Crítica | ‘O Relatório’: um filme necessário sobre as torturas cometidas pelos EUA

Os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 mudaram os Estados Unidos para sempre. A NSA (Agência de Segurança Nacional) espionou por anos todos os cidadãos americanos; traçavam suas rotas, ouviam suas conversas, tinham acesso às webcams, dentre outros. Quando Edward Snowden (ex-contratado da NSA) vazou essas informações, foi exilado dos Estados Unidos. O Relatório

Em ordem para também obter informações sobre os envolvidos do atentado, a CIA passou a adotar o uso da tortura em pessoas consideradas ameaças ao país, sob a justificativa de evitar a todo custo que um ataque do tipo acontecesse mais uma vez.

Dirigido por Scott Z. Burns, O Relatório acompanha a investigação interna – iniciada pelo agente Daniel “Dan” Jones (Adam Driver), em 2007 – acerca de denúncias sobre a destruição de fitas de interrogatório por parte da CIA. Sem saber se suas descobertas seriam publicadas ou não, Dan dedica-se ao relatório por mais de cinco anos com o intuito de expor todos os tipos de brutalidade praticados pela agência.

O Relatório é, basicamente, a história não contada em A Hora Mais Escura. Na obra de Kathryn Bigelow, onde as torturas são mostradas rapidamente como um bem necessário. Seguimos, por quase suas três horas de duração, a caçada ao terrorista mais famoso do mundo Osama Bin Laden – e acabamos por torcer pela personagem de Jessica Chastain fazer qualquer coisa para pegá-lo, sem muito tempo para analisar seus meios.

O Relatório (2019)

O filme Scott Z. Burns, no entanto, trata-se de um drama jornalístico, algo mais próximo de Spotlight: Segredos Revelados ou Todos os Homens do Presidente. O filme desenvolve bem o documento original de 7.000 páginas com uma montagem eficiente que mescla a descoberta das informações com os flashbacks dos momentos em que eles ocorreram; como se estivéssemos descobrindo as torturas junto com Dan.

Ao conhecermos os nomes e rostos dos homens torturados pela CIA, a câmera sempre busca centralizar as palavras dos documentos que apresentam os tipos de tortura cometidos, assim como as fotos amareladas registradas durante tais eventos.

À medida que essas informações são apresentadas, há uma mudança no comportamento de Dan Jones. Adam Driver apresenta uma de suas melhores atuações ao interpretar o agente que após cinco anos envolvido com o caso que não só tomou conta da sua vida, mas também faz parte de seus sonhos; a raiva e o nervosismo crescentes adquiridos ao longo do filme são muito bem incorporados pelo ator.

Mesmo com a quantidade de informações que o filme possui, Burns as conduz de forma perspicaz e ao mesmo tempo didática, porém sem questionar a inteligência do espectador (diferentemente do que Adam McKay faz em A Grande Aposta ou Vice, por exemplo). Apenas o necessário é apresentado em suas duas horas de duração para construir a ideia principal do filme: evitar que a história se repita porque nem sempre escutam da primeira vez.

O filme trabalha com a constante justaposição do discurso de “se for para proteger a vida dos americanos, não importa o que fizeram” da CIA com o discurso de Dan Jones e do restante do Senado sobre a ineficiência da tortura como forma de obter informações e a falta de ética da agência. Frases sobre “salvar vidas” e liberdade logo se tornam ambíguas diante do contexto.

O Relatório (2019)

Explorando a falta de humanização dos Estados Unidos quando se trata de proteger seus próprios interesses, O Relatório apresenta a outra versão da história contada de forma heroica e patriótica por outras obras. Por vezes indigesto, é um filme necessário que cumpre muito bem sua função.

O RELATÓRIO | THE REPORT
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RESUMO:

Explorando a falta de humanização dos Estados Unidos quando se trata de proteger seus próprios interesses, O Relatório apresenta a outra versão da história contada de forma heroica e patriótica por outras obras. Por vezes indigesto, é um filme necessário que cumpre muito bem sua função.

O Relatório é uma das atrações da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Confira datas e horários para assistir:

Quarta-feira, 23/10

17:15 – PETRA BELAS ARTES SL 1 VILLA LOBOS

Sexta-feira, 25/10

14:00 – ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – AUGUSTA SALA 1

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Rafaella Rosado

Jornalista apaixonada pela sétima arte desde pequena, quando achava que era possível assistir todos os filmes do mundo. Acredita que o cinema é a forma mais sensível de explorar realidades.