Crítica | Em ‘Peterloo’, Mike Leigh apresenta de forma crível e atual um violento episódio da história britânica

Retratando um massacre ocorrido na Inglaterra em 1819, onde membros da cavalaria foram ordenados a atacar milhares de manifestantes que se juntaram para lutar por direito ao voto entre outras revindicações, Peterloo é um extenso exercício que visa mostrar como as massas se aglomeram e como sua força é violentamente reprimida quando consegue assustar os poderosos.

Escrito e dirigido por Mike Leigh, indicado ao Oscar de melhor roteiro e direção em 1996 por Segredos e Mentiras, o longa a manifestação pacífica se transformou em dos episódios mais brutais e notórios da história britânica.  Mais de 60 mil pessoas foram à praça de St. Peter, em Manchester, para reivindicar uma reforma política. As forças do governo britânico reprimiram a manifestação com violência, deixando muitos manifestantes mortos e centenas de outros feridos.

Rory Kinnear, Maxine Peake, Neil Bell, Philip Jackson, Vincent Franklin, Karl Johnson e Tim McInnerny lideram o competente elenco. Mas aqui não encontramos um único protagonista, mas personagens que se relacionam com o meio contaminado pela miséria e a injustiça. Encontramos pequenos grupos e agremiações de familiares, trabalhadores e mulheres que no combate a miséria acabarão por se unir pela força do meio em que vivem.

Neste primeiro pólo de personagens, percebemo-os como uma mesma força em expansão, que aos poucos consegue ir deixando de lado suas diferenças, por verem incontáveis semelhanças em sua situação e caminharem por um interesse em comum.

Peterloo (2018) – Amazon Studios/Diamond Films

Esta força se choca com um minoria aristocrata (numérica é claro) que percebe logo no início às falências que suas bases ideológicas apresentam. Sendo assim, os antagonistas de ocasião realizam incontáveis reuniões e debates para tentar conter a nova ameaça e proteger sua potência. E como Maquiavel já nos ensinou em “O Príncipe”, se der para ser amado (respeitado) seja, mas quando a ideologia falhar, sente a mão. (Obviamente ele disse com essas palavras).

Peterloo, em alguns aspectos, se assemelha muito com os romances de tese do século XIX, pois o meio é fator determinante para as relações e as ações dos personagens. Dadas as situações, agem como poderiam agir e retornam ao equilíbrio como da forma como poderiam retornar, evidenciando a luta de classes e como ela ainda se mostra muito atual.

O figurino e os cenários são impecáveis; as fábricas, as pequenas casas de operários, as assembleias e por aí vai, são um dos aspectos que mais captam a imaginação do espectador e o transportam para a época.

O clímax do longa é bem coreografado, visualmente satisfatório, revoltante, porém, inevitavelmente, chegamos ao terceiro ato um tanto que cansados. A estrutura narrativa, por mais que objetiva, se mostra um tanto cíclica, repetitiva e expositiva demais. É um filme que não tem pressa de chegar no ápice do acontecimento, que é o grande fervor social e o ataque brutal da cavalaria inglesa. Deste modo, o longa acaba por ficar um tanto maçante e cansativo, pois parece que vemos as mesmas cenas com outras roupagens. Porém, está não deixa de ser a proposta: um filme que almeja ser contemplado com calma.

Peterloo (2018) – Amazon Studios/Diamond Films

Peterloo é um filme atual, objetivo, visualmente cativante e inteligente ao mostrar diferenças sociais, situações de miséria e a luta pela conservação da ordem que já se encontra presente. Sua narrativa se mostra lenta, repetitiva e em alguns momentos, cansativa. É um filme que poderia conversar com mais pessoas do que de fato conversará.

PETERLOO
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RESUMO:

Peterloo é um filme objetivo, real e mostra a miséria dos trabalhadores do século XIX de forma de forma crível e atual.

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Formado em Audiovisual, amante do cinema em todos os seus aspectos. Filósofo de bar. As vezes mistura as coisas...Desde pequeno assistia tudo o que via pela frente, cresceu lado a lado com o cinema e com as suas diversas vertentes.