Crítica | ‘Os Mortos Não Morrem’: a obviedade no fim do mundo de Jim Jarmusch

Responsável por abrir o Festival de Cannes de 2019, Os Mortos Não Morrem (The Dead Don’t Die) é o mais recente – e pode-se dizer que o mais atípico – filme do diretor Jim Jarmusch. Ao abandonar as narrativas lentas e espaçadas de seus longas, Jarmusch opta por um rumo um tanto inesperado para sua carreira: um filme de zumbis com um elenco que vai de Selena Gomez até Iggy Pop.

Quando o eixo do planeta se desequilibra, até a pacata cidade de Centerville, nos Estados Unidos, sofre alterações. Animais fogem de seus donos, o céu permanece claro por mais tempo e os mortos-vivos saem de seus túmulos para executar as atividades que faziam diariamente em vida.

Este, no entanto, não é um filme de zumbis comum. Jarmusch está mais preocupado em construir uma paródia e ao mesmo tempo uma homenagem aos clássicos do mesmo gênero, do que seguir pela narrativa usual desses filmes.

Os policiais Cliff Robertson (Bill Murray) e Ronald Peterson (Adam Driver) já se declaram logo de início cientes de estarem atuando em um filme e evocam sua singularidade ao afirmar que tudo acabará mal, quebrando qualquer expectativa de suspense que poderia vir a ocorrer.

A partir do aviso prévio, o filme sobreleva o absurdo em toda sua decorrência através de um humor bem específico – e por assim, divisório – e diferentes narrativas. Em Os Mortos Não Morrem, os personagens parecem tão mortos quanto os próprios zumbis devido à falta de profundidade que lhes foi estabelecida; elemento típico do subgênero, mas nesse caso justificada pela quantidade de arcos que o diretor insere.

Essa decisão, porém, também ocasiona uma ausência de progressão aparentemente não intencional, como simplesmente abandonar a história dos adolescentes do reformatório ou não desenvolver a narrativa dos hipsters de Cleveland, que simplesmente se hospedam em um motel e morrem. Tal decisão acaba por afetar a ideia do raso enquanto paródia, substituído por uma falta de vontade do diretor em simplesmente trabalhá-los melhor.

A grande quantidade de personagens é conectada por diálogos e ações repetidas nos diferentes arcos. Mesmo com intenções de gerar risadas, esse artifício resulta em um retardamento em questões de desenvolvimento. Apesar de possuir ritmo, a história se mantém linear e o foco é transmitido aos atores renomados que já trabalharam anteriormente com Jarmusch (Adam Driver, Bill Murray e Tilda Swinton), aqui adquirindo papéis caricatos visivelmente ensaiados, demonstrando-se altamente adequados com a narrativa.

Ao utilizar metáforas e referências explícitas e implicitamente, Jarmusch ainda critica a influência do consumismo desenfreado na sociedade também abordada por George A. Romero no clássico A Noite dos Mortos-Vivos (1968); referências consideradas um tanto óbvias no contexto atual, mas reforçadas quando o diretor as usa justamente com a intenção de retratar o fim do mundo de forma não pretensiosa: abusando dessas obviedades.

Ao fim, os policiais quebram a quarta parede mais uma vez para assumir o papel notório do filme de não se levar a sério, e por não se encaixar propriamente nos subgêneros tocados, se classifica como uma obra única sem necessidade de sofrer comparações.

Por meio de personagens que agem casualmente durante o fim do mundo, Jim Jarmusch manifesta seu talento para transitar entre gêneros e entrega um filme intimista tão ciente de si quanto de sua proposta em Os Mortos Não Morrem; a obra mais cínica de sua carreira até agora.

OS MORTOS NÃO MORREM | THE DEAD DON'T DIE
3.5

RESUMO:

Por meio de personagens que agem casualmente durante o fim do mundo, Jim Jarmusch manifesta seu talento para transitar entre gêneros e entrega um filme intimista tão ciente de si quanto de sua proposta em Os Mortos Não Morrem.

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Rafaella Rosado

Jornalista apaixonada pela sétima arte desde pequena, quando achava que era possível assistir todos os filmes do mundo. Acredita que o cinema é a forma mais sensível de explorar realidades.