Crítica | ‘Ad Astra: Rumo às Estrelas’ utiliza viagem espacial para falar do vazio interno

A exploração por novas formas de vida em outros planetas sempre foi um interesse a ser analisado em obras cinematográficas desde 1902, com Viagem à Lua, e é constantemente abordada por filmes de ficção científica, impulsionados pela inovação realística de Stanley Kubrick em 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968). A imaginação diante do desconhecido possibilitou uma amplitude de temas, assim como as diferentes abordagens referentes aos mistérios do espaço sideral. Ad Astra: Rumo às Estrelas

Em Ad Astra: Rumo às Estrelas, o diretor e co-roteirista James Gray propõe uma desconstrução da grandiosidade das expedições e da idealização de seus heróis para explorar a psique de Roy McBride (Brad Pitt) por meio de uma jornada de autodescoberta que ultrapassa os limites da estratosfera.

Representação de um astronauta modelo – quase uma personificação de Neil Armstrong –, Roy McBride está disposto a realizar qualquer missão em nome de seu país. O protagonista dedica sua vida a dar continuidade ao legado do pai (Clifford McBride, interpretado por Tommy Lee Jones), ao mesmo tempo que vê o trabalho como uma forma de isolamento da civilização, repreendendo qualquer sentimento que o desvie de seu foco.

Desaparecido há 16 anos em uma missão atrás de vida extraterrestre em Netuno, Clifford realizava experiências com um “material altamente secreto”, que agora afeta todo o sistema solar e ameaça a vida humana. Logo, Roy é convocado a uma viagem ao planeta mais distante do sol sob o alerta de que seu pai pode não estar morto.

Aqui, o inimigo já não é mais o desconhecido, não são os piratas brigando por recursos na lua, nem os ataques de primatas dentro da espaçonave; mas a vulnerabilidade que tanto o reprimiu. A possibilidade de o pai estar vivo desperta lembranças em Roy além da simples escolha de seguir os mesmos passos em busca da aprovação da figura paterna.

Se a primeira parte de Ad Astra representa o lado no qual o protagonista demonstra-se passivo em relação ao trabalho, envolto por cores mais quentes – o vermelho de Marte – e no qual o tempo é um simples fator representado pela rapidez da viagem de um planeta a outro; conforme o protagonista adentra as camadas mais profundas de sua mente, o azul de Netuno preenche a tela na mesma medida que a distância dos bilhões de quilômetros se acentuam e colidem com sua solidão.

Assim, os problemas e questionamentos do longa saem das limitações daqueles que viajam pelo espaço, abrindo possibilidades para a identificação protagonista/espectador. A fotografia de Hoyte van Hoytema (Interstellar) constantemente nos coloca no traje de Roy, assim como utiliza close ups em seu rosto para enfatizar a transição de perspectiva e a alternância de foco na tela para o que é considerado “essencial” pelo protagonista.

A narração em off, ainda, aprimora o estudo do personagem que progride da ausência de sentimentos para um confronto de suas escolhas e a aceitação de seus traumas e, por fim, uma mudança em relação ao presente. Seu processo de cura resulta em um forte sentimento de esperança, mas não em relação ao espaço.

James Gray toca no ponto mais alto da sensibilidade e cumpre seu objetivo em criar “a representação mais realista das viagens espaciais que foi colocada num filme”, como disse. Ad Astra: Rumo às Estrelas contrapõe o vazio eterno do espaço com o vazio interior de seu protagonista em uma viagem de exploração à solidão e a aceitação da vulnerabilidade como um fator essencial do ser humano.

AD ASTRA: RUMO ÀS ESTRELAS | AD ASTRA
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RESUMO:

Ad Astra: Rumo às Estrelas contrapõe o vazio eterno do espaço com o vazio interior de seu protagonista, em uma viagem de exploração à solidão e a aceitação da vulnerabilidade como um fator essencial do ser humano.

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Rafaella Rosado

Jornalista apaixonada pela sétima arte desde pequena, quando achava que era possível assistir todos os filmes do mundo. Acredita que o cinema é a forma mais sensível de explorar realidades.