Crítica | ‘Campo do Medo’ é o mais perto que já chegamos do Inferno de Dante no cinema

Há muitos e muitos anos, lá no século XIV, em sua A Divina Comédia, o genial Dante Alighieri moldou toda a noção que a cultura ocidental tem do mundo inferior até hoje. Mais tarde, no século XV, tal visão foi ilustrada em uma pintura no tão conhecido Mapa do Inferno, de Sandro Botticelli. E agora, em pleno século XXI, com seu filme Campo do Medo (In the Tall Grass), Vincenzo Natali nos trouxe outra reprodução do Inferno de Dante, dessa vez na versão cinematográfica.

Nas palavras de Dan Brown, em seu livro Inferno, escrito em 2013-2014 (e que em 2016 também ganhou uma versão para o cinema),

“(…) La Mappa dell’Inferno – fora pintada por um dos gigantes da Renascença Italiana, Sandro Botticelli. Complexo diagrama do mundo inferior, aquele Mapa do Inferno era uma das visões mais aterrorizantes da vida após a morte já criadas. Escuro, sinistro e apavorante, o quadro até hoje causa espanto em quem o vê.  (…) Uma grande obra de arte inspirada em outra. O Mapa do Inferno de Botticelli era na verdade um tributo a uma obra literária do século XIV que havia se tornado um dos textos mais célebres da história… uma visão notoriamente macabra do Inferno cuja influência se fazia sentir até hoje. O Inferno de Dante.”

E assim, como uma forma de espelhamento do trabalho de Botticelli, Campo do Medo também é escuro, sinistro, apavorante (talvez não tão escuro assim – muitas cenas acontecem em plena luz do dia -, mas sinistro e apavorante com certeza) e totalmente adaptado para nossa realidade atual.

Da literatura para a pintura e desta para a tela do Cinema, o diretor conseguiu, literalmente, filmar a obra do famoso pintor italiano, causando a mesma espécie de sentimento que Brown detalhou em seu livro: espanto.

Assim é que a técnica sensorial que Natali imprimiu em seu longa é impressionante. Visto de cima ou por dentro, o matagal onde se passa a história parece tomar vida própria, uma vida que desde o primeiro segundo já se mostra pouco natural, apesar de normal – um vento que sopra sobre o mato, mas que não parece ser de bom agouro (soou estranho, não é mesmo?, mas é exatamente assim que acontece).

E tudo começa com um simples chamado, um pedido de socorro que vai acabar por misturar vida, morte, desejo, obsessão e prazer num ciclo vicioso e angustiante.

Tudo isso está ali, representado numa mulher grávida – Becky (Laysla De Oliveira, atriz de ascendência brasileira); em seu irmão, Cal (Avery Whitted), que cultiva um desejo incestuoso por ela; no estranho e ambicioso Ross, interpretado pelo competente Patrick Wilson (novamente como vilão depois de Aquaman); no inteligente Tobin, vivido pelo garoto Will Buie Jr.; e no determinando Travis (Harrison Gilbertson), que arrisca tudo para salvar a ex-namorada da situação em que se encontravam.

Filmado totalmente em ambiente aberto, onde o tempo e o espaço torcem-se sobre si mesmos, a história se desenvolve de forma bem ágil e eficaz enquanto, sob uma trilha sonora bem estimulante, acompanhamos os personagens, um a um, adentrarem o Inferno e reviverem repetidamente as suas angústias.

Dessa história que só podemos chamar de dantesca por fim, só se pode dizer que Campo do Medo  é uma das melhores produções do gênero terror já feitas pela Netflix desde A Maldição da Residência Hill. Era um filme para as telonas e, sem dúvida, é digno de nota.

CAMPO DO MEDO | IN THE TALL GRASS
4

RESUMO:

Campo do Medo é a melhor produção de Terror produzida pela Netflix desde a A Maldição da Redidência Hill, uma história que só podemos chamar de dantesca.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Flávia Leão

Cinéfila mineira que ama os filmes desde quando os clássicos da Disney ainda eram em VHS e os seriados desde que Jeffrey Lieber e J.J. Abrams inventaram Lost.