Crítica | ‘Marianne’, série de terror da Netflix, é assustadora

Ao longo da história do cinema e séries de TV, vimos os personagens mais clássicos do terror serem usados ao extremo. Não somente utilizados, mas re-significados, redefinidos e transfigurados. A figura da bruxa já nos apareceu sob diversas formas. A Feiticeira, Abracadabra, Da Magia à Sedução, Harry Potter, Sabrina — A Aprendiz de Feiticeira, A Bruxa de Blair, entre outros. O sentido de bruxaria adquiriu tantos conceitos com o passar do tempo que sua aplicação pouco inspira medo atualmente. Mas esse não é o caso da nova série da Netflix, a francesa Marianne, criada por Samuel Bodin.

A trama segue Emma (Victoire Du Bois), uma jovem autora que obteve sucesso escrevendo livros sobre uma bruxa aterrorizante chamada Marianne. Emma está longe de ser uma protagonista usual por sua personalidade ser de uma mulher sagaz, perspicaz, mas também presunçosa e insolente. Numa tarde de autógrafos, sua vida é interrompida por Caroline, que exige que Emma volte a Elden — sua cidade natal — para encontrar Marianne. Nesse momento, descobrimos que a personagem, aparentemente ficcional, havia saído dos pesadelos da escritora.

De volta a Elden, Emma, na companhia de sua assistente, a doce e ingênua Camille (Lucie Boujenah), precisa enfrentar os fantasmas que deixou para trás quando partiu quinze anos atrás. Inclusive uma bruxa aterrorizante que utiliza de manipulações e crueldades para convencê-la a continuar escrevendo sua história. O fato de milhares de pessoas lendo sobre ela e pensando nela a tornam cada vez mais forte.

Marianne aproxima-se muito da atmosfera da recente A Bruxa. O cenário frio, com poucas cores, as árvores com folhagens secas. Além disso, o desconforto criado por várias cenas também se assemelha. Há várias ocasiões de jump scares, mas não unicamente. A série é bem-sucedida em criar um clima crescente de horror, principalmente porque o assombro causado não se baseia em figuras explicitamente sobrenaturais e desfiguradas. A aflição ao assistir está em seres humanos comuns comportando-se de forma bizarra, como correr nus para a floresta, cuspir no olho de um corvo ou cortar o próprio braço.

Marianne (Netflix)

A produção segue a fotografia habitual do gênero. Bastante clara em situações onde não há perigo e pouca iluminação em momentos de tensão — tirando algumas exceções. Outro ponto a ser elogiado são os inserts de imagens feitos em várias cenas, auxiliando a desenvolver um bom ritmo. Os diálogos também merecem destaque, principalmente os pronunciados pela bruxa, pois só eles sozinhos já causam pavor. Os trechos retirados dos livros de Emma são macabros.

Apesar do saldo positivo para obras desse gênero, a série acaba indo por um caminho um tanto previsível sem muitas surpresas na representação da bruxa. Diferente de A Maldição da Residência Hill, que utilizou o sobrenatural apenas como pano de fundo para tratar de problemas humanos, Marianne pouco o faz. Suas entrelinhas, se de fato existem, são muito superficiais para provocarem impacto.

No final, um acontecimento, terrível mas possível de se prever, deixa em aberto o caminho de Emma, além de sugerir uma segunda temporada. No geral, Marianne pode ser classificada como uma boa obra de terror, prendendo o público até o fim, mas que perde ao pouco se aprofundar em alguns temas.

MARIANNE – 1ª TEMPORADA
3.5

RESUMO:

A nova série de terror da Netflix, Marianne assusta bastante, mas perde a oportunidade de desenvolver entrelinhas e se aprofundar em si mesma.

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Isa Carvalho

Jornalista e estudante de cinema. Acredita que o cinema é um documentário de si mesmo, em que o impossível torna-se parte do real. "Como filmar o mundo se o mundo é o fato de ser filmado?"