Crítica | 3ª temporada de ’13 Reasons Why’ não justifica sua existência

Discutir a necessidade de mais temporadas de 13 Reasons Why já é algo recorrente. A Netflix possui uma das tendências mais problemáticas do momento de alongar séries que não precisam ser alongadas, sempre visando o dinheiro que irá receber em cima do sucesso do produto. La Casa de Papel passou pela mesma situação, mas conseguiu se sobressair entregando um terceiro ano divertido e empolgante, apesar de desnecessário.  

13 Reasons Why é a série que mais sofre nas mãos da empresa. Desde a primeira temporada havia se discutido a falta de necessidade de novos episódios, mas como benefício da dúvida, muitos dos espectadores retornaram para assistir ao segundo ano, e chegaram à conclusão já esperada desde o início. A segunda temporada possui um problema sério de narrativa, esticando uma história por mais 13 longos episódios e, muitas vezes, apelando ao choque visual para tentar passar sua mensagem.  

Agora, com o lançamento da 3ª temporada, os roteiristas tiveram que sentar e discutir novas formas de alongar a história, sem precisar se apoiar somente no arco de Hannah Baker. Logo no primeiro teaser, já podia-se notar a diferença de tom, e o novo foco que a série iria ter daqui para frente: o assassinato de Brycer Walker (Justin Prentice). Esse mistério foi o suficiente para reconquistar a curiosidade de uma parte do público antes do lançamento, mas que acabou indo para o ralo ao andar da carruagem. 

Criar um mistério em cima da morte de um dos personagens mais detestados atualmente foi um marketing certeiro. Mas, como nem tudo são flores, a adição de uma nova personagem para se tornar o centro de todos os arcos conseguiu ir contra qualquer empolgação que a narrativa pudesse criar em cima do assassinato. Considerando que 13 Reasons Why já possui personagens queridos e conhecidos do público, tira-los do protagonismo para dar espaço a alguém completamente novo é problemático. 

O roteiro torna Ani (Grace Saif), basicamente, a protagonista da história, e é inserida goela abaixo ao espectador, sendo encaixada no círculo de personagens antigos sem a menor sutileza, e tendo uma narração dos fatos que tenta enganar e pregar peças em quem está assistindo, mas que, no final das contas, consegue ser apenas irritante. Isso tudo não é causado pela falta de talento da atriz, que faz um ótimo trabalho, mas sim por causa do roteiro que parecia não ter ideias de como narrar a história, e criou uma personagem que não passa empatia alguma, e que não possui justificativas para existir.  

O arco de Ani está diretamente ligado com o de Bryce, que inclusive, é um dos maiores pontos de divergência criados na temporada. Tentar colocar o personagem para se arrepender dos seus atos e tentar se tornar alguém melhor é válido, porém a forma que é abordada essa “redenção” precisa ser extremamente cuidadosa e responsável. A série já possui uma fama precária quando se diz em abordar assuntos com responsabilidade, e por mais que eles não tenham errado a mão dessa vez, ainda há momentos em que a mudança repentina do personagem soa forçada e incômoda. 

Entretanto, apesar da polêmica envolvendo Bryce, a série acerta no desenvolvimento de outros personagens já conhecidos do público. Tyler (Devin Druid) é o maior destaque. O gancho deixado pela temporada passada é bem utilizado aqui, fazendo com que o personagem passe por uma forte mudança que é muito bem representada. Seus momentos com Clay (Dylan Minnette) conseguem ser os mais tocantes da temporada, entregando uma das cenas mais fortes – emocionalmente falando – já vistas na série. O ator faz um excelente trabalho em representar um personagem que já passou por muitos traumas na vida, e que, aos poucos, está tentando superá-los. 

Jessica (Alisha Boeé outro exemplo de personagem que conseguiu se sobressair pelo roteiro. Sempre ótima, seu arco de evolução e aceitação do próprio corpo é um dos mais relevantes e necessários da temporada. Os maiores acertos 13 Reasons Why acontecem quando a série não está tentando chocar a todo momento, e Jessica é uma das mais beneficiadas por este fator. O mesmo pode ser dito de Justin (Brandon Flynn), o qual o roteiro acerta completamente ao retratar ele ao lado da família de Clay. A dualidade dos personagens é excelente, e merecia mais tempo de tela do que realmente teve. 

A edição da série sempre se manteve forte e bem realizada, e por mais que mantenha o alto nível nessa temporada, ela é prejudicada devido a inserção de três linhas temporais. A quantidade de informações vistas em cada episódio é enorme, e consegue deixar o espectador perdido muito facilmente com o número excessivo de flashbacks, além da menção recorrente de eventos que ainda não foram mostrados devidamente em tela. A quantidade de episódios também prejudica o ritmo, deixando a série longa e cansativa. É compreensível a decisão da produção de permanecer com os 13 episódios por temporada, mas este número não consegue mais encaixar com a história que está sendo contada, que poderia ser contada facilmente em 8 episódios, por exemplo. 

Ao final, a jornada pode não ser tão satisfatória quanto a ideia do mistério criado conseguia ser. Apesar da série tentar desviar as apostas relacionadas ao assassino de Bryce, a identidade final do culpado, apesar de surpreender em certo ponto, não consegue satisfazer o suficiente devido aos motivos que levaram ao ato. Além disso, a resolução dos arcos principais e os ganchos deixados para a temporada final não surpreendem, deixando mais uma vez a sensação de que a história está sendo esticada mais do que deveria. 

13 Reasons Why não é o pior produto já visto no catálogo da Netflix. Possui erros constantes, mas ao mesmo tempo, seus méritos conseguem transparecer em meio ao caos. Era esperado que qualquer temporada que viesse após a primeira conquistasse uma qualidade inferior e, após o desastre que o ano anterior se tornou, a terceira temporada consegue se sobressair entregando um bom desenvolvimento de personagens secundários. O talento do elenco faz com que não seja possível jogar-se fora a série por completo, mas há exemplos melhores e mais responsáveis de programas para o mesmo público disponíveis atualmente. 

13 REASONS WHY - TERCEIRA TEMPORADA
2.5

RESUMO:

A 3ª temporada de 13 Reasons Why, apesar de desnecessária, possui seus méritos, com uma premissa mais interessante do que bem desenvolvida.

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.