Festival de Veneza | Dias 5 e 6: ‘Wasp Network’, de Olivier Assayas e ‘A Lavanderia’, de Steven Soderbergh, são os destaques

No quinto dia (01/09) e sexto (02/09) dia do Festival de Veneza, houve a estreia do novo longa de David Michôd, O Rei (Reino Unido, Hungria), com Timothée Chalamet e Robert Pattinson. Além disso, na seleção oficial foram exibidos dois dos filmes cotados para a temporada de premiações:A Lavanderia (The Laundromat), de Steven Soderbergh (EUA); Wasp Network, de Olivier Assayas (Brasil, França, Espanha, Bélgica).

Sconfini

Na seção não competitiva do festival foram exibidos: American Skin, de Nate Parker (EUA) e Effetto Domino, de Alessandro Rossetto (Itália)

Em American Skin, Lincoln Jefferson (Nate Parker) é um veterano da marinha que trabalha como zelador em uma escola de prestígio da Califórnia. Depois de se divorciar, ele tenta recuperar um bom relacionamento com seu filho de 14 anos. Porém, quando seu filho é assassinado a tiros por um policial, que acaba saindo impune e voltando ao serviço em pouco tempo, a vida de Lincoln vira de cabeça para baixo e ele decide fazer justiça com as próprias mãos. Nate Parker escreve, dirige e protagoniza o longa.

A premiere de seu filme no Festival de Veneza causou polêmica na mídia, pois em 1999, Nate Parker e Jean Celestin, seu colega de quarto na moradia estudantil na Penn State Unversity foram acusados de estupro por uma colega, que antes do crime, estava completamente embriagada. Ambos negaram a autoria do estupro. A Justiça norte americana inocentou Nate Parker e condenou Jean Celestin a 6 meses de prisão, que não se efetivou. A vítima do estupro desenvolveu graves transtornos mentais e dependência química e acabou falecendo em 2012 numa clínica para reabilitação na Pensilvânia.

Effetto Domino acompanha um construtor e seu parceiro agrimensor  que desenvolvem um ambicioso projeto para transformar vinte hotéis abandonados em residências de luxo para aposentados de alta renda em uma cidade conhecida por suas casas de banho que impõe resistência ao turismo em massa. Quando, ao tentar realizar o projeto, eles encontram dificuldade em conseguir apoio financeiro de investidores e bancos, seu destino é transformado drasticamente. O roteiro é de Rossetto em parceria com Caterina Serra. Diego Ribon, Mirko Artuso, Nicoletta Maragno compõem o elenco.


Orizzonti 

Revenir, de Jessica Palud (França); Giants Being Lonely, de Grear Patterson (EUA); Rialto, de Peter Mackie Burns (Irlanda, Reino Unido); e Chola, de Sanal Kumar Sasidharan (Índia); foram exibidos na seção Orizzonti.

Em Revenir, Thomas (Niels Schneider) vive em uma família de conturbado relacionamento. Seu irmão, nunca voltou para casa, nem sua mãe, pois seu pai tornava impossível a convivência entre eles. Thomas se vê encarando novamente tudo o que ele tem fugido por 12 anos. Mas atualmente a sua vida toma um rumo diferente graças a Alex (Roman Coustère Hachez), seu sobrinho de seis anos, e Mona (Adèle Exarchopoulos). O filme escrito por Jessica Palud, Philippe Lioret, Diastème levou para casa o prêmio de Melhor Roteiro na seção Orizzonti.

Escrito e dirigido por Grear Patterson, o drama esportivo, Giants Being Lonely, apresenta um grupo de jovens em seu último ano no ensino médio. Quando o último ano chega ao fim, a pressão para “sair vivo” parece assustadora para os três veteranos do ensino médio: Bobby (Jack Irvine), Caroline (Lily Gavin) e Adam (Ben Irving). À medida que cada um deles descobre o que significa amar e ser amado, eles se vêem navegando pela natureza complexa das relações humanas, enfrentando suas próprias versões pessoais de negligência e abandono. Juntos, eles trilham o traiçoeiro caminho que leva até à vida adulta. Jack Irving, Ben Irving, Lily Gavin, Amalia Culp, Gabe Fazio compõem o elenco.

O drama de Mackie Burns, possui Tom Vaughan-Lawlor, Tom Glynn-Carney, Monica Dolan, Sophie Jo Wasson, Scott Graham, Michael Smiley no elenco e conta a história de Colm (Tom Vaughan-Lawlor) um homem de quarenta anos, que é casado e tem dois filhos adolescentes. Ainda angustiado com a morte de seu pai, uma figura destrutiva em sua vida, Colm sofre dificuldades no relacionamento com seu próprio filho. No trabalho, surge uma situação que coloca em risco sua posição. Incapaz de compartilhar sua vulnerabilidade com a esposa, o mundo de Colm está desmoronando ao seu redor. No meio desta crise, Colm solicita sexo a um jovem chamado Jay (Tom Glynn-Carney). Esse encontro e a paixão crescente têm um efeito profundo em Colm. Ele encontra no rapaz um conforto que ninguém mais pode fornecer.

O suspense indiano de Kumar Sadidharan segue Janaki. A jovem sai de casa ao amanhecer e parte para outra cidade na intenção de encontrar o namorado. O rapaz consegue uma carona com o patrão dele, um homem estranho que sabe que Janaki está ali sem o consentimento da mãe. Os três passam horas dentro de um carro. Distraídos com a magnitude da cidade, o casal perde a noção de tempo e, quando percebem, são obrigados a passar a noite em um motel de beira de estrada. Naquele local pouco familiar, eles vivem a pior noite de suas vidas. Akhil Viswanath, Joju George, Nimisha Sajayan protagonizam o longa.


Fora de Competição

Foram exibidos os longas Woman, de Anastasia Mikova, Yann Arthus-Bertrand (França); The New Pope, de Paolo Sorrentino (Itália, França, Espanha); Il Diario di Angela – Noi Due Cineasti, de Yervant Gianikian (Itália); e O Rei, de David Michôd (Reino Unido, Hungria).

Woman, dirigido pelo diretor de Human (2015), em parceria com Mikova, investiga o feminino em entrevistas feitas em 40 países. O documentário traz reflexões sobre o mundo de hoje a partir da perspectiva de 2000 mulheres de diferentes países. Tal observação é sombria quando revela injustiças às quais as mulheres são submetidas. Em um mundo onde a desigualdade afeta uma mulher durante toda a sua vida, forçado-as a casar, privando da educação, do direito de votar ou até mesmo de sair sozinha, milhões de mulheres apenas suportam suas vidas, ao invés de vivê-las.

A série The New Pope, protagonizada por Jude Law, John Malkovich teve o seu segundo e sétimo episódios exibidos no festival.  A sequência de The Young Pope traz Jude Law no papel de Lenny Belardo, que se torna o primeiro papa norte-americano da história ao assumir o nome de Pio 13. Depois de entrar em coma, o sofisticado John Brannox (John Malkovich), é eleito para o trono papal, adotando o nome de João Paulo 3º. No drama, os dois papas têm que aprender a coexistir. Silvio Orlando, Cécile de France, Javier Cámara, Ludivine Sagnier completam o elenco.

Durante toda uma vida e carreira como importante cineasta, Angela Ricci Lucchi recordou tudo em seu diário. Do âmbito público ao privado, desde as viagens aos Estados Unidos para promover seus filmes na década de 1970, passando pelos muitos festivais nos quais seus filmes estiveram, até o fim de sua vida. Em Il Diario di Angela – Noi Due Cineasti, o diretor Yervant Gianikian revisita memórias dos anos que eles passaram juntos, em uma espécie de tentativa de reviver sua parceira de longa data.

Em um dos filmes mais aguardados do festival de Veneza, Henrique V (Timothée Chalamet) é coroado rei, após a morte de seu pai, obrigado assim a comandar a Inglaterra. O governante precisa amadurecer rapidamente para manter o país consideravelmente seguro durante a Guerra dos 100 Anos, contra a França. O Rei é escrito por Paolo Sorrentino, Umberto Contarello, Stefano Bises, e tem como elenco Timothée Chalamet, Joel Edgerton, Sean Harris, Tom Glynn-Carney, Lily-Rose Depp, Thomasin McKenzie, Robert Pattinson, Ben Mendelsohn.

O Rei teve recepção mediana, enquanto para o The Wrap o filme “é uma peça histórica que desafia as expectativas e oferece as emoções da batalha e uma crítica ponderada da guerra e do imperialismo.”, para o Indie WireO Rei está tão ansioso por ser um épico de barro e tripas sobre a violência herdada e a corrupção do poder que perde de vista a rica história da maioridade em seu âmago”.

O Rei, de David Michôd

Seleção Oficial

A competição no Festival de Veneza foi marcada pela premiere dos filmes A Lavanderia, de Steven Soderbergh (EUA); Wasp Network, de Olivier Assayas (Brasil, França, Espanha, Bélgica); No.7 Cherry Lane, de Yonfan (Hong Kong, China); Martin Eden, de Pietro Marcello (Itália, França).

No filme protagonizado por Meryl Streep e escrito por Scott Z. Burns, um grande esquema de lavagem de dinheiro envolvendo as principais figuras políticas mundiais fluía desde 1970 ocorria, por debaixo da superfície do mundo financeiro. Em 2017, o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação publicou o maior vazamento de corrupção da história, baseado em 11,5 milhões de arquivos secretos obtidos a partir do escritório de advocacia Mossack Fonseca, no Panamá. A descoberta balança com vigor a esfera pública, causando uma crise na política internacional. Gary Oldman, Antonio Banderas, Jeffrey Wright, Matthias Schoenaerts, James Cromwell, Sharon Stone completam o elenco.

De acordo com a BBC Culture, A Lavanderia possui a melhor cena de abertura do ano, mas o resto do filme não faz jus. “O prêmio para a melhor cena de abertura deste ano deve ir para A Lavanderia, a comédia de ficção científica de Steven Soderbergh sobre o Panama Papers. Filmada no que parece ser uma tomada longa e ininterrupta… O resto do filme não faz jus a essa abertura. Mas, novamente, muitos filmes não poderiam… O principal problema é que o alto financiamento global gira em torno de pessoas obscenamente ricas, e a abordagem de Soderbergh e Burns é decididamente barata e alegre. O tópico merece um filme mais substancial e mais interessante do que esse jogo – e Oldman e Banderas definitivamente merecem estar nesse filme.”

A Lavanderia, de Steven Soderbergh

O filme estrelado por Penélope Cruz, Edgar Ramírez, Gael García Bernal, Wagner Moura, Ana de Armas e Leonardo Sbaraglia se passa durante a década de 1990, onde espiões cubanos em território norte-americano investigam grupos anti-castristas localizados na Flórida que geraram ataques militares em Cuba. O governo cubano revida e usa a Wasp Network para se infiltrar nessas organizações. RT Features (Rodrigo Teixeira, Lourenço Sant’Anna) produzem o longa juntamente com a CG Cinéma (Charles Gillibert), Nostromo Pictures e Scope Pictures.

Para o The Guardian, “Wasp Network é adaptada de Os Últimos Soldados da Guerra Fria, de Fernando Morais, e se apega um pouco demais ao material de origem factual. É um assunto jornalístico ambicioso e movimentado, pesquisado meticulosamente e movendo-se rapidamente para cobrir todo o terreno, à medida que os intertítulos correm para nos informar que agora é “quatro anos antes” ou que estamos no “hotel Copacabana”. O filme é brilhante, iluminador e frequentemente emocionante. O que falta é uma carga emocional e uma textura refinada. Precisamos investir nessas pessoas para entender suas decisões – e nos preocupar com as consequências delas.”

Na conferência do filme, Wagner Moura afirmou que “não tem medo de ficar excessivamente associado a filmes com temática política —Wasp, embora não seja um filme militante, tem uma visão que pende para a esquerda. O que você produz é fruto do que você é. Sou alguém que se interessa por política, então isso aparece na minha produção. Mas cada trabalho é uma história. Este filme, por exemplo, eu fiz porque queria trabalhar com o Olivier Assayas e também porque acho fascinante a história. É um filme em que você olha e há um equilíbrio.”. (via Uol).

Wasp Network, de Olivier Assayas

A animação No.7 Cherry Lane se passa na década de 1960, onde um jovem estudante de literatura dá aulas para uma mulher. Quando ele cai em si, está envolvido em uma situação um tanto complicada: um triângulo amoroso entre sua aluna, sua mãe e ele mesmo. O longa levou o prêmio de Melhor Roteiro da competição oficial

De acordo com a Variety, “Nº 7 Cherry Lane tem um visual agradável do Velho Mundo que atrai o espectador para a ação – o resultado de uma técnica de animação que exige muito trabalho, na qual os animadores renderam caricaturas em 3D antes de desenhá-las em 2D. Esse estilo excepcionalmente eficaz é maravilhosamente complementado por uma seleção musical íntima que varre o espectador de humor em humor.”

No drama italiano Martin Eden, Martin Eden (Luca Marinelli) é um jovem escritor de baixa renda que entra em conflito com a burguesia. Encarando um novo mundo, ele se apaixona e descobre como escritores são vistos em uma sociedade aristocrática. Se sentindo deslocado de tudo que faz parte de sua essência, o rapaz percebe que não há como voltar para o que costumava ser. Enquanto tenta publicar alguma obra de grande sucesso, Martin se questiona sobre o mercado literário, a sociedade e sua própria natureza como criador. Luca Marinelli, Carlo Cecchi, Jessica Cressy, Vincenzo Nemolato, Marco Leonardi, Denise Sardisco, Carmen Pommella compõem o elenco.

O The Hollywood Reporter destaca a performance do ator Luca Marinelli, que acabou levando o prêmio de Melhor Performance Masculina no festival:

“Como sugerido anteriormente, Marinelli é uma força da natureza em todas as cenas e não interpreta o Éden tanto quanto o habita. Mesmo que a caracterização nem sempre seja totalmente detalhada no nível do script, Marinelli garante que a figura principal esteja sempre plena e credível como um jovem determinado, um homem tolo e apaixonado, um intelectual insaciável em desenvolvimento e um o homem se esforça em superar as probabilidades e se tornar um escritor publicado, no entanto muitos de seus manuscritos são devolvidos ao remetente (torna-se uma piada quase cômica). Podemos não entender completamente por que Martin está infeliz quando se torna um sucesso, mas Marinelli pelo menos sugere que ele está infeliz em todas as fibras de seu ser. Todos os outros atores são pouco tocadores dessa performance imponente, tocando o segundo violino sem que haja uma única nota falsa na orquestra. Se apenas o mesmo pudesse ter sido dito sobre o roteiro do filme.”

Martin Eden, de Pietro Marcello

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.