Artigo | ‘Bem Me Quer, Mal Me Quer’: a busca delirante por amor

Review of: AMOR PATOLÓGICO
Product by:
Dante Carelli Ferrara

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Rating:
4
On 8 de outubro de 2019
Last modified:8 de outubro de 2019

Summary:

Angélique se apaixona perdidamente pelo médico Louic, casado com Rachael. A jovem protagonista acredita que estão envolvidos um pelo outro. Entretanto, nota-se que a relação do suposto casal não é tão perfeita como Angélique idealiza.

Análise com spoilers do filme Bem Me Quer, Mal Me Quer (2002)

Bem Me Quer, Mal Me Quer (2002), trata da história de Angélique (Audrey Tautou), uma jovem artista plástica que se apaixona pelo bem sucedido médico Loic le Garrec (Samuel Lebihan). Infelizmente ele é casado com Rachel (Isabelle Carré), entretanto, na concepção da artista plástica, ele deixará a esposa para ficar com ela, pois ambos estavam profundamente envolvidos.

No decorrer do filme, Angélique narra a sua relação com Loic como muito romântica, como se tivessem sido feitos um para o outro. Rapidamente é perceptível que, na verdade, a relação não vai bem. Muitas situações estranhas ocorrem entre eles, em uma festa, a protagonista tenta se aproximar dele, mas ele reage como se a ignorasse, por mais que tente chamar a sua atenção.

Apesar do afastamento do médico, Angélique continua a acreditar na possibilidade de terem um relacionamento. No dia seguinte da festa, ele lhe manda passagens aéreas para viajarem para a Florença naquele dia. Ela vai para o aeroporto e mais uma vez sofre uma terrível desilusão, o seu amado sequer aparece para encontrá-la. Em um outro dia, a artista presencia Loic com a sua esposa em uma cena bastante romântica em que se beijam e em seguida ele diz para ela que a ama. Um amigo de Angélique, preocupado com ela, foi falar pessoalmente com o médico para tirar satisfação com ele e disse que Loic havia a magoado profundamente.

Próximo à metade do filme, a narrativa retrocede para o seu início e a história é contada da perspectiva de Loic. Acompanha-se o a rotina do médico até chegar no ponto da festa. Lá, ele e Angélique se encontram no banheiro acidentalmente, entretanto percebe-se que eles não se conheciam, apenas de vista. A artista então passou a mandar presentes não identificados para ele, desenhos e quadros, sempre com declarações de amor. Sua esposa fica enciumada com a quantidade de presentes recebidos e com as mensagens da artista obcecada e passa a desconfiar de Louic.

Dentro da história de Bem Me Quer, Mal Me Quer existe uma trama paralela. Uma paciente do médico o acusou por assédio e espancamento. Angélique na tentativa de proteger o seu amado, foi até a casa da paciente para obrigá-la a retirar a queixa. As duas discutiram e brigaram, a paciente caiu, em decorrência de um enfarte e a artista desabou da escada ferindo o rosto. Louic estava paranoico, de fato ele foi bruto com a paciente que o acusou, a segurou pelos braços, a chacoalhou e lhe deu uma bofetada. Chegou a pensar que poderia ser ela que tivesse o assediando com os presentes e as declarações de amor insanas. Devido a toda confusão o médico foi preso e sua reputação foi manchada.

A narrativa é propositalmente contada em um primeiro momento para confundir o telespectador e acreditar na versão de Angélique. Em praticamente todos os momentos em que ela vai atrás dele e ele não lhe dá atenção, é porque de fato mal se conhecem. A viagem da qual ela afirma terem combinando nunca existiu, não passando de um delírio, uma clara distorção de sua vontade sobre a realidade. Até ocorrer a virada do ponto de vista dos personagens, o telespectador é ludibriado pela vitimização delirante da protagonista. Na cena em que o amigo da artista critica a postura do médico em relação a ela, Louic pensa que ele na verdade era o namorado de sua secretária. Pouco tempo antes, ele a ameaçou de demiti-la, devido aos vários erros cometidos.

Perto do desfecho do filme, Angélique, após observar o beijo de Loic e sua esposa, entra em choque e tenta o suicídio. Por serem vizinhos, ironicamente, o médico a salva com ajuda dos paramédicos. Depois de ser socorrida por ele, a artista novamente volta a crer que ele a ama, permanecendo em um intricado círculo vicioso fantasioso. O menor gesto do seu amado, seja até mesmo um mero olhar para ela, já é o bastante para alimentar essa trágica ilusão.

Loic depois de algum tempo teve um insight e percebeu que a sua admiradora sempre foi Angélique. Sua esposa se separou dele e Loic estava se mudando da casa deles, a artista estava lá e questionou se ele não a levaria junto. Incisivamente o médico a contrariou e afirmou que jamais ficariam juntos. Ao virar de costas, sem pestanejar, a conturbada moça pegou uma estatueta de pedra e lhe golpeou. O médico rolou escada abaixo e desmaiou, permanecendo em estado grave, entretanto, após um período, Loic se recupera.

Passados alguns anos, ele retoma o casamento com a sua esposa e finalmente conseguem ter filhos. Ainda assim Angélique havia o marcado permanentemente, pois não conseguiu recuperar totalmente o movimento de uma das pernas e precisou da ajuda de uma bengala. Já a artista foi presa e internada em uma instituição psiquiátrica por alguns anos e foi diagnosticada com eretomania.

AMOR PATOLÓGICO

O caso de Angélique é um caso clássico dessa psicopatologia. Aliás, Bem Me Quer, Mal Me Quer propicia uma aula prática muito bem relatada desse complexo quadro clínico. A eretomania pode ser conceituado como um delírio em que o sujeito acredita com total convicção de que está apaixonado por alguém e muitas vezes é correspondido na sua fantasia amorosa. Por se tratar de uma psicose, o indivíduo tende a apresentar muitas vezes algum tipo de delírio e (ou) alucinação, rompendo assim com a realidade.

Outro fator fundamental da psicose é o rompimento do sujeito frente ao laço social, como muitas vezes Angélique dizia estar completamente sozinha, não tinha mais nada além de seu delírio amoroso por Loic. Apesar de ter alguns amigos preocupados com ela, tendia a se manter distante deles ou não valorizá-los. Em nome de sua fantasia deturpada, todos os que tentavam avisá-la do quanto a sua relação com Loic era ilusória, ela se afastava do convívio social ou procurava manipulá-los inconscientemente para favorecerem a manutenção de seu delírio. Um exemplo disso foi o momento em que ela indiretamente fez com que seu amigo fosse até o consultório do médico para se queixar do “abandono” dele por ela.

O título do filme (Bem Me Quer, Mal Me Quer), apesar de não corresponder com uma tradução do original em francês – À la folie… pas du tout ou Para loucura… de forma alguma – , representa bem o modo de funcionamento dessa estrutura clínica. Para Angélique, por não haver espaço para a dúvida, ela acreditava que em certos instantes ele a amava intensamente, já em outros, a desprezava. Esse é um mecanismo muito comum na psicose, em que pessoas, objetos e sentimentos são totalitários; ou são completamente bons ou ruins, não há um meio termo.

Ao se deparar com o menor sinal de questionamento, há um julgamento radical baseado no tudo ou nada, variando assim em um ciclo interminável. O psicótico não consegue sustentar uma angústia frente a uma ambiguidade, tende a se precipitar com uma avaliação infundada, sem sequer perguntar o posicionamento do outro. Em nenhuma cena Angélique se pergunta: “será que ele realmente me ama?”, pois esse questionamento assassinaria o seu delírio e o sentido existencial de sua vida.

A eretomania, em termos estruturais é considerada uma psicose, não costuma haver grandes questionamentos quanto a isso. Ainda assim, mesmo nas pessoas que não são portadoras desse transtorno psiquiátrico ou de algum outro é possível notar pequenos sinais desse quadro. Um exemplo típico é o caso da paixão, não é nada raro as pessoas idealizarem outras e terem um certo prazer e sofrimento em imaginar uma relação amorosa e desejarem veementemente a correspondência mútua. Freud dizia que a paixão se remete a um certo estado de desiquilíbrio psicológico momentâneo.

Há uma grande diferença entre a paixão e a eretomania, o primeiro goza da dúvida, muitas vezes teme-se o esclarecimento do sentimento do outro, luta-se para manter uma fantasia masturbatória. Já na eretomania, não existe a menor possibilidade da revelação, pois não há espaço para a dúvida, o outro é impossibilitado de interferir na preservação do delírio, pois o amor pelo outro e do outro é uma certeza. No final do filme, Loic ao dizer que nunca teria um relacionamento com a pintora, ela surta e quase o mata.

Bem Me Quer, Mal Me Quer se mostrou muito preciso e didático ao tratar a temática da eretomania. O roteiro e a edição de Laetitia Colombani foram imprescindíveis na constituição da narrativa da história, tomando o cuidado em evitar os furos e as contradições. Em um primeiro momento, busca-se enganar o telespectador, com o intuito de possibilitar uma identificação com Angélique e Loic é retratado como um cafajeste que trai a esposa grávida e ludibria a jovem pintora.

A virada na narrativa é perceber que Loic é uma vítima do delírio de Angélique, e por outro lado, ela é uma vítima de sua própria loucura e não da suposta monstruosidade do médico. Nem sempre o amor é algo louvável, revelando-se abusivo, tóxico e implacável em certas circunstâncias. Amar demais pode ser patológico, principalmente quando se ignora o desejo do outro.

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Dante Carelli Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.