Crítica | ‘A Vida Invisível de Eurídice Gusmão’ pulsa e fala, muito mais do que palavras

Alguns cineastas conseguem expressaratravés dos atores e diálogos, tudo aquilo que precisam para atingir o público. Outros, vão além, e unem a isto outros artifícios que julgam necessários para uma experiencia do real através do fictício. Karim Ainouz é um deles, tudo em seu filme pulsa e fala, muito mais do que as palavras.

Em O Céu de Suely (2006) o posto de gasolina ganha vida própria e une-se a personagem de Suely (Hermila Guedes) no centro da trama. Em Viajo Porque Preciso, Volto Porque te Amo (2009) a estrada é protagonista, a voz de Irandhir Santos guia o público, mas o rumo a se seguir é decidido pela própria estrada. Em seu novo longa, A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, adaptado do romance de 2016 escrito por Martha Batalha, as irmãs Guida e Eurídice são cruelmente separadas, impedidas de viverem os sonhos que alimentaram juntas ainda adolescentes durante a década de 50. Juntamente com as irmãs as árvores e o verde do Rio de Janeiro ganham vida e são as únicas em cena durante todo o tempo do longa. As irmãs se unem a esperança que elas possuem de se reencontrarem. 

Eurídice ganha vida através de Carol Duarte, uma jovem tímida quando comparada a sua irmã Guida, interpretada por Julia Stockler. Ambas vivem juntas com seus pais, no entanto, apesar de terem sido criadas juntas, possuem personalidades completamente diferentes. O que as irmãs têm em comum em suas vidas, além do amor uma pela outra, é a sua posição no mundo em que vivem. Na sociedade machista e retrógrada brasileira do século XX, Eurídice e Guida não são as autoras de sua própria história, mesmo que tentem. 

A dupla de irmãs apoia uma na outra os sonhos que possuem. Enquanto Eurídice sonha em ser uma pianista renomada, Guida pretende ter uma vida fora do país com o cara por quem está apaixonada. Ambos os planos não dão certo, e não por falta de tentativa ou vontade, mas porque a sociedade na qual aquelas mulheres viviam ditavam o que deveriam fazer, como e quando. Ter um filho, não é questão de vontade, e sim de dever, assim como ser casada e construir uma família de acordo a estrutura tida como normal na época. Sendo assim, Eurídice e Guida devem abandonar seus sonhos, vontades e desejos para se encaixar nos moldes vigentes, se tornando mulheres que não estão ali para elas, mas sempre para os outros, tendo suas vidas e histórias apagadas por aqueles que mais amam. 

Diferente de Guida, Eurídice ficou e tentou se adequar aquilo que a apresentaram como a vida que deveria levar, construindo um futuro a partir da perspectiva dos outros sobre ela. A única coisa que Eurídice manteve em sua vida no qual realmente era dela/para ela, foi seu piano. O piano da protagonista é um dos grandes personagens do filme, o mesmo ganha vida quando toda a subjetividade da personagem é passada para ele. “Cadê o piano?”, é a frase dita por Guida ao voltar de viagem. Só depois de perguntar isso, é que pergunta sobre sua irmã. Mas não é necessário falar seu nome, todos sabem que no fundo, ela é o piano. Os sonhos são com relação ao piano, o maior espaço ocupado na casa é do piano, é o piano que pedem que ela toque quando precisam se divertir. “Meus dedos não conseguem parar de toca-los”, porque se eles parassem, Eurídice não teria mais prazer ou algo que desse sentido em sua vida. Até quando faz sexo com seu marido na sala, o foco da cena é o piano, e não eles. É o piano que ela decide respeitar e preservar, não querendo atingi-lo de forma alguma. Mas é a ele também que ela agride quando está desiludida com a sua vida. Aquilo que mantinha viva a lembrança de seu passado, e que a guiava rumo a concretude do seu objetivo, passa a ser um peso em sua memória. 

Os homens, que apesar de não serem os protagonistas de A Vida Invisível, são os protagonistas da vida das duas irmãs, não se importam com o que elas sentem ou que querem. Tanto o marido de Eurídice (Gregório Duvivier), quanto seu pai (António Fonseca), conversam sobre sua vida, com ela presente, mas como se não estivesse. Além de desaparecer na fala deles, ela desaparece também da cena, a câmera usualmente corta sua cabeça, evidenciando o que realmente importa ali: o corpo, com o qual ela serve seu marido, e servindo seu marido, constituindo uma família, ela serve também a seu pai. Uma mulher que não precisa sonhar, pensar, querer, basta fazer de modo que beneficie aqueles com quem vive. 

Difícil assistir a essas cenas e não lembrar de Jeanne Dielman, de Chantal Akerman (1975), uma mulher cortada de seu próprio filme e história. O recurso que ela precisa para lembrar que é realmente alguém em sua casa e em sua vida são os espelhos. Os espelhos utilizados durante o filme se fazem necessários parar reforçar a imagem que a aquela mulher possui, ela e sua irmã, e que mesmo com os empecilhos que encontram durante a vida parar perder a imagem de quem elas são, é necessário resistir. 

No início do filme, a floresta, um dos últimos lugares em que Eurídice e Guida se encontram juntas, é também o momento simbólico no qual uma se perde da outra, passando a gritar uma o nome da outra na esperança de que em algum momento, elas consigam se reencontrar. O verde, a floresta e plantas, são o que ambas possuem em comum apesar de passarem tanto tempo separadas. Apesar de não estarem mais juntas, a esperança que elas têm de se reencontrar pulsa, tonando-se palpável, através de cartas, aquilo que as sustentam. É através das cartas que elas escrevem uma para a outra o momento no qual elas conseguem se expressar e colocar pra fora tudo aquilo que a sociedade as fez. 

Assim como o nome sugere, A Vida Invisível  aborda o quanto aquelas mulheres foram apagadas em suas próprias vidas, Eurídice principalmente. Guida, mesmo com todos os empecilhos e caminhos que foi obrigada a tomar, sendo marginalizada em todos os lugares da sociedade, fez tudo o que queria e podia para se tornar uma mulher livre dona de sua própria vida. Enquanto Eurídice, mesmo na velhice (Fernanda Montenegro), ainda não tinha noção de tudo o que a rodeava e daquilo que foi o cerne de suas angústias. Ela só pôde manter a esperança, até o fim, algo que mesmo tentando, nenhum homem nunca conseguiu tira-la. 

*Cobertura direto do CineBH

A VIDA INVISÍVEL DE EURÍDICE GUSMÃO
4.5

RESUMO:

Tudo em A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, de Karim Ainouz, pulsa e fala, muito mais do que as palavras.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.