Crítica | Em ‘O Pintassilgo’ sobra beleza e sofisticação, mas falta profundidade

Tudo em O Pintassilgo remete à sofisticação, ao clássico e ao antigo. Mas ao contrário do livro homônimo de Donna Tartt em que é baseado – ganhador do prêmio Pulitzer de ficção em abril de 2014 -, o longa do diretor John Crowley não agrada tanto.

Apesar do esforço do diretor em reproduzir a história da autora, que por sua vez foi inspirada no quadro do pintor holandês Carel Fabritius, o resultado do filme está longe de ser satisfatório. E ele se esforçou muito, temos que lhe dar esse crédito.

Tudo começa no Metropolitan Museum of Art, onde Theo (Oakes Fegley/Ansel Elgort) perde a mãe em um ataque terrorista. Antes de morrer, no entanto, ela consegue lhe mostrar sua obra favorita: O Pintassilgo. E quando o museu explode, o quadro, que sobreviveu ao ataque assim como ele, acaba indo parar em suas mãos, tornando-se, então, sua ligação mais forte com a mãe agora ausente.

O Pintassilgo foi claramente pensado para ser um filme/obra de arte, assim como o são as suas referências e, por isso, seu elenco, figurino, enquadramentos, absolutamente tudo, possui esse objetivo. Nada mais justificaria a presença de Nicole Kidman, por exemplo, cujo porte e elegância natural, além do carisma inegável, se encaixa perfeitamente na proposta. Seu papel, no entanto, é um tanto decepcionante – mesmo com longos 149 minutos de duração, não há tempo no filme para o desenvolvimento de sua personagem.

O Pintassilgo (2019)

E mesmo assim, não há que se fazer julgamentos muito duros quanto a isso. Traduzir um livro de 700 páginas para o Cinema não é lá uma tarefa para qualquer um. Escolhas precisam serem feitas e prioridades devem ser assumidas. E num material rico como o livro de Tartt, é claro que alguns personagens teriam menos peso.

Kidman interpreta Mrs. Barbour – mãe de Andy, um amigo de Theo -, a única pessoa em que ele conseguiu pensar quando a polícia lhe perguntou quem poderia ajudá-lo depois do atentado. Assim é que Mrs. Barbour, da forma como nos é apresentada, lembra Theo de sua própria mãe: como já dito, mesmo porte, mesmo gosto para se vestir e por que não dizer, mesmo gosto pela arte.

Respira-se bom gosto em O Pintassilgo e não falta talento na caracterização dos personagens e dos ambientes: o figurino é impecável, elegante, chique; e os cenários são maravilhosamente pensados – desde a loja de antiguidades de Hobie (Jeffrey Wright) até o deserto da Califórnia. O que faltou, porém, foi um pouco mais de profundidade.

O Pintassilgo (2019)

A explosão do Metropolitan Museum definiu a vida de Theo e construiu suas futuras relações que foram exploradas em quantidade, mas não em complexidade: seu convívio com a própria Mrs. Barbour e família, sua ligação com Pippa (Aimee Laurence/Ashleigh Cummings), que também estava no museu no dia do atentando, e até seu contato com o pai, Larry (Luke Wilson), que depois de praticamente abandoná-lo resolve aparecer para reclamar sua guarda.

A única relação que se pode dizer foi melhor construída, é aquela com Boris, um garoto que Theo conhece na escola de Las Vegas e se torna seu melhor amigo, interpretado pelo talentoso Finn Wolfhard (de Stranger Things) em sua fase jovem. Tudo acontece muito rápido e, apesar de facilmente deduzível, dá uma sensação não resolução.

Grandioso e requintado, poderia-se dizer sobre o filme de John Crowley. Mas se eu pudesse traduzir O Pintassilgo em uma frase, portanto, diria que é um belo quadro, mas sem moldura que lhe complete a aparência.

O Pintassilgo (2019)
O PINTASSILGO | THE GOLDFINCH
2

RESUMO:

Produzido para ser um filme/obra de arte, O Pintassilgo peca pela quantidade em favor da qualidade, e entrega um longa raso, apesar de longo.

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Flávia Leão

Cinéfila mineira que ama os filmes desde quando os clássicos da Disney ainda eram em VHS e os seriados desde que Jeffrey Lieber e J.J. Abrams inventaram Lost.