Crítica | Novo terror da Netflix, ‘Eli’ tem final surpreendente mas desenvolvimento cansativo

O que faz de um filme um bom terror? Uma pergunta mais importante ainda é: o que nos faz gostar tanto desse gênero? Stephen King escreveu em seu livro “Dança Macabra” que o interesse por tal sensação é “aquele estado de crença total onde o escudo calcificado da racionalidade foi temporariamente deixado de lado, o ceticismo foi suspenso e a capacidade imaginativa pode ser novamente alcançada”. Entre tantos títulos lançados, por que nem todos têm esse elemento? O que lhes falta? Eli

A Netflix tem recheado seu catálogo de horror com uma série de obras, mas nem todas valem à pena. Eli, que estreou ontem (18/10), fica em um meio termo entre o razoável (em escala Netflix) e o ruim. É no mínimo interessante o caminho por onde permeia.

Eli (Charlie Shotwell) é um garoto com uma doença autoimune que faz com que seu corpo ataque a si mesmo ao menor contato com o mundo. Seus pais, Rose (Kelly Reilly) e Paul (Max Martini) resolvem investir quase tudo em uma médica, Dra. Horn (Lili Taylor), que acredita poder curar a criança através de um tratamento misterioso e não convencional. A família muda-se para a casa onde a terapia será realizada. À primeira vista, a mansão parece a típica e clichê locação mal assombrada, mas ao checarmos seu interior, percebemos que se trata de um local totalmente esterilizado, especial para pacientes com a condição de Eli. O que é uma boa surpresa.

A primeira parte do filme é focada no drama familiar. A rotina do menino ao viver em uma bolha. A mãe, amorosa e focada em encontrar a cura para seu filho, porém, ao mesmo tempo, que possui um semblante estranho. O pai, fechado e distante, como se estivesse cansado demais daquele sofrimento. A relação suspeita dos pais, que parecem afastados, como se o laço tivesse se corrompido diante de algum trauma passado. Alguns alarmes disparam ao conhecermos os três membros e sabemos, de imediato, que tem algo errado com aquela história toda.

À frente dessa suposição, as teorias surgem e, conforme o andamento da obra, confirmam-se. É tão previsível que passamos a duvidar das nossas desconfianças. O filme traz os elementos já conhecidos do gênero. Fantasmas, uma casa assombrada, jump scares e cores frias e escuras. Mas não chega a dar medo porque é tudo muito óbvio. Sabemos que não podemos confiar na médica e em suas enfermeiras desde o início. Suas vestes violetas, inclusive, podem dar uma pista de algo ilusório ou sobrenatural.

Eli (2019) – Netflix

O elenco é mediano, salvo pelo protagonista que entrega um bom trabalho ao viver um garoto assombrado por uma doença terrível e que se encontra em perigo por estar em um lugar que parece mais cruel do que sua própria enfermidade. O mundo fora da casa é fatal, mas o lado de dentro pode ser pior.

No último ato, a reviravolta esperada acontece. Um plot twist era previsto e constatamos um filme mais atraente. Nossas teorias provam-se inexatas e ocorre o plot twist do plot twist. A verdade por trás de toda a trama é, de fato, inesperada. Mas um enredo não pode se manter apenas por seu desfecho inusitado e sim por toda a sua construção e desenvolvimento, o que faltou completamente em Eli.

Por mais súbito que tenha sido o encerramento, tal fato não elimina o senso comum com que todo o desenrolar foi apresentado. Eli Torna-se um filme cansativo e extenso para que apenas nos últimos minutos sejamos despertados. Além disso, por mais que a conclusão seja criativa, esta não funciona já que não casou com o resto do roteiro.

ELI
2.5

RESUMO:

Novo terror da Netflix, Eli se destaca pelos seus minutos finais, que não fazem jus ao desenvolvimento cansativo de sua narrativa.

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Isa Carvalho

Jornalista e estudante de cinema. Acredita que o cinema é um documentário de si mesmo, em que o impossível torna-se parte do real. "Como filmar o mundo se o mundo é o fato de ser filmado?"