Artigo | ‘Clube da Luta’: uma contestação delirante do Capitalismo

Análise com spoilers de O Clube da Luta (1999)

Há 20 anos, no final de outubro, estreava nos cinemas brasileiros o Clube da Luta (1999), dirigido por David Fincher, considerado hoje um grande clássico. Apesar de não ter tido um bom desempenho nos cinemas, a venda do DVD foi um sucesso retumbante. O longa é lembrado frequentemente como uma obra crítica ao sistema capitalista, ao consumismo e estilo de vida americano propagado para o restante do mundo.

O filme

A partir de uma narrativa confusa e verborrágica acompanha-se a história do narrador (Edward Norton), um homem pacato de classe média alta, atormentado pelo vazio de sua vida. Apesar de receber um bom salário da empresa de seguros em que trabalha, gastar o seu dinheiro em bens materiais não parece ser o bastante. Devido a sua insônia, busca seu médico para lhe receitar algum psicotrópico, entretanto ele lhe faz uma estranha sugestão. Ao invés de tomar remédios, ele deveria frequentar grupos de ajuda de pacientes com câncer nos testículos, para assim poder compreender o significado da dor verdadeira.

Após entrar para o grupo sugerido, acaba frequentado vários outros, em uma espécie de satisfação sádica. Afinal, estar no meio de paciente doentes, mas em uma condição mais saudável, era um aliviante sentimento de triunfo perante a morte e as enfermidades. Em um desses grupos conhece a peculiar Marla Singer (Helena Bonham Carter), uma outra frequentadora, que assim como o narrador, não tinha nenhum problema de saúde. Por meio dessa identificação mentirosamente sincera, os dois se aproximam e desenvolvem um caso no decorrer da trama.

Clube da Luta (1999)

 

Um dia, o narrador estava retornando de uma reunião de negócios e ainda no avião conhece Tyler Durden (Brad Pitt), um sujeito com uma mentalidade questionadora e que pregava um modo de vida nada usual. Após a conversa, a vida do narrador nunca mais seria a mesma. Ao chegar em seu apartamento, se depara com um terrível incêndio não restando nada, a causa do incidente permaneceu enigmática. Sem amigos ou alternativas, só lhe restou ligar para Tyler. Ele rapidamente o abrigou em sua casa e aos poucos, por meio da constante convivência, lhe apresentou a sua doutrina e se tornou o guru do narrador.

Tyler vivia em uma casa abandonada, suja e muito mal conservada. Sua filosofia de vida pregava o desapego quase total aos bens materiais, vivendo apenas com o mínimo necessário. Rapidamente o narrador se deixa seduzir pelos hábitos do novo amigo. Em uma ocasião, Tyler pede para que o narrador lhe dê um soco com toda a sua força, apesar do estranhamento, o protagonista o soca. Por meio da provocação iniciam uma luta e se entusiasmam. Ao longo dos dias o duelo continuou, mas os dois amigos não se contentaram em brigar entre si e assim fundaram o Clube da Luta.

Depois de algum tempo, Marla volta a procurar o narrador, estava à beira do suicídio e precisava de sua ajuda. Sem a menor paciência para a amiga, deixa ela falando sozinha com o telefone fora do gancho. Tyler escuta a conversa e pouco depois ele atende. Em seguida ele foi encontrá-la e dormiram juntos na casa dele e assim, Marla também passa a morar na casa de Tyler.

Em pouco tempo, o número de integrantes do grupo aumenta drasticamente. Com a filosofia de negar o consumo, se abster de bens matérias, o clube se torna um lugar onde homens podem expressar a frustração de suas vidas pela luta. Ainda que não houvesse mortes, os combates eram bem violentos e o clube era mantido no mais absoluto sigilo. Ganhar ou perder não era o mais importante, após as lutas os participantes conseguiam manter um certo respeito e até mesmo uma amizade. O objetivo era poder aliviar uma carga de agressividade e ódio gerada pela sociedade.

Clube da Luta (1999)

Com o crescimento exponencial do clube, o sentimento de revolta aumentou proporcionalmente, criando uma nova organização: o Projeto Caos. Essa nova organização, liderada por Tyler, tinha o intuito de atacar e vandalizar uma série de cidades, como uma forma de atacar o sistema. Algum tempo depois, após uma briga entre os fundadores, Tyler desaparece, obrigando assim o narrador assumir o movimento.

Durante uma das ações do grupo, o narrador reencontra o amigo sumido milagrosamente, como se ele surgisse na sua frente. Então a verdade é revelada duramente, Tyler não passava de uma alucinação. O amigo corajoso, audacioso e revolucionário era uma parte idealizada do narrador. Talvez tudo o que ele sempre sonhou em ser, mas não podia.

O narrador tenta se livrar de seu amigo, até o denunciou pra polícia. Tiveram uma última briga, com muitos ferimentos e Tyler o levou para o topo do prédio, de lá queria que ele assistisse a um grande evento. Para se livrar do amigo imaginário, o protagonista atira na sua própria boca e assim Tyler cai morto. Entretanto, o tiro pegou de raspão no narrador, apesar dos ferimentos, sobreviveu. Em seguida, Marla chegou e de lá assistem a explosão de vários prédios, como se no fim tivessem conseguido derrubar o sistema.

A utopia anticapitalista

A narrativa do filme, do começo ao fim, é bastante confusa; muitas vezes os eventos ocorrem de uma maneira desconexa e caótica. A revelação de Tyler ser uma alucinação é uma espécie de referência mínima para o telespectador perceber o quão transtornado é o protagonista sem nome. Não é nada improvável supor que talvez a história toda não passe de um delírio, não só Tyler como Marla, o clube, o Projeto Caos. O amigo indestrutível, fruto de uma alucinação, foi um recurso utilizado para justificar a narrativa irreal de Clube da Luta, permitindo assim a realização de uma utopia: a destruição do Capitalismo.

Clube da Luta (1999)

De fato, o sistema Capitalista pode ser responsabilizado por muitas injustiças e pela desigualdade social. A produção do consumismo e do individualismo excessivo talvez sejam os piores fatores. Segundo Gilles Lipovetsky, em A Era do Vazio, a pós-modernidade se baseia em uma acomodação dos valores, da cultura e da política. Nesse contexto aparentemente pacífico, existe a convivência de posicionamentos radicais sem conflitos bélicos, como por exemplo dos discursos de esquerda e direita. Em nome do respeito aos direitos individuais, são tolerados os vários pontos de vista dos sujeitos, estabelecendo assim uma indiferença ao coletivo, priorizando-se a autonomia e o egocentrismo.

“Que droga, uma geração inteira de garagistas, garçons. Escravos de colarinho branco. A propaganda põe a gente pra correr atrás de carros e roupas. Trabalhar em empregos que odiamos para comprar merdas inúteis. Somos uma geração sem peso na História. Sem propósito ou lugar. Não temos uma Guerra Mundial. Não temos um Grande Depressão. Nossa guerra é espiritual. Nossa depressão, são nossas vidas”.

O Clube da Luta crítica diretamente o conforto e o conformismo das atuais gerações. A fala acima resume bem a ideia de que o triunfo do Capitalismo, da democracia, da globalização e do consumismo nos derrotou socialmente e psicologicamente.

Evidentemente, o sistema democrático-capitalista ofereceu muitos ganhos, no que se refere aos direitos individuais, a liberdade de expressão, crítica ao machismo, ao patriarcalismo. Entretanto gerou efeitos colaterais igualmente significativos como a perda da identificação, devido a uma proliferação de subjetivismos, além de certo desprezo pela alteridade. Graças a possibilidade da globalização, do desenvolvimento da cultura, das artes, das ciências, entretenimento, as pessoas tenderam a criar um universo simbólico e imaginário extremamente específico, buscando serem únicas e diferente de todas as outras. Como consequência houve um distanciamento das relações sociais, mantendo-as fechadas em guetos ou relacionamentos restritos. Contentando-se assim em um certo vazio psicológico e solitário. Lipovetsky comenta também a respeito da impossibilidade da luta de classes, reivindicações sociais pelas manifestações ou revoluções socais.

Clube da Luta (1999)

 

O Paradoxo autoritarista no Clube da Luta

É interessante pensar que, apesar do manifesto do protagonista contra o sistema a partir do Clube da Luta, há uma procura por satisfação corpórea por meio de uma experiência inovadora. No fundo há uma descarga de agressividade contida, almejando-se um prazer extasiante e inconsequente. Lipovetsky afirmará que na pós-modernidade existe a preocupação exacerbada em encontrar o prazer nas mais variadas formas, realizar o maior número possível de fantasias e vontades.

Resumidamente, na atual conjectura há um culto a um hedonismo negligente e imediatista. Contraditoriamente, o Clube da Luta não foge dessa lógica, por mais que se esforce em contrariar os imperativos capitalistas. Além disso, não existe uma reflexão da impossibilidade em deixar de consumir. Afinal, mesmo em uma cultura de subsistência ou no mais radical do regimes comunistas, sempre haverá no mínimo a produção e o consumo de comida e dos utensílios para a sobrevivência.

No meio do filme ocorreu a criação do Projeto Caos, uma ampliação ainda mais ambiciosa do que a do clube. É possível notar que nesse movimento de contestação ao Capitalismo há uma solução extremista em aniquilá-lo. Muito semelhante aos ideais do Estado Islâmico e outras organizações terroristas. É importante notar como na pós-modernidade os extremos caminham lado-a-lado, existem os indivíduos alienados e adaptados ao estilo de vida Capitalista. Em outro sentido, há os extremistas que se refugiam em valores autoritaristas e fascistas, desejando o retorno de um controle absoluto do Estado.

Se a maior virtude do Clube da Luta está em criticar o Capitalismo, por outro, seu protagonista encontra uma solução simplista e egocêntrica. Ao talvez delirar com a queda do sistema, isso implica em satisfazer a sua vontade a todo custo, exaltando apenas o autoritarismo e o seu narcisismo onipotente. Portanto, mesmo com a sua pretensão benevolente em mudar o mundo, agiu movido pelo hedonismo, egocentrismo e por tudo aquilo que mais criticou. Podemos tentar sair do Capitalismo, mas dificilmente ele sairá de nós tão cedo.

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Dante Carelli Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.