Crítica | ‘El Camino: A Breaking Bad Movie’ é o melhor filme que não precisava ser feito em 2019

Continuar séries de TV em filmes não é uma exclusividade de Breaking Bad. Só em 2019 já tivemos dois longa-metragens oriundos de seriados, Downton Abbey e Deadwood. The Walking Dead terá seu universo expandido em uma trilogia cinematográfica, e nós poderíamos ainda listar algumas outras produções e colocá-las nesta categoria, como Entourage e Arquivo X.

Porém, a preocupação que girou em torno de El Camino: A Breaking Bad Movie era sobre o legado de uma das séries mais aclamadas da era de ouro da TV. Vince Gilligan, criador do seriado vencedor de 16 Emmys, já provou que sabe revisitar Albuquerque com excelência, na ótima Better Call Saulcriada por ele em parceria com Peter Gould. Restava saber se teríamos um epílogo respeitoso, equilibrando fã service e uma história coerente e bem amarrada.

Para ser mais direto e objetivo, permanecia a dúvida: teríamos aqui um caça-níquel? A resposta é, felizmente, não. Então, narrativamente, El Camino acrescenta algo à história de Walter White e Jesse Pinkman e amarra alguma ponta muito solta? Também não. E isso não é um problema no longa lançado pela Netflix.

El Camino: A Breaking Bad Movie começa no exato momento em que a série termina. E, embora nas suas duas horas de filme não haja pressa e a narrativa contemplativa e paciente faça jus ao que Breaking Bad proporcionou ao seu público entre 2008 e 2013, o longa é ágil em estabelecer o que quer. Jesse Pinkman (Aaron Paul) retorna à Albuquerque e procura os amigos Badger e Skinny Pete. Ele agora é acusado pela matança de Walter White (Bryan Cranston). mais um fardo imposto ao jovem pelo ex-parceiro, e precisa dar o fora o quanto antes.

El Camino: A Breaking Bad Movie (2019) – Netflix

Gilligan faz questão de apresentar Jesse em sua forma mais quebrada. O cativeiro com os neonazistas permanece vivo na mente do rapaz, em forma de flashback e em sua própria pele; as marcas são evidentes, físicas e mentais. Enquanto seu plano de fuga se desenrola – sim, El Camino não é nada mais que uma forma de mostrar não apenas que Jesse está livre mas como ele ficou livre (vide a cena final) –, situações incríveis são colocadas à mesa, com a simplicidade e a sagacidade que o roteiro (embora com alguns clichês a mais do que o normal) de Gilligan sabe trabalhar, em parceria, mais uma vez, com o ótimo desenho de som de Dave Porter.

A sensação de estarmos assistindo ao último episódio da série é inevitável. El Camino soa como o episódio 17 da quinta temporada, de duas horas, praticamente fazendo justiça ao personagem de Aaron Paul, impecável no papel. Periférico mas carismático, porém sem o magnetismo e a capacidade de abalar estruturas de Walter White, Pinkman recebe, enfim, o tratamento de protagonista. São duas horas de tela dedicadas à sua jornada pessoal e expurgo de seus demônios. Se não há muita ação, a simplicidade se une a momentos tensos e até cômicos, de um jeito que somente as produções de Gilligan nos acostumaram a ver.

O longa ainda promove uma série de participações especiais, de personagens que permaneceram vivos e contribuem ativamente com os eventos do filme, e outros que retornam em forma de flashback. Há quatro personagens que já morreram na série e marcam presença, pontualmente. Porém, essas participações ganham peso a partir do momento em que se discute a vida de Jesse em perspectiva: desde o início de sua parceria com Walt, quando a metanfetamina era um negócio resguardar a família e Pinkman era somente um ex-aluno e parceiro de ocasião que havia virado traficante, passando por sua paixão por Jane (Kristen Ritter), até os momentos em que deseja deixar os negócios e seu cativeiro. Tudo se resume a uma linha de diálogo com seus pais, que fala sobre culpa, oportunidades e recomeço. “Poucos tem a oportunidade de recomeçar”, diz um personagem a Jesse em determinado momento. E ele sabe reconhecer isso.

No entanto, fica aqui um registro. O ótimo Jesse Plemmons retorna como Todd (sim, perdoe esse pequeno spoiler). Sua participação é fantástica, e seu personagem, embora psicopata e detestável, é uma figura interessante. Sua participação em nada é gratuita e ajuda a entendermos  o presente de Jesse (as cenas de Pinkman entregando as armas são o contraponto moral e o que difere o rapaz de White).

El Camino: A Breaking Bad Movie (2019) – Netflix

Com o perdão do título desse texto, seria uma pretensão dizer, de forma séria, o que deveria ou não ser feito. A não ser que esta pretensão partisse do próprio realizador. Aqui, isso passa longe e uma coisa precisa ser dita: El Camino: A Breaking Bad Movie é uma produção feita com um carinho que salta aos olhos, com todos os detalhes possíveis, e honra o legado da série. Obrigado por mais esse passeio por Albuquerque, Vince Gilligan.

El CAMINO: A BREAKING BAD MOVIE
4

RESUMO:

Mesmo sem ser justificável do ponto de vista narrativo, El Camino: A Breaking Bad Movie nos leva de volta ao universo da série pelas mãos sempre competentes de Vince Gilligan.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...