Crítica | Pautado pela violência e transtornos mentais, ‘Coringa’ explora a origem sádica de um dos personagens mais icônicos dos quadrinhos

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On 2 de outubro de 2019
Last modified:2 de outubro de 2019

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Desde que fez sua estreia na HQ “Batman #1”, em abril de 1940, publicada pela DC Comics, Coringa se tornou um dos maiores e mais memoráveis vilões dos quadrinhos. Criado por Jerry Robinson (1922-2011), Bill Finger (1914-1974) e Bob Kane (1915-1998), o personagem, que foi inspirado pelo romance “O Homem Que Ri”, de Victor Hugo (1802-1885), possui fortes traços de psicopatia e tem na violência sádica a sua principal característica. O abuso físico e psicológico que ele pratica com sua companheira e parceira de crime, Arlequina, é uma das maiores provas de sua insanidade.

Desde então, sua figura se tornou bastante famosa e um símbolo na cultura popular, sendo interpretada por diversos atores em produções televisivas e cinematográficas. Entre eles, Cesar Romero (1907-1994) na série Batman (1966) e no filme Batman (1966), Jack Nicholson em Batman (1989), Heath Ledger (1979-2008) em Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008), Cameron Monaghan na série Gotham (2014), e Jared Leto em Esquadrão Suicida (2016).

Apesar das inúmeras referências já criadas e uma gama de materiais para explorar, o diretor Todd Phillips buscou uma nova roupagem para Coringa (2019), que chega aos cinemas nacionais no dia 3 de outubro. O longa narra a sofrida trajetória de Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), um comediante que luta para ser levado a sério em uma decadente Gotham City dos anos 70, marcada por fortes ondas de violência, acentuada pela falta de empregos e desgosto da população com a classe política.

Coringa (2019) – Warner Bros.

É em um apartamento sujo dessa metrópole que encontramos o protagonista, extremamente magro e abatido pelas dificuldades da vida. Ao mesmo tempo em que tenta manter o emprego de palhaço, ele divide sua atenção para cuidar da mãe doente, Penny Fleck (Frances Conroy). A produção ainda traz Robert De Niro no papel do apresentador Murray Franklin e Zazie Beetz como Sophie Dumond.

A obra do cineasta tem essência visionária! É um filme pesado, sombrio, perceptível a partir das cores opacas e fotografia mais escura, e que relata com bastante crueza todas as consequências geradas pelos transtornos mentais. Diferente de outras produções, o filme não explora somente o lado cruel do icônico vilão, mas busca explicitar como as situações de sua vida, e a forma como ele foi reagindo a cada uma delas, o transformou em um psicopata. Arthur cresceu sem pai, sofreu maus-tratos e abuso quando criança, possui uma condição que o faz rir em situações de nervoso e sempre foi rechaçado pela sociedade. De uma forma ou de outra, seu destino não poderia ser promissor.

Claro que a experiência não teria sido a mesma sem a brilhante atuação de Joaquin Phoenix, que entregou uma das melhores performances masculinas dos últimos anos. A forma como ele construiu o papel é tão magnífica que já o coloca como um dos favoritos na categoria de melhor ator do Oscar 2020. Ainda é cedo para falarmos em uma possível vitória, mas uma indicação, a quarta em sua carreira, seria mais do que merecida. Para o trabalho, o ator utilizou influências que vão desde o espantalho de O Mágico de Oz (1939) até os artistas Buster Keaton (1895-1966), o grande rival de Charles Chaplin (1889-1977), e Ray Bolge.

Coringa (2019) – Warner Bros.

Apesar de o destaque ser do protagonista, que ocupa a tela a maior parte do tempo, outros atores emprestaram seus talentos para o enriquecimento da trama. Frances Conroy, conhecida por atuar nas séries A Sete Palmos (2001) e American Horror Story (2011), e Robert De Niro, Táxi Driver (1976) e Touro Indomável (1980), também estão excelentes em seus respectivos papéis, contribuindo para o sucesso do longa. Outro ponto positivo a ser lembrado é a belíssima trilha sonora, composta pela islandesa Hildur Guðnadóttir. A música melancólica combina perfeitamente com a aura sombria da narrativa, enfatizando ainda mais o seu tom dramático.

Em resumo, Coringa é bastante competente em tudo o que se propõe a apresentar. Distante da ação e da adrenalina presentes em grande parte dos filmes de super-heróis, a obra constrói uma história concisa e apresenta uma nova perspectiva de um personagem que já foi bastante explorado. O mais interessante, e talvez o melhor, do filme, é que ele não se preocupa somente em focar na carga estética do vilão, que é sim bastante atraente, mas em esmiuçar como todos possuem um Coringa em potencial dentro de nós.

Coringa (2019) – Warner Bros.
CORINGA | JOKER
5

RESUMO:

Dirigido por Todd Phillips e estrelado por Joaquin Phoenix e Robert De Niro, Coringa mergulha no doloroso universo de Arthur Fleck para mostrar como ele se tornou o maior vilão de Gotham City.

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Iron Ferreira

Carioca e Jornalista graduado. Admirador da comunicação e de suas linguagens. Acredita no cinema como ferramenta capaz de transmitir sentimentos, quebrar preconceitos e mudar o mundo.