Matrix em cinco perspectivas filosóficas

Em comemoração aos 20 anos de uma das franquias mais abstratas e filosóficas do cinema estadunidense, aqui iremos analisar o filme Matrix (1999) em torno do pensamento de cinco filósofos de épocas diferentes, o que deixa claro a profundidade e a pertinência da obra nos dias atuais.

0107010801010901015141060809010101({<Ainda está acordado?>})010101018198018908090109054

0101010546040101010101010341010101({<Sim>})0101010102010131010501010104010161010107040

010141213501010101010101010781010401({<Acha que este leitor pode ser o escolhido?>})0101455701010

0101024561015106060101010101010443010({<descobriremos quando ele terminar de ler!>})010101056645

Há 20 anos atrás, um dos filmes mais criativos e divertidos chegava às telas dos cinemas. Matrix (Lana Wachowski, Lilly Wachowski, 1999) analisava os impactos do avanço tecnológico sob a luz de perspectivas mitológicas, existenciais e cientificas, envoltas de muita ação e aventura.

Falar sobre Matrix é falar sobre muitas coisas ao mesmo tempo, pois tamanha é a fertilidade de suas ideias e de sua temática.

Apesar de conter muitos aspectos que claramente datam os anos 90 e a virada do século, Matrix não perde o gás e consegue se manter tão atual quanto no dia em que foi lançado. Inclusive, a atualidade e a nossa relação com a internet, a informação e as interações online abrem margem para mais interpretações que os anos 90 nos limitava. É um filme que merece nossa comemoração e conversas de bar.

Para escrever este artigo, irei analisar um dos aspectos da obra que considero fundamental para o seu caráter universal e atual, as abstrações filosóficas.

Gostaria de dizer que o recorte para este artigo é meu, sendo assim, selecionei alguns autores e algumas ideias que acredito serem interessantes para uma compreensão mais clara e divertida da obra. Aqui, assumo o risco.

Se você escolher a pílula vermelha, venha comigo que iremos abrir os olhos, degrau por degrau. Diferente de Morpheus, não ofereço a verdade, mas ofereço a filosofia, e cá ente nós, é bem mais legal.


Parte 1: Platão e a saída da caverna

The Matrix (1999)

É na antiguidade onde encontramos o nosso primeiro ponto de parada; Platão é conhecido por ser um pensador dualista, isto é, um filósofo que divide o mundo em dois: o sensível, mundo da matéria, das perspectivas e das impressões. E o mundo inteligível, mundo das formas perfeitas e ideais, mundo das essências, mundo dos seres propriamente ditos, em outras palavras o mundo que contém a verdade.

Ora, se o mundo é dividido em dois, por consequência, o homem também é dois, pois é dotado de um corpo em trânsito, carente, desejante e mortal, mas também é dotado de uma alma, imortal, racional e deliberativa. Sendo assim, algumas reflexões se impõem: como fazemos para conhecer o mundo? O que no mundo pode ser conhecido?

O mundo material, sendo o mundo do trânsito e das infinitas perspectivas que podemos tirar de um mesmo ser, só pode ser um mundo ilusório, um mundo falso, meras sombras projetadas em uma caverna

O mundo real, isto é, o mundo das formas ideais, geométricas e verdadeiras, não pode ser esse mundo que você vê e sente, mas, obviamente, aquele que você não vê e não sente. O mundo que está fora da física, o mundo da metafísica ou o mundo das ideias.

O mundo da verdade, portanto, só pode ser acessado pela alma, pela deliberação racional, pelo reencontro com as formas essenciais e ideais.

Em Matrix, o mundo que vemos, o mundo de Neo (Keanu Reeves) é uma mera sombra, onde nada pode ser verdadeiramente conhecido, um mundo que lhe proporcionava um incômodo, que o fez ir em busca de Morpheus (Lawrence Fishburne). Ao sair da Matrix, Neo pergunta porque seus olhos doem e Morpheus responde: “porque você nunca os usou!”.

Passagem muito semelhante a que encontramos no livro 7 da República, onde o homem que consegue se livrar da das correntes da caverna e adentra o mundo verdadeiro sente um terrível incômodo, que aos poucos começa a passar.

Tanto Platão quanto Matrix nos falam sobre a dificuldade de sair da caverna, de encarar o mundo da verdade, e ambos concluem que algumas pessoas estão tão imersas em seu mundo ilusório que irão lutar até a morte para defende-lo.

Outra comparação que não posso deixar de fora é o significado de conhecimento para os gregos. Na antiguidade, filosofia significava Amor pelo Conhecimento. Desta definição podemos tirar algumas conclusões importantes, primeiro se filosofia significa amor pelo conhecimento, isto quer dizer que o conhecimento já existe no mundo e quando encontrado ele deve ser amável. Pois conhecimento é sinal de vida boa e bela, e está ajustada ao todo.

O problema é como encontrar tal conhecimento e como saber que de fato é o conhecimento.

Na convicção grega existe uma inteligência universal que confere ao mundo e a todas as suas partes, ordem, justiça e beleza. Essa inteligência universal que ordena o mundo e passa por todos os seus integrantes passa por nós também, isso significa que o conhecimento já está em nós e o que podemos fazer é traze-lo de volta à luz da razão, isto é, recordar o que o mundo ilusório nos faz esquecer.

Acessar através da alma nossas essências e descobrir nosso lugar no todo universal. Conhece-te a ti mesmo, diz Sócrates, frase que aparece também na casa da Oráculo.

Para alguns gregos, filósofo é aquele que busca o conhecimento e o sábio é aquele que já o encontrou. Para comparar com o monomito de Campbell, podemos dizer que o filósofo encara o papel do Herói, no caso de Matrix Neo, e Morpheus, carrega consigo o papel de sábio, aquele que já encontrou a verdade.

Morpheus ensina Neo a soltar a mente, a desacreditar no mundo ilusório e a mostrar que o real conhecimento já está com ele. Quanto mais Neo se dá conta da ilusão do mundo percebido pelos sentidos mais forte ele se torna.


Parte 2 – Descartes e o Deus Maligno

The Matrix (1999)

Ao chegarmos na modernidade, o homem se depara com mudanças radicais na forma de compreender o mundo e o conhecimento. A revolução científica nos traz a convicção de que o mundo não é nem finito e nem ordenado, mas sim caótico e imprevisível.

A revolução científica põe fim ao cosmo grego e a inteligência universal, sendo assim, o conhecimento não pode mais ser um dado do mundo, mas sim uma produção do homem. Agora é o homem que confere ordem ao caos, construindo o próprio conhecimento.

Logo no início da modernidade, Descartes vai desconfiar de tudo. Conhecer agora se tornou mais difícil e desafiador, não temos mais um referencial para nos apoiar, e Descartes vai se utilizar do ceticismo para tentar descobrir o que e como pode-se conhecer.

Descartes vai duvidar de tudo, vai duvidar dos sentidos, pois estes falham e o enganam a todo momento, vai duvidar do pensamento, pois não a garantias que estes correspondam ao mundo propriamente dito, vai duvidar também da matemática, pois se muitas vezes erramos ao calcular e não nos damos conta. A matemática não poderá então ser um grande erro que ainda não nos demos conta? (Note que estamos diante de um dos mais importantes matemáticos da história).

Descartes então chega à conclusão de que a única certeza que podemos ter é a certeza de que duvidamos, e só somos, só podemos ter certeza que existimos, porque duvidamos, sendo assim, duvido logo sou. E seu eu duvido é porque eu penso, então, penso logo existo. Só perceba que não estamos falando do pensamento por ele mesmo, mas sim pensamento enquanto capacidade de duvidar de tudo.

Similar a Platão, Descartes então dividirá o homem em res cogito, parte duvidante que eu tenho certeza da existência e res extensa, parte material, que também me define (o corpo), mas essa podemos duvidar da existência.

Ao duvidar do pensamento, Descartes cria o conceito do Deus Maligno ou gênio enganador. Este consiste em um ser metafísico que consegue colocar em nossa cabeça ideias muito contundentes e críveis, porém completamente ilusórias

Descartes nos alerta a tomarmos cuidado com o que acreditamos como verdadeiro e que devemos fazer sempre uma análise buscando a real verdade que se esconde por trás da ilusão.

O Deus Maligno Cartesiano é uma metáfora muito mais contundente para entendermos o universo de Matrix, já que a própria Matrix foi uma ilusão criada deliberadamente para nós aprisionar em um mundo ilusório, e cabe a nós servimos da dúvida para atingir a verdade.


Parte 3 – George Berkeley e o Imaterialismo

The Matrix (1999)

Se você, caro leitor, está achando tudo um pouco abstrato e meio difícil, agora se segure na cadeira e coloque o sinto de segurança – depois não diga que eu não avisei.

Para começar a entender qual é a do Berkeley, é legal começar dizendo que se trata de um filósofo empirista, sendo assim, parte de premissas opostas as de Platão e Descartes, que se alinham no Racionalismo.

Para Platão, as percepções do corpo não produzem conhecimento verdadeiro e até podem nos afastar do mesmo. Para Descartes as percepções são passíveis a dúvida, para Berkeley a Percepção é só o que existe.

Os empiristas, tal como aprendemos na escola se opõe ao racionalismo e acreditam que podemos atingir um conhecimento verdadeiro do mundo através de nossas percepções (O caso de pensadores como Locke e Bacon). Há também aqueles que levam o empirismo as últimas consequências e criticam essa suposta verdade que nossas percepções pode levar. (É o caso de David Hume).

Berkeley parte da premissa que ser é ser percebido. Para simplificar, o que existe é a nossa percepção. Para melhorar, só existe a nossa percepção.

E como eu acho que não ficou tão claro vou dar um exemplo: para a maioria das pessoas existe o mundo percebido pelos sentidos, que chamamos de subjetivo e o mundo que de fato existe, aquele que chamamos de objetivo. Para Berkeley, não existe essa distinção pois se só há a percepção do mundo, a percepção é o mundo.

Imagine que você está com sede e pegou uma Coca-Cola. Primeiro você a viu (com a visão), depois a segurou (tato) e depois a ingeriu (paladar). Nada disso existia até você chegar, o gosto foi você quem atribuiu a forma foi você quem deu e não existe Coca-Cola fora da percepção. A Coca-Cola é a percepção.

E Berkeley vai mais longe, pois, não é só a percepção que existe, é só a minha percepção que existe, pois você só existe quando eu percebo, e se você também percebe não sou capaz de saber e muito menos afirmar. Mesmo se eu me servir da crença que você também percebe, não tenho como saber se percebe igual eu percebo e nunca jamais perceberá o que eu percebo, pois para que isso ocorra você precisaria ser eu.

Agora você deve estar pensando que isso é loucura e é delirante, pois eu tenho certeza que existe um mundo fora de mim. Pois é, mas se você só acessa o mundo com as suas percepções, como provar? Pois, para Berkeley, não estamos sozinhos no universo, nós somos o universo, pois somos o que percebemos que somos, somos a percepção.

Gostaria de dizer, antes de ligar com Matrix que quando você estuda ótica na física, e lá os físicos dizem que a luz que vemos é o que a retina percebe e transmite para o cérebro, você encontra a importância deste pensador para as ciências. A Luz é só a sua percepção da luz.

Berkeley também dizia que a nossa percepção é um tipo de filme (não dizia com essas palavras é claro) que contemplamos até o dia da morte, um filme colocado por um ser que está fora da percepção, que ele vai chamar de Deus.

Agora a ligação com Matrix ficou mais clara, pois na obra Neo contemplava uma espécie de filme que lhe foi embutido. E mesmo fora da Matrix, como afirmar que estamos mesmo fora e não apenas dentro de outra Matrix colocada por outro ser que está fora da percepção e por aí vai?

A clássica cena em que Cypher (Joe Pantoliano) come um bife, dizendo que mesmo falso ele o percebe como real, fica claro que só existe porque percebemos, por isso que chamamos este conceito de Imaterialismo, pois é inviável acessar a matéria.


Parte 4 – Immanuel Kant e a saída da menoridade

The Matrix (1999)

Chegamos em Kant e embora não seja o pensador mais fora do comum que veremos, creio que até seja o pensador mais senso comum. Kant é sem dúvida o mais hermético e difícil de explicar com poucas palavras. Mas Kant, pensador de formação teológica, vai acordar de uma ilusão racional, devido aos empiristas, porém, não se satisfará com esta forma de pensar.

O Kantismo é a tentativa de junção do racionalismo (platônico – cartesiano) com o empirismo (De Locke, Bacon, Hume entre outros). E todo autor que abre brecha para a soberania da razão é classificado como idealista.

Kant vai nos falar sobre as faculdades a priori do conhecimento, isto é, a instâncias que nos servimos para pensar, independente e anterior a qualquer experiência empírica.

As faculdades a priori não se inscrevem nos nexos de causa e efeito (conhecimentos que adquirimos pela experiência) e, portanto, são soberanas e condicionam as experiências empíricas. E quais são essas faculdades? São muitas, mas vamos nos focar no mais importante.

A primeira é a faculdade das causas. Qualquer outro animal se satisfaz com a simples presença de um mundo que maximize seu prazer e visa fugir ou lutar de um mundo que lhe provoque dor. O homem também faz isso, mas não só, o homem se dispõe da vontade de saber quais as causas e quais os efeitos que o levaram aquele mundo, o homem quer saber o porquê do mundo que lhe dá prazer e do mundo que lhe traz dor, o homem excede (ou transcende) a sua natureza para buscar o porquê das coisas.

A segunda faculdade é o espaço. Repare que para Kant o espaço não é um dado do mundo, mas é uma faculdade a priori do conhecimento. E é através desta faculdade que o homem vai situar no mundo o perto e o longe, a direção e o sentido, o fundo e o raso, o norte e o sul etc. Note que nada disso é um dado do mundo e então não pode ser percebido pela experiência, só pode estar antes da experiência e ser uma característica inata do homem que percebe.

A terceira faculdade é o tempo, este que também não é um dado do mundo, mas um dado do pensamento. É através desta faculdade que o homem é capaz de se situar no presente, no passado e no futuro, é a partir daqui que o homem é capaz de criar nos nexos de antes, agora e depois.

Para não complicar o que já está complicado, vou deixar de fora os juízos analíticos, os juízos sintéticos e entre outros.

O que é importante saber é que para pensar e conhecer o mundo, o homem se dispõe de um arsenal de tecnologias (as faculdades a priori) que vão se aliar com as experiências sensoriais. O que importa então, não é conhecer o mundo, mas sim conhecer os limites que o homem tem para conhecer este mundo

Para a Ética, estamos diante do filósofo que vai fazer a distinção entre o desejo e a vontade.

Desejo é toda é qualquer manifestação da sua natureza que provém da experiência. Fome, sede, tesão, sono e por aí vai.

Vontade é o uso soberano da razão (pois ela não se escreve nos nexos causais, excedendo a experiência empírica) que dará um destino para estes desejos que se manifestam do homem. Atendendo-os ou não.

E agora você entendeu porque tive que falar tudo isso antes de falar de Matrix, pois para o homem, a liberdade só existe porque a razão é soberana as inclinações do corpo. E não para por aí. Só somos livres porque temos a capacidade de deliberar a vida na contramão dos nossos desejos.

Isto é, se eu tenho tesão e sou desprovido de razão, só me resta o estupro como uma saída possível, já que sou totalmente condicionado aos nexos de causa e efeito. Mas, já que disponho da razão, delibero contra as inclinações do corpo e não estupro ninguém e nem nunca estuprarei.

Está aí a chave para a saída da menoridade, a nossa liberdade!

A liberdade de não ser um escravo do que percebemos e desejamos, a liberdade de não sermos escravos de ideias alheias, que nos são impostas ou não (ideias que Kant vai chamar de segunda natureza, pois as ideias que compramos por preguiça e covardia se enraízam tanto em nós que elas mesmas acabam por se tornar uma natureza entre outras), está aqui a chave para a saída da Matrix. A passagem dolorosa que é sair da zona de conforto que nós e posta por terceiros para que possamos caminhar com as próprias pernas.

“Tenha a coragem de servir-te de seu próprio entendimento” dirá Kant na obra O que é o iluminismo?

Perceba a semelhança entre a saída da menoridade moderna e a saída caverna antiga.

Para Platão, aquele que consegue se libertar é minoria;  para Kant, aquele que tem a coragem de pensar por si só também; para Platão, aqueles que estão enraizados nas sombras não estão preparados para a luz de fora da caverna (mundo das ideias). Para Kant, aqueles que estão imersos na segunda natureza, tenderão a lutar por ela, e só se libertarão da tirania quando perceberem que ela afeta a sua liberdade para viver (texto escrito às vésperas da Revolução Francesa), mas que não nos enganemos, a falta de liberdade movimentará o coletivo para a saída da tirania, mas a saída da menoridade será sempre individual.

E para ser fiel a Kant, faça você mesmo a síntese final leitor, tudo isso que falei até aqui se encontra em Matrix.


Parte 5 Martin Heidegger e a Ontologia Fundamental

The Matrix (1999)

Para concluir o texto, não gostaria de deixar o existencialismo de fora, então cá está ele, o último degrau para sairmos da Matrix.

Heidegger, em seu texto sobre a metafísica, vai nos falar sobre a diferença entra o ser e o ente. Para ficar mais fácil, começaremos pelo ente.

Ente é a presença, tudo que está a sua volta, olhe em volta, você pode estar vendo objetos, lugares, pessoas, roupas entre outros. Tudo que se apresenta é ente. Troque de lugar e você verá outros entes.

O ser é a vinda a presença, é a percepção dos entes. Agora que você está vendo entes, porque eles estão aí? Por que há algo no lugar do nada?

Para que haja os entes (tudo a sua volta) é preciso que haja o observador dos entes, este é o ser, é aquele que chega até a presença e observa a tal presença. O ser é o fato de haver entes, pois se não houvesse o ser para observar e se questionar o porquê de as coisas estarem aí, elas não existiriam, ente por si só não existe. Para haver o ente (as coisas) primeiro é preciso que aja o ser (aquele que observa as coisas).

A ciência é um campo de estudo dos entes, ela nunca responde à pergunta, por que há células ao invés de nada, porque a gravidade ao invés de nada? A ciência exclui o ser e se concentra em entender as propriedades, as características e as funções dos entes.

O estudo do ser é o estudo da metafísica, que Heidegger vai chamar de Ontologia Fundamental. É o estudo do mistério das coisas, enquanto a ciência é o estudo da presença das coisas.

O estudioso do ser é o metafísico ou o filósofo que irá se dedicar a este campo (pois a filosofia não estuda apenas este campo).

Mas o metafísico não está sozinho nessa, pois os religiosos irão aparecer e responderão à pergunta – porque há algo no lugar do nada? E a resposta será Deus! Deus é a causa dos entes.

Porém, para Heidegger, a ideia de Deus não ajuda em nada, pois não resolve o problema do mistério, apenas o intensifica. Pois, se Deus é a causa do ser, onde ele está? Aí o assunto vira uma questão de fé e uma questão ética.

A religião então, se apropria do ser, para depois fazer dele uma questão de ética e uma questão moral. Se inscrevendo, junto da ciência em um conceito que Heidegger irá chamar de mundo da técnica.

O mundo da técnica é este que você está, mundo que você não sabe nem de onde veio e nem para onde vai, só sabe que precisa se munir de técnicas, como estudar, trabalhar, ganhar dinheiro etc, mas não tem a menor noção em onde amarrar tudo isso, pois não sabe porque as coisas estão aí. E para não viver na perpétua angústia sempre haverá a religião, a ciência e as técnicas para promover o esquecimento do ser.

O mundo da técnica é o esquecimento do fato que esquecemos o ser. Então, tudo ilusoriamente parece se amarrar em um nexo de causa e efeito, com começo meio e fim, seja como um fato social, como a vontade de Deus e qualquer outra coisa que você quiser colocar no lugar.

Nessa perspectiva, a figura do Herói não é aquele que que conquistou a imortalidade, não é aquele que venceu o medo da morte, pois o medo da morte é a forma como projetamos o medo de não sabermos de onde viemos. Para ficar mais claro, como não sabemos de onde viemos e isso nos promove dor e angústia, tendemos a projetar estas dores para a passagem da morte. Achamos que está passagem será tão dolorosa quanto a do nascimento; quanto estar vivo.

Isto fica mais claro ao nos darmos conta que religiosos e céticos temem a morte. Pois, o que na verdade temem é estar vivo.

O herói, portanto, não é o que venceu o medo da morte, mas aquele que descobriu o dilema de estar vivo, é aquele que descobriu o porquê de as coisas estarem aqui!

Neo está imerso no mundo dá técnica, onde as coisas não fazem sentido, pois não se amarram em nada; está totalmente munido de uma clara angústia sobre o que o cerca, entra em uma jornada metaforicamente metafísica para buscar este dilema, que pode ser entendido como uma verdade, ou um elixir (para falar como Campbell) e para depois trazer este dilema para a humanidade.

E é aqui que o dilema do herói e a ontologia fundamental se distanciam, pois para Heidegger, as coisas de fato não se amarram em nada, de fundo em fundo todo o universo está flutuando e as coisas (Entes) são contingentes, poderiam não estar aqui.

Tudo o que você vê é excesso, pois poderia muito bem não haver nada.

E o dilema para a vida só existe em filmes mesmo, em histórias, em mitologias, em religiões, no mundo da técnica para resumir.

Faça este teste, pergunte a você mesmo o porquê que você faz algo, como trabalhar ou estudar, e a resposta estará presa em outra, como, para ganhar dinheiro, ou para arrumar um emprego e continue se perguntando o porquê e você verá que ou a resposta entre em paradoxo ou você faz algo para nada, pois não se amarra em técnica nenhuma. Sendo assim, se uma resposta não tem sentido ou fundamento, nenhuma tem, pois uma depende da outra.

E aqui termino o nosso passeio, espero que tenha sido acima de tudo divertido ou interessante, o que quis aqui foi passar um pouco do sentimento que Neo deve ter sentido quando saiu da Matrix, sentimento este que sentimos a cada estante sem nos darmos conta. E isso não ocorre sem um pouco de confusão sobre o que é o certo e o que é o mundo.

Se você aguentou ler até o fim, saiba que você é escolhido para uma vida mais interessante, mais suportável, mais inteligente e menos ingênua. Pois, suportar as dúvidas da nossa existência não é fácil, mas se sempre estivermos dispostos ao diálogo e ao respeito, sempre dá para levar uma vida que valha a pena. Mesmo tendo a certeza que não sabemos nada.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Matheus Amaral

Formado em Audiovisual, amante do cinema em todos os seus aspectos. Filósofo de bar. As vezes mistura as coisas...Desde pequeno assistia tudo o que via pela frente, cresceu lado a lado com o cinema e com as suas diversas vertentes.