Crítica | A representação crua do capitalismo em ‘Parasita’

Diretor de obras como Cão Que Ladra Não Morde (2000), O Hospedeiro (2006), Expresso do Amanhã (2013) e Okja (2017), Bong Joon-ho eleva seu poder satírico a um novo nível em seu mais recente filme, Parasita. Por meio de uma fusão de gêneros que nunca abandona a sátira através exploração do absurdo, o diretor emerge uma nova face a um tema tão explorado como o capitalismo. E não é à toa que foi premiado com a Palma de Ouro em Cannes este ano.

Em situação de extrema pobreza, a família Kim – o pai, Ki-taek (Song Kang-ho); a mãe, Choong-sook (Jang Hye-jin); a filha, Ki-jung (Park So-dam) e o filho, Ki-woo (Choi Woo-shik) – vive em um claustrofóbico porão em um bairro marginalizado na Coréia do Sul; roubam o wi-fi dos vizinhos e dobram caixas de pizza em troca de um mísero pagamento, sua única renda. Diante da situação, o diretor Joon-ho adota uma abordagem leve, instituída na comicidade baseada nos atos daquela família que desde o início dispõe de seus métodos quando o assunto é sobrevivência.

Quando um amigo de Ki-woo com maior poder aquisitivo muda para o exterior, o garoto assume seu lugar como tutor de inglês de Da-hye (Jung Ji-so), filha mais velha da rica família Park. Esse é o pontapé inicial da trama que consiste em cada membro da família Kim se infiltrar na casa, um por um, por meio de seus planos elaboradíssimos. A família se livra dos antigos funcionários enquanto se aproveita da ingenuidade dos ricos jogando o mesmo jogo que eles – fingindo aparências.

Em ordem para estabelecer uma relação como forma de acentuar as diferenças sociais que o longa pretende explorar, os Park possuem a mesma configuração da família primeiramente apresentada: um pai, uma mãe, uma filha e um filho. Daqui em diante, o filme constantemente trabalha com a justaposição de elementos em comum e suas diferenças, implícitas e explicitamente, seja por meio da sua montagem crua ou de nuances da fotografia.

Parasita transita entre os gêneros da comédia, do thriller e do drama, mas o roteiro perspicaz de Bong Joon-ho e Han Jin-won consegue fundi-los magistralmente em um só – quase como um gênero próprio – construído por meio de sátiras que preparam o espectador para suas inúmeras reviravoltas sem que estas possam ser previstas, ao mesmo tempo que são usadas para enfatizar a discrepância entre as classes.

Em sua segunda parte, com a inserção de novos personagens, o longa ganha um teor cada vez mais sombrio. Se a família Kim parecia se aproveitar dos mais ricos, esse papel logo se inverte aos reais parasitas do sistema capitalista. Por mais que haja uma relação amigável entre os patrões e os novos empregados, o diretor insere, em momentos ideais, elementos que tornam evidente que essa realidade não é possível.

Assim, de forma nada sútil, comentários arrogantes do Sr. Park se tornam mais comuns, como por exemplo,  os empregados “ultrapassarem os limites” ou as “pessoas que andam de metrô”  terem um cheiro específico; até planos de pessoas pobres abrigadas em um galpão após uma enchente rodeadas por doações são justapostas com o vasto closet da Sra. Park, preocupada com problemas totalmente distintos.

Bong Joon-ho quebra aos poucos as sutilezas construídas em seu filme conforme adentra suas camadas, se abstendo das metáforas pré-existentes. A constante criação de drama com uso de slow motion e uma trilha sonora digna de suspense do mais alto nível constituí uma progressão cada vez mais complexa, mas que sempre preza por agilidade.

Diante de seus artifícios, o título da obra não poderia ser mais apropriado. Enquanto uma das partes se beneficia e a outra é prejudicada, a relação de parasitismo é a própria representação do capitalismo, em sua forma mais crua – elementos que tornam Parasita uma obra-prima instantânea do tema.

Parasita é uma das atrações da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Estreia em 7 de novembro nos cinemas.

PARASITA | PARASITE
4.5

RESUMO:

Por meio de uma fusão de gêneros que nunca abandona a sátira através da exploração do absurdo, Parasita se classifica como uma obra-prima instantânea sobre o sistema capitalista.

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Rafaella Rosado

Jornalista apaixonada pela sétima arte desde pequena, quando achava que era possível assistir todos os filmes do mundo. Acredita que o cinema é a forma mais sensível de explorar realidades.