Mostra de SP 2019 | A luta contra a opressão de gênero em ‘Papicha’

Estreando de forma fervorosa na direção de um longa-metragem, Mounia Meddour traz uma abordagem sensível de acontecimentos reais na Argélia nos anos 1990. Premiado na categoria “Um Certo Olhar” no Festival de Cannes deste ano, Papicha é uma história de luta das mulheres em um país altamente conservador movido pela opressão de gênero.

Enquanto grupos terroristas controlam a Argélia em 1997 com intenções de transformar o país em um arcaico Estado Islâmico, Nedjma (Lyna Khoudri) é uma jovem estudante apaixonada por moda com o desejo de lutar contra o extremismo islâmico que foi instalado. Mulheres não podem falar, devem ficar em casa e sempre é necessário pedir permissão do pai ou do marido para fazer algo que não sejam tarefas domésticas.

Nedjma é uma voz ecoante nesse meio. Não deixa de se divertir como pode, seja escapando para ir a uma festa ou pichando cartazes que ditem os “bons costumes”. A garota, então, começa a planejar um desfile de moda com suas colegas em protesto às regras impostas pela sociedade argelina.

O desfile, além de ser o motor do longa, também une todos os acontecimentos em uma narrativa coesa. O hijab é a forma de opressão mais chamativa do filme, e não só suas protagonistas não o usam para se esconder, mas Nedjma o utiliza para fazer diferentes vestidos à mão para que todas as mulheres possam usar o que desejam e ser quem quiserem; a transformação de uma vestimenta de opressão em uma forma de expressão.

Cena de “Papicha”

Apesar de Meddour trabalhar com elementos difíceis e delicados em sua narrativa, a diretora consegue balancear com momentos acolhedores de sua protagonista e o grupo de amigas, que resulta em uma ponta de esperança em uma cidade altamente repreensiva. A união das personagens e a maneira como são exploradas denotam explicitamente a quem de fato Papicha pertence. Os homens são apenas meras figuras de reprodução de discursos e atos conservadores.

O ritmo agitado resultante de vários cortes e uso de close ups até das mais “simples” ações, como lavar o sangue de uma vestimenta, assim como a constante probabilidade de algo ruim acontecer (e vai, porque essa é uma história de mulheres lutando contra o fundamentalismo) concedem um tom eufórico e ao mesmo tempo claustrófobo à narrativa. Ainda assim, Meddour preza por toques e pela delicadeza – e a quebra dela – na hora de expor os temas abordados, sempre na medida adequada para tornar Papicha necessariamente impactante.

Em nenhum momento Nedjma se mostra seduzida pela ideia de escapar da cidade, mesmo que tenha sido lhe dada a opção. “Lutar, não fugir” diz a garota. Apesar de ser um filme marcado pelo terrorismo na Argélia, a maior arma de Papicha continua sendo a luta e a resistência de suas protagonistas.

PAPICHA
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RESUMO:

Apesar de ser um filme marcado pelo terrorismo na Argélia, a maior arma de Papicha continua sendo a luta e a resistência de suas protagonistas.

Papicha (2019)

Papicha é uma das atrações da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Confira datas e horários para assistir:

Quinta-feira, 17/10
21:45 – PETRA BELAS ARTES SL 1 VILLA LOBOS

Sábado, 19/10
19:20 – ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 3

Terça-feira, 22/10
17:30 – ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 2

Sábado, 26/10
14:00 – ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – AUGUSTA SALA 1

Segunda-feira, 28/10
19:45 – CINESALA

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Rafaella Rosado

Jornalista apaixonada pela sétima arte desde pequena, quando achava que era possível assistir todos os filmes do mundo. Acredita que o cinema é a forma mais sensível de explorar realidades.