellesdiretor de Cidade de Deusao anunciar que iria dirigir um filme sobre os bastidores da relação entre os Papas Bento XVI e Francisco, deixou-nos com uma certa pulga atrás da orelha. Qual seria sua intenção ao tomar liderança desse projeto? A renúncia de Bento XVI por si só já é rodeada de polêmicas e escândalos, então, por esse motivo, seria sua intenção revelar ao público o que estava subentendido e em segredo sobre esse período? A dúvida pairava no ar, até o momento em que o projeto começou a sair da gaveta. 

A intenção de Meirelles nunca foi trazer ao público as polêmicas que poderiam envolver a Igreja Católica, tanto daquela época – afinal, fazem somente 6 anos desde a renúncia de Bento XVI – como a atual. Os Dois Papas aparenta ser um projeto isento desses fatores. Ele segue por um território seguro, fazendo pequenas críticas à alguns acontecimentos, como, por exemplo, os casos de abuso sexual e pedofilia na Igreja. Entretanto, seu aprofundamento no assunto é raso. Sua intenção aqui era, realmente, entregar um projeto humano e sensível, e que mostrasse os bastidores da relação entre os dois papas mencionados.  

E, devo dizer, o resultado é extremamente satisfatório. O relacionamento entre os dois Papas é levado às telas com maestria por um roteiro sincero e que sempre está tentando se manter o mais positivo possível, o que justifica a ausência de discussões mais aprofundadas nas polêmicas envolvendo esse período e a Igreja. É curioso observar a isenção de aprofundamento nesses assuntos? Sim, mas a intenção nunca foi destrinchá-los. 

Os diálogos entre Bento XVI e Jorge Bergoglio, futuro Papa Francisco, são excelentes e carregam o filme. Com uma atenção maior dada a Bergoglio, interpretado por Jonathan Pryce, o filme segue com uma narrativa gostosa de acompanhar, tendo como base diálogos muitas vezes afiados, curiosos, e que se tornam cada vez mais intensos com o decorrer do filme. Os dois são personagens palpáveis, um sendo muito mais aberto e evoluído quando se trata do mundo em que vivemos, e outro mais conservador, mas que parece sempre curioso a dar atenção ao que não era do seu interesse anteriormente.  

Os Dois Papas (2019) – Netflix

Por mais que Bergoglio tenha maior tempo de tela e seja o único que possua flashbacks para contar um pouco mais de seu passado, é Anthony Hopkins e seu Bento XVI que roubam a cena. Dizer que tanto ele, quanto Pryce são parecidos fisicamente com os Papas que conhecemos é algo já discutido. Mas, Hopkins incorpora Bento de uma forma impressionante. Elegante, curioso, e sempre com uma resposta e apontamento prontos na língua. Não seria uma surpresa se seu nome aparecesse na temporada de premiações. 

Porém, apesar do background dado a Bergoglio ser muito bem-vindo, é inegável dizer que o filme perde o ritmo durante sua segunda metade. Os flashbacks envolvendo o personagem, apesar de interessantes, são excessivos. Os diálogos afiados entre os dois personagens são sempre os momentos em que o filme mostra o seu melhor. Quando tenta caminhar em outros territórios, infelizmente, o cansaço se torna presente. 

Os Dois Papas é uma excelente surpresa vinda da Netflix (sim, é um filme original do streaming). Divertido, humano, e bastante inteligente, o roteiro sabe em que território quer caminhar, e perde a oportunidade de ousar um pouco. Mas, isso não é problema, pois as atuações e os diálogos entre os personagens fazem valer a experiência. Com uma boa campanha e divulgação para a temporada de premiações, talvez não seja a última vez que ouvimos os nomes de Hopkins Pryce durante este ano.  

DOIS PAPAS | THE TWO POPES
4

RESUMO:

Seguindo em território seguro, Os Dois Papas é divertido e bastante humano. Com fortes atuações de Anthony Hopkins e Jonathan Pryce, o filme ganha força quando foca nos diálogos entre os personagens, mas se perde quando tenta sair demais do proposto.

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.