Crítica | Mesmo com forte tema e elenco, ‘Wasp Network’ fornece uma cansativa e bagunçada experiência

Quando se trata de Olivier Assayasdiretor de Wasp Networké esperado projetos que trabalham com temas fortes e fora da caixinha, como os recentes Personal Shopper e Acima das Nuvens, por exemplo. E aqui, por mais que o francês ainda trabalhe com um tema forte – e bastante polêmico, deve-se dizer -, é curioso notar como o diretor pareceu perder a mão ao ter um material tão vasto e complexo para trabalhar.

Baseado no livro de Fernando Morais, “Os Últimos Soldados da Guerra Fria”,Wasp Network narra a trajetória de um grupo de espiões cubanos, intitulados de Rede Vespa, que se infiltram nos Estados Unidos com o intuito de impedir ataques terroristas anticastristas em Cuba. Embora o grupo seja composto por 7 membros, o filme procura focar-se em poucos deles para contar não somente a história do grupo, mas também seus dramas particulares. 

Segundo o próprio diretor, em coletiva para 43ª Mostra Internacional de cinema de São Paulo, seu maior interesse ao contar essa história era focar-se nos dramas humanos. Essa afirmação se torna clara pelo roteiro que cria três núcleos principais para ocasionar o andamento da história. O de maior destaque é o de René Gonzalez (Édgar Ramírez) e Olga Salanueva (Penélope Cruz), que mostra as dores e dificuldades de um casal que reside em Cuba, mas que em um certo dia o marido deixa a família para traz para se exilar em outro país.

Wasp Network (2019)

 Os momentos em que o filme foca nos dramas humanos é onde ele se sai melhor. O relacionamento entre René e Olga é o melhor desenvolvido pelo roteiro, com René exilado em outro país, enquanto Olga e a filha do casal permanecem em Cuba. É interessante notar a discussão em voltar do posto de traidor que René “conquista” ao deixar a família para trás para se exilar nos Estados Unidos. A discussão é uma das mais pertinentes do filme, mas que acaba ficando confusa ao se contradizer a todo momento. 

Outro grande destaque fica para o núcleo de Juan Pablo (Wagner Mourae Ana Magarita (Ana de Armas). O relacionamento entre os dois é movido a base de momentos de alegria e desconfiança. Ana sabe que o marido esconde algo envolvendo seu trabalho, mas Juan insiste em mentir para manter escondida sua verdadeira vida fora de casa. É sempre bom ver Wagner Moura em tela, e sua química com a atriz elevam a força de suas cenas em conjunto.  

Porém, apesar de acertar nos núcleos individuais e dramas pessoais, o roteiro de Assayas parece perdido na própria história que está tentando contar. O material utilizado como base é vasto e complexo, e tentar colocar o máximo de informações para compor o roteiro, além de dar o pano de fundo necessário para que ninguém embarque na história sem uma base, acaba deixando a experiência confusa e cansativa. A bagunça se confirma ainda mais pela forma que Assayas utiliza para trazer essas informações, sempre por meio de flashbacks, voiceovers, trechos de entrevistas reais com Fidel Castro, e idas e voltas para diferentes locais do mundo a quase todo momento. 

Wasp Network (2019)

Durante a coletiva, o diretor conta que o filme passou por alterações desde que foi exibido no Festival de Veneza. Segundo ele, alguns cortes foram feitos, e 6 minutos de material foram acrescentados para deixar mais fácil o entendimento do público, além de melhorar o ritmo do filme. Resta-nos imaginar como seria a fluência da história antes dessa reedição.  

É inegável a importância do que está sendo contado, e o diretor afirma que não estava sendo partidário na forma com que escolheu retratar essa história, além de reforçar que sempre quis trazer atores latino-americanos para compor o elenco. Porém, mesmo negando a preferência partidária, o filme parece sempre cambalear para um dos lados dessa guerra.  

Wasp Networkmesmo com um forte elenco se esforçando, fornece uma cansativa e arrastada experiência, contendo uma história que merecia uma melhor reestruturação e ritmo para ser apresentada ao público. Com o talento já comprovado diversas vezes do diretor, segue-se estranho analisar o resultado final sabendo que seu potencial permitia criar algo muito mais inspirado e criativo do que o que foi apresentado. 

Wasp Network (2019)

WASP NETWORK
2.5

RESUMO:

Olivier Assayas oferece, em Wasp Network, uma confusa experiência ao tentar filmar um material tão vasto e complexo quanto o livro  de Fernando Morais, “Os Últimos Soldados da Guerra Fria”. O forte elenco não esconde os defeitos do roteiro que parece perdido na própria história.

 

ONDE E QUANDO ASSISTIR: 

Sexta-feira, 18/10
16:30 – CINEARTE 1 

Domingo, 20/10
21:15 – ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 1 

Sexta-feira, 26/10
21:15 – CINESESC 

Conheça o livro que deu origem ao filme:

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.