Crítica | ‘Corgi: Top Dog’ é um filme para adultos disfarçado de animação infantil

Corgi: Top Dog, animação de Ben StassenVincent Kesteloot é um filme para crianças, mas também chamou a atenção dos adultos depois que o trailer (que atraiu milhares de views) revelou um ilustre personagem: o presidente dos EUA, Donald Trump.

É claro que, a partir daí, todos ficaram bem curiosos para saber como o homem mais poderoso do mundo seria retratado na animação e, bem, o que se pode dizer é que, sem nenhum pudor, os diretores fizeram troça até dizer chega.

A questão política está ali, escancarada, “disfarçada” de animação infantil enquanto uma mensagem bem mais “pesada” é passada para os adultos. Para começar, os personagens principais são animais falantes com traços e trejeitos humanos (que aliás, ficaram muito bons, não muito exagerados a ponto de parecerem artificiais demais), e o foco está em Rex, um dos corgis da rainha Elizabeth que, como se sabe, é a raça oficial de sua majestade real.

Rex é um cãozinho mimado e egocêntrico, tratado a pão de ló por sua dona e pelos criados do palácio, dos quais zomba o tempo inteiro, como se estivessem ali para servi-lo o tempo todo. Mesmo assim, tem um apurado senso de dever, sabendo que deve obedecer à rainha.

 

O problema todo começa, porém, quando ele tem de se fazer presente na visita diplomática de Trump e sua mulher, a primeira dama Melania – que trazem consigo sua própria cadelinha corgi, um serzinho ridículo (cheio de maquiagem), arrogante e completamente sem noção… Bem a imagem de seu dono, o presidente americano.

Tendo sido recebido no palácio de Buckingham, Trump parece estar de férias no Havaí ou pior, tirando selfies enquanto grita hamburguer, cortejando mulheres de maneira bastante deselegante e ainda sai ofendido quando o jantar é interrompido por Rex e sua própria cadelinha. Para resumir, o presidente se mostra, assim como sua “filha”, ridículo, arrogante e sem noção, como se não soubesse se comportar diante da rainha da Inglaterra.

Mesmo assim, longe de ser um filme inocente para crianças (as aparências enganam), Corgi: Top Dog mostra de maneira bem direta facetas não muito “honrosas” do ser humano. Podemos começar citando a violência, presente principalmente na referência explícita ao filme Clube da Luta e também quando Charlie, um dos outros corgis da rainha Elizabeth espalha ketchup no jardim para forjar o sangue de Rex.

Para continuar, basta observar Wanda, a amada de Rex, que além de se exibir numa performance bastante erótica no pole dance, se mostra uma interesseira, já que só passa para o lado dele quando descobre que ele é o cão Top Dog da rainha. Aí então ela se transforma numa heroína, diferente de Rex que, na verdade, de herói não tem nada.

O personagem principal não é admirável e a única coisa que explica os amigos que consegue fazer no canil em que vai parar depois de fugir do palácio de Buckingham e ser enganado por Charlie, é o seu inexplicável carisma, e as pessoas só o aturam pela sua fofura (ele até imita o Gato de Botas do Shrek, fazendo aquela já icônica carinha de pidão).

Por essas e outras e apesar de tudo, Corgi: Top Dog é um filme tanto para crianças – que vão focar nas belas imagens da animação, que estão impecáveis e constituem o ponto forte do filme; bem como nas piadinhas engraçadinhas e nas referências pop, como a menção a Lady Gaga e à Elsa, de Frozen-; como também é uma produção para os adultos – mesmo que o filme, em geral, seja bastante infantil. Mas que diverte, diverte sim.

CORGI: TOP DOG | THE QUEEN´S CORGI
2.5

RESUMO:

Os diretores Ben Stassen e Vincent Kesteloot usam e abusam de referências não muito ortodoxas num filme para crianças, mas Corgi: Top Dog consegue divertir.

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Flávia Leão

Cinéfila mineira que ama os filmes desde quando os clássicos da Disney ainda eram em VHS e os seriados desde que Jeffrey Lieber e J.J. Abrams inventaram Lost.