Crítica | 1ª temporada de ‘The Politician’ é caricata e divertida

Que Ryan Murphy é um dos maiores nomes da televisão americana atual ninguém pode negar. O escritor, produtor e criador de séries que vão desde Gleeaté a mais recente premiada Poseassinou um contrato milionário com a Netflix para produzir seus novos conteúdos diretamente para a plataforma. Aumentando ainda mais sua importância no meio televiso, Murphy entrega The Politician, seu primeiro projeto em parceria com o serviço, o qual a confiança em cima está tão grande que já possui uma segunda temporada confirmada antes mesmo da estreia da primeira. 

Trazendo uma história que pode até parecer infantil por se passar em um ambiente escolar de alto nível, The Politician que faz um grande paralelo com a atual fase que o mundo está vivendo, principalmente relacionada à política. A trama gira em torno de Payton Houbart (Ben Platt), filho adotivo de uma família milionária e que sonha em ser presidente dos Estados Unidos. Desde pequeno, Payton possui um plano de carreira traçado para conseguir chegar ao cargo dos sonhos e, para que consiga iniciar essa jornada, decide se candidatar à presidência do corpo estudantil do colégio em que estuda.  

Porém, não entenda mal. Por mais que Murphy tente fazer paralelos com o mundo atual a partir da boa premissa que a série possui, é inegável que seu foco deixa de ser a política, para dar espaço a uma trama de briga de egos e interesses, tornando-se um novelão caricato – propositalmente – e bastante divertido. É notável toda sua fórmula, humor ácido e estilo de direção e fotografia durante todos os 8 episódios da série, se tornando reconhecível como um produto de Ryan Murphy logo nos primeiros minutos.  

O primeiro episódio, dirigido pelo próprio criador, é, inegavelmente, o melhor entre os 8. A premissa e os personagens são estabelecidas rapidamente sem deixar que o espectador se perca em meio a tempestade. O ritmo acelerado já conhecido de Murphy é utilizado de forma certeira aqui, deixando parecer que a trama da temporada inteira foi contada em apenas um episódio. Isso não é um defeito, muito pelo contrário, é apenas uma marca registrada que faz com que o projeto tenha uma marca pessoal. A curiosidade perante ao que vai acontecer é praticamente imediata, porém, o mesmo ritmo e fluidez narrativa não permanece durante o decorrer da temporada. 

É válido notar que o roteiro procura inserir personagens demais no núcleo principal, mas se preocupa em desenvolver corretamente pouquíssimos deles. A vilã, Astrid (Lucy Boynton), é caricata ao extremo propositalmente, trazendo as principais características de uma bad girl de ensino médio. O potencial da personagem é subutilizado, e muitas vezes, acaba sumindo da trama por um certo período de tempo sem justificativa alguma. Muitos personagens sofrem desse mesmo mal, e por mais interessantes que sejam, todo o protagonismo e atenção acabam sendo colocados apenas em Payton.  

E nem mesmo ele próprio consegue fugir de alguns erros do roteiro. Extremamente metódico e centrado, Payton é um personagem interessante de se acompanhar mesmo deixando claro seus defeitos desde o primeiro momento em que aparece em cena. Sua personalidade consegue se assemelhar bastante à de Rachel, interpretada por Lea Michele em Glee. jornada de autoconhecimento de cada um consegue ser extremamente parecida, com os dois passando por um arco de mudanças pessoas para se tornarem personagens mais palpáveis. Porém, ao contrário de Rachel, o desenvolvimento desse arco soa um pouco apressado em The Politician 

Ben Plattentretanto, é um show à parte. O ator ganhador de um Tony e Grammy esbanja talento em tela, conseguindo transitar perfeitamente entre os momentos mais estourados do personagem e os momentos mais controlados. Murphy não resiste em deixar de lado momentos musicais sempre que é permitido, e acrescenta performances onde o ator pode provar – mais uma vez, como se os prêmios recebidos não fossem o suficiente – seu grandioso talento. Esses momentos podem parecer fora de hora algumas vezes, mas a presença de tela de Platt consegue anular qualquer incômodo que as performances possam trazer. 

Em todas as suas séries, Ryan Murphy sempre consegue apontar todos os holofotes para seus projetos ao trazer nomes de peso para o elenco. Dessa vez, ele volta a trabalhar com Jessica Langee ainda marca o retorno de Gwyneth Paltrow à televisão. Paltrow, deslumbrante com o figurino pensado nos mínimos detalhes, se destaca quando está em cena, mas é Lange que marca presença aqui. Sem entrar em detalhes da trama, sua personagem é uma das mais interessantes apresentadas pelo roteiro, e a atriz consegue extrair o melhor dela com sua atuação sempre penetrante.  

Com o passar dos episódios, The Politician mostra que acredita demais em si mesma, e acaba deixando passar boas oportunidades para se sobressair no que está sendo feito. Por mais que o desenrolar da trama seja divertido e prenda a atenção, é perceptível que havia algo a mais para ser retirado dali. A preocupação com os dramas adolescentes e o conflito de egos toma tempo demais quando, na verdade, o roteiro poderia dar espaço para algo muito mais marcante. O final de temporada, por exemplo, utiliza 25 dos 60 minutos de duração para apresentar o que virá a seguir, ao invés de focar-se em encerrar o que foi proposto por agora.  

Ryan Murphymais uma vez, prova que sua relevância na televisão atual não é algo momentâneo. Por mais que deixe a peteca cair durante o desenrolar da temporada, ele consegue provar que seus projetos merecem atenção, entregando uma trama divertida, com um humor ácido, figurinos e direção de arte extravagantes, e bons personagens. Não é a melhor e nem a mais criativa série apresentada por ele até então, mas mesmo com dificuldades no meio do caminho, merece a sua atenção.  

THE POLITICIAN – 1ª TEMPORADA
3.5

RESUMO:

Propositalmente caricata, The Politician possui seus defeitos, mas prova, mais uma vez, que Ryan Murphy é um dos nomes mais interessantes em ativa na televisão americana.

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.