Crítica | ‘It: Capítulo Dois’ é uma continuação na medida exata

O medo pode ser paralisante. É aquela sensação desagradável ou desesperadora diante da exposição de uma fragilidade. Muitas vezes, é desencadeado por angústias internas que, ao serem externalizadas, transformam-se em monstros que nos encaram frente à frente. Suor nas mãos, coração acelerado, boca seca. Um sentimento que pode se transfigurar e de repente é um metrô lotado, um inseto, um fantasma, um palhaço assustador.It: A Coisa

Esta é a premissa de It: A Coisa. Uma criatura que se alimenta de fraquezas e como estas podem ferir, abalar e matar. Em sua primeira parte, assistimos ao desenrolar dessa ideia em Derry e com protagonistas infantis, o que talvez acrescente uma certa leveza ao tema. Mas na segunda parte, nossos heróis cresceram e suas aflições, suscitadas pelos acontecimentos de 27 anos atrás, criaram novos monstros.

Após o reaparecimento da Coisa, o grupo é chamado a voltar à sua cidade natal para liquidá-la definitivamente. Eles são interrompidos em suas vidas cotidianas e constatamos que seus problemas do passado evoluíram. Beverly (Jessica Chastain) está casada com um homem tão abusivo quanto seu pai, senão mais. A esposa de Eddie (James Ransone) é bem parecida e controladora como sua mãe. Bill (James McAvoy) virou um autor de livros de terror e seus finais não são felizes. Richie (Bill Hader) é um comediante que faz piada com sua própria vida.

It: Capítulo Dois (2019) – Warner Bros.

No entanto, nenhum deles é mais o mesmo. Aqui é importante salientar que o grande fator para o reencontro é o trauma. Eles já não são mais as crianças corajosas e espirituosas que foram. É a partir deste conceito que a trama de It: Capítulo 2 avança. Os amigos voltam à Derry, não somente para matar a Coisa, mas para enfrentar seus medos e fraquezas.

O arco de todos os personagens condiz com seu passado e para onde eles estão indo. Antes de desafiarem a Coisa, eles precisam encarar o que acabaram esquecendo — onde esquecer não é superar. Neste momento, somos presenteados com várias cenas de flashback onde o talentoso e carismático elenco mirim volta à tela. Outro ponto agradável da produção é a semelhança entre os atores jovens e os adultos. Não somente no que tange ao físico, mas também a desenvoltura com que os intérpretes representaram as personalidades de cada um, com uma coerência louvável entre passado e futuro.

Os efeitos visuais são excelentes dando vida a criaturas espantosas, apesar de que, no capítulo 1, o terror é ilustrado de uma forma mais velada. Em sua segunda parte, tais representações aparecem com mais frequência e definição. Também é preciso elogiar o trabalho de Bill Skarsgard (Pennywise), que desempenha um vilão diversificado ao adquirir vários “humores”, inclusive, fraquezas.

It: Capítulo Dois (2019) – Warner Bros.

Apesar dos vários pontos positivos, It: Capítulo 2 acaba se perdendo um pouco em sua grande duração. São muitos eventos acontecendo ao mesmo tempo, o que acaba dando pouca profundidade a alguns aspectos. Sentimos falta de algumas explicações, o que cria um certo incômodo. O filme é uma boa produção, principalmente pela grandiosidade de seus efeitos, mas peca ao se deter pouco em algumas informações passadas.

IT: CAPÍTULO DOIS
3.5

RESUMO:

Pennywise está de volta em It: Capítulo 2, que mantém o ritmo do primeiro, com alívios cômicos na medida, sustos, traz um terror mais explícito com efeitos visuais incríveis, e uma boa dose de cenas de tensão.

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Isa Carvalho

Jornalista e estudante de cinema. Acredita que o cinema é um documentário de si mesmo, em que o impossível torna-se parte do real. "Como filmar o mundo se o mundo é o fato de ser filmado?"