Festival de Toronto | Dia 02: Jamie Foxx tem melhor atuação em anos por ‘Luta por Justiça’; ator e elenco são elogiados pela crítica

Na sexta-feira (06), segundo dia do Festival de Toronto foram exibidos os longas Just Mercy, de Destin Daniel Cretton (EUA); e Blackbird, de Roger Michell (Reino Unido) na seção de gala. Enquanto isso, na seção especial foram exibidos Military Wives, de Peter Cattaneo (Reino Unido); Dor e Glória, de Pedro Almodóvar (Espanha); The Friend, de Gabriela Cowperthwaite (EUA); While at War, de Alejandro Amenábar (Espanha); Parasite, de Bong Joon-ho (Coréia do Sul); Hope Gap, de William Nicholson (Reino Unido); e The Other Lamb, de Malgorzata Szumowska (Irlanda, Bélgica, EUA).

Seção de Gala

A seção de gala no segundo dia do festival foi marcada por Luta por Justiça (Just Mercy), de Destin Daniel Cretton (EUA). Após o sucesso de Temporário 12 (2013), e do longa O Castelo de Vidro (2017) Cretton retoma sua parceria com a atriz Brie Larson (Capitã Marvel) em Just Mercy. Ao seu lado, estão Michael B. Jordan, Jamie Foxx, Rob Morgan, Tim Blake Nelson, Rafe Spall, O’Shea Jackson Jr. e Karan Kendrick.

No filme, o advogado Bryan Stevenson (Jordan), educado em Harvard, vai ao Alabama para defender os desprovidos de direitos e condenados injustamente – incluindo Walter McMillian (Foxx), um homem condenado até a morte, apesar das evidências que provam sua inocência. Bryan luta incansavelmente por Walter com o sistema contra eles. O filme é baseado no livro de 2014, Just Mercy – A Story Of Justice And Redemption de Bryan Stevenson, que também é produtor do longa.

O longa foi muito bem recebido pelo público, sendo aplaudido por oito minutos. As performances dos protagonistas foram destacadas, em especial a do ator Rob Morgan que, de acordo a jornalista Jenelle Riley, possui cenas de “partir o coração”. Na conferência de imprensa do filme, o ator falou sobre a representação do homem negro no cinema e na tv. “Muitas vezes, quando homens negros são mostrados na mídia, eles vão direto para o elemento estereotipado de bandido, que dessensibiliza as pessoas para a nossa existência”.

Jamie Foxx em “Luta por Justiça (2019)

Para o The Guardian, “O filme é muito mais bem-sucedido ao interpretar os mocinhos. Como a mulher que ajudou Stevenson a criar sua organização sem fins lucrativos, Brie Larson é sólida, mas são os dois homens no centro do filme que realmente roubam nossa atenção. As credenciais de estrela de cinema de Jordan foram afirmadas várias vezes neste estágio, mas continua sendo uma alegria vê-lo liderar e aqui ele retira seu charme de marca registrada para uma mudança mais discreta que sua permanece tão eficaz quanto qualquer coisa que já o vimos fazer. Stevenson acreditava na imparcialidade acima de tudo, e as cenas mais profundas são quando vemos o ultraje silencioso de Jordan sobre como a corrida influencia a escala, para ele e para as pessoas ao seu redor. O heroísmo dele é muito mais eficaz por causa da simplicidade e do desempenho de Jordan. Ele é um homem da lei que quer um sistema justo, independentemente de raça e renda, e é humilhante e emocionante vê-lo tentar conseguir isso”.

O site destaca também a performance de Jamie Foxx, que a muito tempo, não tinha um trabalho como este. “Foxx não faz algo muito memorável há tanto tempo que agora é fácil esquecer o ator que ele é, mas ele é excelente aqui, evitando um caráter excessivamente educado e entregando um retrato poderosamente contido de um homem que só quer ir para casa. Ambas as performances poderiam muito bem entrar na disputa de prêmios, mas o filme sofre a direção operária de Creton. A pontuação, a cinematografia, a sensação geral do filme – não precisava ser essa média esmagadora. Entendo a necessidade de permitir que os fatos tenham espaço para respirar, mas ainda assim, um filme mais perfumado, mais irritado e confiante seria possível sem desviar a verdade. Just Mercy é um drama direto, sem frescuras, que tem um efeito inegavelmente emotivo. O final, em particular, embora talvez vá longe demais, é incrivelmente emocionante e o epílogo do filme lembra que o trabalho corajoso e importante de Stevenson infelizmente ainda não acabou”.


Outro filme exibido na seção de gala foi Blackbird, de Roger Michell (Reino Unido). Roger Mitchell, diretor do clássico Um Lugar Chamado Notting Hill (1999), retorna ao Festival de Toronto com Susan Sarandon, Kate Winslet, Mia Wasikowska, Sam Neill, Lindsay Duncan, Rainn Wilson, Bex Taylor-Klaus e Anson Boon. Em Blackbird, uma mãe em estado terminal (Susan Sarandon) convida sua família para sua casa de campo para uma reunião final, mas as tensões rapidamente se espalham entre suas duas filhas (Kate Winslet e Mia Wasikowska). O filme é um remake do premiado filme dinamarquês Coração Mudo (2014), de Bille August. Durante a premiere do filme, Sarandon desabafou: “Na minha idade, tudo o que me oferecem são pessoas morrendo””.

De acordo com o Screen Daily, o elenco pode atrair ao público, e ele possui premissas similares ao Album de Família (2013), de John Wells, entretanto, não consegue manter o mesmo ritmo do filme. Blackbird “atrairá o público mais velho, e tem considerável poder de estrela graças aos vencedores do Oscar Sarandon e Kate Winslet. A investigação do Blackbird sobre a dinâmica familiar espinhosa dá ao filme um forte gancho de marketing – pense nisso como uma variação muito mais lenta de Albúm de Família (2013) – embora críticas medíocres possam limitar as perspectivas comerciais….

Blackbird (2019)

“Eventualmente, porém, o Blackbird (que, como Coração Mudo, foi escrito por Christian Torpe) revela-se um conto despretensioso, mas previsível. Animosidade entre irmãos, problemas de relacionamento, segredos há muito enterrados e mensagens afirmativas estão todos guardados e, embora o elenco faça um trabalho razoavelmente bom em infundir a história com o coração, isso não adiciona muito ao nosso conhecimento compartilhado de assistir uma família agridoce com dramas como este. De certa forma, o bom gosto de Michell prejudica o material, que é tão educado que nunca considera o quão radical (e sombria, hilariante) a decisão de Lily é. Em vez disso, o filme é tão polido e indefinido quanto a casa imaculada de Lily. É uma pena que a presença garantida de Sarandon não seja suficiente para superar as deficiências significativas do filme…”.


Seção Especial

Foram exibidos, no segundo dia do festival, sete longas na seção.

Dor e Glória, de Pedro Almodóvar (Espanha) e Parasite, de Bong Joon-ho (Coréia do Sul), que já haviam sido exibidos no Festival de Cannes 2019, fizeram estréia em solo canadense, atraindo público e a crítica especializada.

Foi exibido também The Friend, de Gabriela Cowperthwaite (EUA). A diretora do aclamado documentário Blackfish (2013) retorna com um drama baseado no premiado artigo da Esquire de mesmo nome, escrito por Matthew Teague. Quando Dane (Jason Segel) se muda para ajudar seus melhores amigos da faculdade, Nicole (Dakota Johnson) e Matthew (Casey Affleck) Teague, os três esperam uma estadia curta. Nicole foi diagnosticada com câncer e Matthew está lutando para acompanhar suas necessidades enquanto tenta ajudar a criar suas duas filhas. Mas, como um gesto temporário se estende a um arranjo de vida indefinido, ele praticamente deixa sua própria vida para trás. Uma fonte de apoio doce e robusta, o compromisso de Dane se estende para além do dever e tem o custo de seu próprio trabalho e relacionamentos. À medida que a condição de Nicole piora, as linhas entre amizade e família começam a desaparecer.

As performances do trio protagonista foi muito elogiado pelo público. De acordo com a Variety, o filme não conseguiu fazer o que o artigo da Esquire faz, sintetizar. “Cuidados paliativos, subtramas complicadas […] e uma lista ambiciosa demais para que isso aconteça reforçam a ideia do filme de “realismo” inflexível. Mas o filme não tem coragem de fazer o que Teague fez. Ele resumiu o modo como as cenas do último suspiro costumam aparecer nos filmes – “As pessoas dão as mãos e trocam olhares para reconhecer o quão profundo é o momento antes de um médico verificar a pulsação e anunciar: ‘Está feito’” – antes de descrever como Nicole realmente se foi. Exceto que The Friend retorna ao clichê de luvas de pelica, sem vontade de enfrentar sobre o que é ostensivo”.

Dakota Johnson em “The Friend” (2019)

Outro longa exibido foi Military Wives, de Peter Cattaneo (Reino Unido). No filme de Cattaneo, com seus parceiros servindo no Afeganistão, um grupo de mulheres na frente de casa forma um coral e rapidamente se encontra no centro de uma sensação da mídia e de um movimento global. Kristin Scott Thomas, Sharon Horgan, Jason Flemyng protagonizam o longa.

“Estruturalmente, o roteiro creditado a Rachel Tunnard e Rosanne Flynne implementa com eficiência todos os aspectos do arsenal de contar histórias de zero a heróis… Como se guiado por um algoritmo, o roteiro maneja Kate e Lisa em uma amizade crescente… De fato, a narrativa continua colocando obstáculos óbvios e artificiais no caminho do objetivo final das mulheres…  São aqueles pequenos lampejos de autenticidade que realmente aumentam o filme, descobertos em momentos sutis.”, afirma o The Hollywood Reporter.


While at War, de Alejandro Amenábar (Espanha) estreia a leva dos dramas de guerra. Situado nos primeiros meses da Guerra Civil Espanhola, este fascinante e oportuno drama de câmara do aclamado diretor e escritor Alejandro Amenábar (Os Outros) acompanha a queda do país em quase quatro décadas de fascismo sob o ditador Francisco Franco. 

Comparado por parte do público com Dakerst Hour (2017), de acordo com o Screen Daily, “While At War é um filme complexo, estável e profundamente inteligente, com uma ressonância arrepiante hoje em dia, e uma saída significativa em tom do trabalho anterior de Amenabar (que inclui Mar Adentro, Os Outros e Regressão). Cuidadoso e composto, nunca se inclina para a simplificação e, como tal, será um relógio exigente para o público fora da península Ibérica. Lá, deve ser uma exibição essencial após um arco de Toronto e uma estreia doméstica em San Sebastian. Como a Espanha – e a Europa – lidam com o renascimento dos mesmos espectros oportunistas da neo-direita, é apropriado que Amenabar pinte essa dolorosa história pacientemente. Como ele explica em um roteiro que ele co-escreveu, circunstâncias complexas dão origem a ditadores e “drenar o pântano” apenas permite o surgimento de monstros das profundezas.”.


Hope Gap, de William Nicholson (Reino Unido) apresenta a história de um casal eternamente unido (Annette Bening e Bill Nighy) apresenta as muitas complicações de se separar, no drama extremamente nítido de William Nicholson, roteirista e diretor indicado ao Oscar por Gladiador (2000) e Terra das Sombras (1993).

Para o The Guardian, “apesar do claro potencial dramático das feridas do divórcio, provado repetidamente por filmes que variam de Uma Mulher Descasada (1978) a História de um Casamento (2019) desta temporada do Oscar, Nicholson falha em fornecer ao filme a especificidade e profundidade emocional necessárias para fazê-lo parecer necessário. Já estivemos aqui antes e nada na duração de 100 minutos do filme realmente justifica por que estamos de volta aqui novamente.”.


O terror foi representado no segundo dia por The Other Lamb, de Malgorzata Szumowska (Irlanda, Bélgica, EUA). A vida com Shepherd (Michiel Huisman) é a única vida que Selah (Raffey Cassidy) já conheceu. Sua comunidade auto-suficiente não possui tecnologia moderna e está escondida na floresta, longe da civilização moderna. Shepherd é o guardião, professor e amante do grupo. Cada uma das muitas mulheres membros do grupo é sua esposa ou filha. Selah é pura fé, mas também perigosamente obstinada. Ela foi criada como filha de Shepherd, mas é apenas uma questão de tempo até que ela também se torne esposa.

Os filmes de Malgorzata Szumowska (Elles, Body, O Rosto) são deliberadamente perturbadores, às vezes polarizadores e frequentemente brilhantes. Ela muitas vezes dirige direto ao centro dos conflitos de gênero, analisando o que divide e define mulheres e homens na sociedade. De acordo com o Screen Daily, “O comando da arte de Szumowska e uma torrente de imagens inquietantes melhorarão sua reputação como diretora visionária. O filme certamente atrairá a atenção no circuito do festival e alcançará status de cult no mundo”.

The Other Lamb (2019)

A crítica pontua ainda que “o roteiro da escritora australiana Catherine S McMullen apareceu na Black List (uma pesquisa anual dos roteiros de filmes “mais apreciados” ainda não produzidos, publicada todos os anos desde 2005) e Blood List em 2007 (é uma pesquisa de roteiros de suspense e terror não reproduzidos, escolhida por profissionais da indústria, semelhante ao Black List e foi criado em 2009 por Kailey Marsh) e parece ter uma dívida de inspiração com o romance distópico de Margaret Atwood, O Conto da Aia. Em uma área rural remota, um grupo de mulheres vive sob o feitiço do carismático líder do culto Shepherd, interpretado por Michiel Huisman como uma mistura do deus do rock e Rasputin… A profundidade de sua devoção limita-se a uma histeria comunitária que implora comparações com Os Demônios (1971), de Ken Russell, ou The Falling (2014), de Carol Morley.”

Acompanhe aqui os próximos dias do Festival de Toronto.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.