Festival de Veneza | Dia 4: Sessão especial de Irreversível reúne elenco após 17 anos; ‘Coringa’ impressiona

O quarto dia do Festival de Veneza foi marcado pela premiere mais esperada da Biennale: Coringa, de Todd Phillips. Além dele, foi exibido também Ema, de Pablo Larraín e a versão integral de Irreversível (2003), de Gaspar Noé. A sessão especial do longa de Noé contou com a presença do diretor e de seus protagonistas Monica Bellucci e Vincent Cassel.

Orizzonti

Na seção Orizzonti foram exibidos os longas A Son, de Mehdi M. Barsaoui (Tunísia, Qatar, Líbano, França) e Mes jours de gloire, de Antoine de Bary (França).

A Son acompanha Aziz, uma criança de 10 anos, baleada em uma emboscada enquanto tirava férias com seus pais no sul da Tunísia. Após os primeiros socorros, o garoto precisa de um transplante de fígado. Ao tentar encontrar doadores compatíveis em sua família, um segredo é revelado e causa danos irreversíveis nas relações familiares. O elenco é composto por Sami Bouajila, Najla Ben Abdallah, Youssef Khemiri, Noomene Hamda, Slah Msaddek, Med Ali Ben Jemaa.

De acordo com a Variety, “A maneira imparcial pela qual o roteiro dá espaço igual para marido e mulher é uma das principais satisfações do filme, e os dois atores ocupam seus papéis com um grau emocionante de autenticidade. Bouajila é o mais conhecido dos dois graças a “Days of Glory”, “Omar Killed Me” e outros, e ele traz uma energia intensa ao personagem, enfurecendo-se contra o assalto percebido à sua masculinidade… Ben Abdallah é o papel mais silencioso, mas igualmente gritante em sua angústia avassaladora; Certamente os prêmios serão acumulados”. O ator Sami Bouajila saiu com o prêmio de Melhor Performance Masculina na seção Orizzonti.

Enquanto isso, Mes jours de gloire conta com Vincent Lacoste, Emmanuelle Devos, Christophe Lambert, Noée Abita, Damien Chapelle no elenco e é escrito por de Bary e Elias Belkeddar. A comédia segue Adrien (Vincent Lacoste), um jovem semelhante ao Peter Pan dos tempos contemporâneos: Mesmo que esteja quase completando 30 anos de idade, ele ainda age como se fosse uma criança. Quando era mais jovem, o rapaz costumava ser um ator sucedido, porém os anos se passaram e agora ele não tem um centavo no bolso. Obrigado a voltar para a casa dos pais por falta de opção, Adrien tenta reinventar sua história.

A crítica da The Hollywood Reporter destaca a performance de Lacoste. “De qualquer maneira, Lacoste mais uma vez nos conquista, embora o faça menos por humor do que por revelar a fragilidade inata de Adrien. Como outros personagens lacostianos, em última análise, amamos esse não por causa do que ele faz ou de quem ele se torna, mas porque ele permanece doloroso, cômico e inevitavelmente ele mesmo.”

Fora de competição

Na seção não competitiva do festival foram exibidos os filmes Citizen K, de Alex Gibney (Reino Unido, Rússia); Vivere, de Francesca Archibugi (Itália); e Adults in the Room, de Costa-Gavras (França, Grécia).

Citizen K é um documentário que aborda o famoso caso de Mikhail Khodorkovsky, que se acreditava ser o homem mais rico da Rússia e alcançou prosperidade e destaque nos anos 90. Após passar uma década na prisão, ele tornou-se um improvável mártir durante o movimento anti-Putin.

De acordo com o Screen Daily , Citizen K é “Um filme longo, complicado e ao mesmo tempo animado, Citizen K possui um pacote de imagens modernas da Rússia – notadamente os campos de petróleo de Siberin – com material de arquivo emocionante, tudo embrulhado em uma partitura empolgante que vagueia por hinos militares russos às aberturas hitchcockianas. Tocará emocionalmente um público auto-selecionado depois de Veneza e Toronto; sua perfeição seca e comparada ao trabalho de Ken Burns, no entanto, há bastante Gibney aqui para animar os procedimentos e entreter.”

No drama italiano, Vivere, a família Attorre protagoniza uma vida respeitável e de boa vizinhança. Luca (Adriano Giannini), jornalista freelancer, Susi (Micaela Ramazzotti), bailarina forçada a dar aulas de dança para mulheres obesas e Lucilla (Elisa Miccoli), uma jovem de dezesseis anos cheia de imaginação e sofre de asma. Em uma Roma magnífica e incompreensível, Mary Ann (Roisin O’Donovan) chega. Ela é uma estudante irlandesa que chegou na cidade recentemente para estudar História da Arte. Ela ficará um ano na Itália e na casa dos Attorre, e este período será cheio de laços legítimos e ilícitos, amizade e amor.

Adults in the Room de Costa-Gravas é um drama biográfico a partir de um relato transparente sobre a agenda oculta da Europa que expõe o que realmente acontece em seus corredores de poder. Revelando as razões para a crise na Grécia ter acontecido, foi travada uma das mais espetaculares e controversas batalhas na história política. Mas a verdadeira história do que aconteceu é quase inteiramente desconhecida, principalmente porque grande parte dos verdadeiros negócios da União Europeia ocorre a portas fechadas.

Seleção Oficial

Dos filmes que competiam pelo Leão de Ouro, foram exibidos: Ema, de Pablo Larraín (Itália) e Coringa, de Todd Phillips (EUA), que se tornou o grande vencedor do festival.

Em Ema, um coreógrafo (Gael García Bernal) e sua esposa Ema (Mariana Di Girolamo), uma professora infantil, passam por dificuldades no relacionamento por conta de um processo de adoção que deu errado, fazendo sucumbir a estrutura de suas vidas. A sinopse oficial ainda não foi divulgada.  Gael García Bernal, Mariana Di Girolamo, Santiago Cabrera compõem o elenco.

“Valparaíso foi a cidade que Pablo Neruda tomou como refúgio, e em Ema funciona como uma espécie de versão chilena de Portland – um lugar descontraído onde bandeiras esquisitas podem voar. Larraín fez esse filme com um tipo de liberdade, improvisando e fazendo o que queria, e esse é o sentimento que ele transmite ao espectador. Existem montagens de dança (que são fantásticas) e uma montagem de sexo (que é sensual, mas principalmente por causa de quão dramaticamente destaca a fome ilimitada de Ema). E há uma resolução para tudo isso que, de alguma forma, gostaria de ser sentimental e gonzo ao mesmo tempo, para que não funcione. O filme inteiro, vamos ser honestos, é meio que um truque. No entanto, é um golpe que fica na sua cabeça.”, diz Owen Gleiberman para a Variety.

Emma (2019)

Entretanto, o filme mais esperado da noite foi, de fato, Coringa de Todd Phillips. Escrito por Todd Phillips e Scott Silver, o longa se passa em Gotham City, 1981. Em meio a uma onda de violência e a uma greve dos lixeiros que deixou a cidade imunda, o candidato Thomas Wayne (Brett Cullen) promete limpar a cidade na campanha para ser o novo prefeito. É neste cenário que Arthur Fleck (Joaquin Phoenix) trabalha como palhaço para uma agência de talentos, com um agente social o acompanhando de perto, devido aos seus conhecidos problemas mentais. Após ser demitido, Fleck reage mal à gozação de três homens de Wall Street em pleno metrô e os mata. Os assassinatos iniciam um movimento popular contra a elite de Gotham City, da qual Thomas Wayne é seu maior representante. Protagonizado por Joaquin Phoenix, ainda conta com Robert De Niro, Zazie Beetz, Frances Conroy no elenco.

O filme foi aplaudido durante oito minutos em sua premiere, além de ter sido muito bem recebido pela crítica presente no festival.

O The Guardian, que deu nota máxima ao filme, afirma que o longa é  “gloriosamente ousado e explosivo… É um conto quase tão distorcido quanto o homem em seu centro, cheio de idéias e voltado para a anarquia. Tendo saqueado descaradamente os filmes de Scorsese, Phillips modela os ingredientes roubados em algo novo, de modo que o que começou como uma alegre sessão de cosplay se torna progressivamente mais perigoso – e de alguma forma mais relevante também. Gotham City está em chamas e eles estão se revoltando nas ruas. E uma fera está se aproximando do estúdio de TV para nascer.”

Já o Roger Ebert, pontuou o longa com 2/4. “O enredo por si só não é uma falta total. Mas uma vez que o filme começa a tirar fotos de Laranja Mecânica (e sim, Phillips e a empresa pediram à Warners que lhes permitisse usar o logotipo do estúdio Saul Bass para os créditos de abertura, em branco ou vermelho), você sabe que suas prioridades estão menos entretenimento do que gerar auto-importância. Como comentário social, Coringa é um lixo pernicioso. Mas, além dos prazeres malucos da performance de Phoenix, ele também exibe algumas das principais competências do estúdio de cinema, de maneira não muito diferente do que Nasce Uma Estrela apresentou no ano passado.

“Os atores coadjuvantes, incluindo Glenn Fleshler e Brian Tyree Henry, agregam valor às suas cenas, e tudo parece um filme. Os minutos finais, que farão com que qualquer espectador sensível murmure “você escolheria um final maldito e continuaria com ele?”, são provavelmente uma indicação de que tipo de confusão teríamos em nossas mãos se Phillips tivesse sido deixado inteiramente à sua própria sorte de dispositivos incoerentes cínicos por todo o tempo de execução. Felizmente, ele se dá bem com uma pequena ajuda de seus amigos.”

De acordo a Terri White da Empire “Compará-lo com Heath Ledger e Jack Nicholson parece um absurdo: este é um Coringa que nunca vimos – em muitos aspectos, não é o Coringa, é Arthur.”

Coringa (2019)

Sessão especial de Irreversível, de Gaspar Noé

Na conferência da exibição especial do segundo longa do renomado diretor Gaspar Noé, o mesmo declarou: “Percebi que o filme poderia funcionar em ambas as direções, tenho muito orgulho da edição e do quanto isso muda sua percepção dos personagens.”. Os protagonistas Vincent Cassel e Monica Bellucci também estiveram presentes na sessão de  17 anos do filme. De acordo a Cassel, “Nós realmente não mudamos, evoluímos. Eu não sou nostálgico. O fato de continuarmos falando sobre esse filme após dezessete anos significa que ele ainda é relevante hoje”.

Sendo essa versão do filme, uma versão maior comparada a original, Bellucci afirma: “Acho esta nova versão do Irreversível ainda mais forte. Destaca a beleza e a monstruosidade do ser humano”. Bellucci e Cassel se conheceram em 1996, durante as gravações de O apartamento, de Gilles Mimouni. Após isso começaram um relacionamento, se casaram em 1999 e passaram 14 anos juntos, se separando em 2013.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.