Análise | Sucesso de ‘La Casa de Papel’ no Brasil pode estar relacionado a um desejo proibido

Desde o seu lançamento pela Netflix, La Casa de Papel se tornou um sucesso retumbante pelo mundo. Lançado inicialmente em um canal pago na Espanha, em maio de 2017, estreou na Netflix no final deste mesmo ano. Curiosamente, apesar da qualidade da série, na Espanha não obteve um grande êxito, mantendo uma audiência razoável.

Em contrapartida, na plataforma de streaming, La Casa de Papel foi mundialmente reconhecida, mas em um país em particular, alcançou praticamente unanimidade. No Brasil, se tornou uma das séries mais assistidas, um acontecimento nacional.

A série faz jus ao seu sucesso e premiações, o elenco se mostrou bem entrosado com ótimas atuações e um desenvolvimento complexo dos personagens, seja pelo calculismo do Professor (Álvaro Morte), o ímpeto de Berlim (Pedro Alonso), a impulsividade de Tóquio (Úrsula Corberó) ou pela força de Nairóbi (Alba Flores), enfim, todos se mostraram muito cativantes. A história conta com alguns absurdos surrealistas que são coerentes com as máscaras dos assaltantes, no caso são a face de Dalí, como teria bem observado a crítica da Veja, Isabela Boscov. O roteiro é dinâmico, com muitas reviravoltas e alterações improvisadas do plano quase perfeito do Professor.

Apesar da qualidade e criatividade indiscutível de La Casa de Papel, ainda a resta dúvida: por que no Brasil essa série teria feito mais sucesso do que nos outros países? Não é à toa que para homenagear o seu público favorito, na terceira temporada lançada em julho desse ano, muitas referências foram feitas aos brasileiros. A quarta temporada, prevista para ser lançada no primeiro semestre do ano que vêm, sabe-se pouco a respeito do desenrolar da trama. Entretanto, uma participação inusitada foi confirmada há alguns dias, a de Neymar! Com um toque de ironia, o jogador festeiro vive um monge.

Antes de cogitar um motivo do estrondoso triunfo da série no Brasil, é importante retomar as tramas das temporadas disponíveis. Na 1° e na 2° temporada o carismático grupo de assaltantes planeja roubar a Casa da Moeda da Espanha. Uma vez lá dentro, conseguiram produzir milhões de euros e ainda escaparam em grande estilo. Teoricamente, a série estava prevista para acabar na primeira temporada como uma minissérie – foi dividida em duas partes pela Netflix –, contudo, depois do enorme sucesso obtido, produziram uma 3° e a 4° temporada, após ter sido adquirida pela plataforma de streaming.

Depois do plano ser concluído com louvor, dessa vez, Rio (Aníbal Cortés) cometeu um deslize grave e foi aprisionado e torturado pelos espanhóis. Tóquio inconformada, procura o Professor e ele dessa vez propõe um assalto ainda mais audacioso para chantagear e obrigar o governo a libertar Rio. Eles irão assaltar o Banco da Espanha e roubarão toda a reserva de ouro armazenada pelo governo.

ASSALTO À MORAL

Tramas que envolvem assaltos a banco chamam atenção, principalmente os que obtém êxito. Os telespectadores vibram diante de uma realização praticamente impossível, envolvendo ainda alguma astúcia. No caso dos brasileiros, o que pode ser particularmente atraente, é que os roubos não envolvem qualquer banco particular ou um outro estabelecimento genérico, mas sim um Estado.

É muito comum no discurso dos brasileiros a queixa dos abusos e privilégios cometidos pelos seus governantes envolvidos nas 3 esferas do poder. O povo brasileiro reclama, com certa dose de razão, a corrupção desenfreada e a falta de qualidade nos serviços públicos. Uma enorme parcela da verba recolhida em impostos, ao invés de ser convertida para a educação, saúde, segurança, entre outros setores públicos,  acaba alimentado a corrupção dos políticos, ministros do supremo tribunal federal e uma intrincada rede de privilegiados. O que contribui também para o fosso da desigualdade social e para o aumento da miséria.

O brasileiro comum por se sentir tão lesado diante de tantas violações do Estado, se sente no direito de realizar as suas pequenas corrupções, como por exemplo, sonegar o imposto de renda. Comportamento defendido por uma parcela da população como um ato patriótico de uma legitima defesa frente a um governo corrompido e desleal. A partir dessa mentalidade tão naturalizada por grande parte da população brasileira, é possível criar a hipótese de que, no fundo, o que os brasileiros mais desejam inconscientemente é assaltar o Estado. Como se essa atitude pudesse reparar os danos históricos causados pelo governo ou pudesse ser uma solução democrática para uma justiça social.

Por se tratar de um desejo inconsciente, há uma complexidade maior regendo esse processo psíquico. De uma maneira quase universal, estipulou-se uma Lei com um conjunto de mandamentos, deveres e direitos. Roubar, por exemplo, é um ato proibido, moralmente condenado e passível de ser punido juridicamente. Os brasileiros, assim como outros povos, sabem muito bem disso. Todo desejo, principalmente os proibidos, passam pelo processo de recalcamento (para uma melhor explicação, ler o análise referente ao filme Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças). Nesse processo, há uma quebra entre o significado e o afeto do conteúdo.

No caso do desejo em assaltar o Estado brasileiro há uma cisão, por ser algo moralmente execrável, o significado deste desejo é recalcado, permanecendo submerso nas profundezas do inconsciente. Já o afeto vai para a consciência e por estar solto e sem um significado, se transforma em um prazer “voyeurístico” em assistir filmes ou séries com a temática de assaltos, por exemplo. Assim, essa seria uma possível solução diante desse conflito, ao invés de roubar o Estado, correr uma série de riscos e se deparar posteriormente com a vergonha e com a culpa. É possível ter o prazer secreto em contemplá-lo pela via inocente da ficção e do entretenimento.

O Professor e Berlim procuram embasar os assaltos não pela questão da ganância e do enriquecimento rápido, mas por uma entrada anarquista. No sentido do grupo tomar uma posição mais social, contrariando as tiranias do Estado espanhol. Não é à toa que que a principal canção tocada em La Casa de Papel é a “Bella Ciao”, o hino anarquista italiano. Na 3° temporada, por meio desse fundamento ideológico, a população passou a admirar a trupe de assaltantes, principalmente depois da distribuição de dinheiro à la Robin Hood. Entretanto, essa ideologia é um tanto perigosa, os ladrões aproveitam dessa simpatia para ganhar o apoio da população, contribuindo assim para a execução do segundo golpe. Talvez a ideologia anarquista do grupo também tenha seduzido os telespectadores brasileiros, contribuindo para um auto-engano inebriante.

Muitas vezes os brasileiros não se dão conta de como pode ser perigosa a lógica do “ladrão que rouba ladrão merece 100 anos de perdão”. Com esse pensamento maquiavélico, a cultura do “jeitinho” e da corrupção se perpetuam tragicamente. Não será pela via do “chumbo trocado” que a condição de vida do brasileiro será mudada. Assaltar o Estado não tornará a vida de seus cidadãos melhores, pelo contrário, apenas se eterniza a política da sobrevivência, da falta de alteridade, o “cada um por si e Deus por todos”.

O brasileiro comete os seus pequenos crimes e trapaças uns com outros, independente da corrupção do Estado. Em algumas de suas entrevistas, Leandro Karnal comenta sobre a dissociação e a impossibilidade de haver um Estado corrupto com cidadãos honestos, assim como o inverso é impraticável também. Afinal de contas, o Estado é composto por esses mesmos cidadãos. Reformar o código moral do brasileiro, diminuindo assim as permissividades e as malandragens é algo bastante complexo e demorado. Provavelmente uma das poucas vias possíveis é pela educação, tão negligenciada pelo Estado, não só nessa gestão, como nas anteriores Entretanto, é possível modificar essa conduta começando pelos pequenos atos.

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Dante Carelli Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.