A Vida Invisível | Elenco e equipe falam sobre o filme, diferenças de época e a campanha para o Oscar

Na abertura do 29º Cine Ceará, Fernanda Montenegro relembrou um trecho da carta enviada pelo diretor Karim Aïnouz quando a convidou para fazer parte de A Vida Invisível:

“A história das mulheres no Brasil e no mundo é muito mal contada. São histórias realmente invisíveis. É necessário torná-las visíveis, pulsantes, vivas.”

O filme escolhido para representar o Brasil na disputa por uma vaga de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar de 2020 tem Eurídice Gusmão (interpretada por Carol Duarte) como protagonista principal do filme e sua irmã, Guida (Julia Stocker). Estabelecido na década de 50, o filme alterna entre a vida das duas personagens, depois que foram separadas. Ao mesmo tempo que o filme faz uma comparação de como são tratadas pela sociedade – Eurídice casou e teve filhos, Guida engravidou e separou-se do homem pelo qual se apaixonou – elas também são unidas pela vontade constante de realizar seus sonhos, além da esperança de se encontrarem novamente.

Como relatado na coletiva de imprensa que ocorreu dia 18 de outubro em São Paulo, Rodrigo Teixeira, produtor do filme, leu a obra de Martha Batalha (autora do livro no qual o filme foi baseado) e achou que Karim Aïnouz seria a pessoa ideal para contar essa história. Ambos criados majoritariamente por mulheres, o diretor abraçou o projeto assim que terminou de ler a história – e coincidentemente, na mesma semana da morte de sua mãe.

Apesar de quase 70 anos terem se passado da década que o filme foi inserido, é alarmante como poucas coisas mudaram, especialmente comportamentos machistas. Se torna doloroso assistir ao filme que exala misoginia até em seus mínimos detalhes (Antenor, interpretado por Gregório Duvivier, brincando com a filha falando que vai enforcá-la, por exemplo) e como as mulheres são tratadas como objetos unicamente para dar prazer aos homens, sempre sofrendo uma violência silenciosa.

A construção de uma família e a maternidade, na época, eram papéis essenciais na vida das mulheres, mas nunca são romantizadas em A Vida Invisível. Eurídice expressa seu sonho de se tornar uma grande pianista, e como a gravidez interferiu no seu caminho; quis abortar, mas sem nunca falar expressamente a palavra. Como a própria Carol Duarte apontou, não há uma grande vontade de ser mãe, ela acaba amando a filha pelas condições, quase como uma obrigação. O incômodo da personagem de estar naquela situação também é representado por meio de detalhes como simplesmente a personagem tirar a aliança na hora de tocar piano.

Enquanto isso, Guida, expulsa de casa pelos pais por engravidar sem estar casada, procura uma forma de sobreviver em meio à comentários sobre mulheres não serem adequadas para certos tipos de trabalhos, obrigadas a realizar desejos sexuais dos homens como forma de pagamento e vistos negados ao filho por não conter a assinatura do pai. A trajetória sem um homem ao lado é representada de forma árdua e dolorosa, mas verossímil. Guida, no entanto, constrói sua própria visão de família.

“A condição da mulher é sempre crítica, ainda é de baixo de um comando, e quando não é, há uma luta pelo comando.” Fernanda Montenegro, que faz uma participação especial no filme como a fase mais velha de Eurídice, define o filme como “uterino e vaginal”. Ainda acrescenta que o cinema é maior que uma viagem interplanetária.

O cinema, de fato, transcende além do que apenas às personagens do filme; é uma voz ecoante, uma representação da luta diária contra a violência verbal, física e silenciosa que abrange uma parcela muito maior. São histórias invisíveis que não são faladas, ouvidas e muito menos respeitadas. Por meio de uma abordagem altamente sensível de Karim Aïnouz, A Vida Invisível é um presente do audiovisual brasileiro para todas as mulheres do mundo.

A Vida Invisível estreia dia 21 de novembro nos cinemas.

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Rafaella Rosado

Jornalista apaixonada pela sétima arte desde pequena, quando achava que era possível assistir todos os filmes do mundo. Acredita que o cinema é a forma mais sensível de explorar realidades.