Análise | ‘Sombras da Vida’: a morte retratada com toda a sua crueza

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Dante Carelli Ferrara

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4
On 1 de setembro de 2019
Last modified:1 de setembro de 2019

Summary:

C e M são um jovem casal que desfrutam a vida de casados, entretanto, o destino os separariam. C sofre um acidente de carro e morre, logo em seguida se torna um fantasma. Em uma posição passiva, sem poder sair da casa, passa a observar a vida de sua esposa e das pessoas que viveram lá.

Análise com spoilers do filme Sombras da Vida – A Ghost Story.

Um jovem casal, C (Casey Affleck) e M (Rooney Mara), vivem felizes morando juntos e aparentemente não apresentam grandes conflitos. Logo no início do filme, C sofre um acidente de carro fatal. Depois de seu corpo ser reconhecido pela esposa, o protagonista desaparece e assume uma nova forma: a de um fantasma. Diferentemente dos outros filmes, em que os espíritos mantem a sua forma humana, C permanece coberto por um lençol branco com apenas dois furos pretos no lugar dos olhos. A partir do instante de sua morte, não se enxerga mais qualquer resquício do corpo do protagonista. C passa a ser um telespectador da rotina de M, pois por algum motivo se mantém preso à casa em que vivia com ela.

Sombras da Vida (A Ghost Story, 2017) possui um ritmo bem lento, com uma perspectiva melancólica, os dias para M se passam arrastados e vazios, em uma das cenas ela devora uma torta inteira, levando alguns minutos até ser cortada. É nítida a preocupação do diretor em proporcionar o tédio, seja pelos momentos agonizantes de M, como também pela passividade impossibilitante de C. A viúva se esforça em seguir em frente, apesar de tentar se relacionar com outros homens, a lembrança do marido a perturba. Após algum tempo, M decidiu se mudar e uma mãe com seus dois filhos passam a morar na casa.

C parece não simpatizar com os novos residentes, em um de seus poucos atos como fantasma, passa a assombrá-los. Primeiro assusta as crianças, elas conseguem vê-lo de alguma forma, depois destrói toda a louça da cozinha, como se estivesse tomado por ataque de fúria. Em muitas cenas, a narrativa quebra com a linearidade do tempo, o protagonista-fantasma transita milagrosamente para o passado e o futuro.

Dessa vez, a sala da casa é ocupada por uma festa. Um dos convidados faz um brilhante monólogo a respeito da efemeridade da vida. Muitas vezes as pessoas passam toda a vida se preocupando em fazer algo divino pelo qual serão sempre lembradas e seus nomes serão eternizados. Beethoven ao compor a 9° sinfonia, provavelmente a sua maior obra, obteve o seu lugar de reconhecimento e perpetuação na memória da humanidade.

Por mais que a humanidade talvez perdure por vários milênios, chegará o dia em que o Sol inchará até explodir, causando uma série de catástrofes no planeta. Por mais que uma pequena parcela da população sobreviva e ainda se recorde de Beeethoven, inevitavelmente eles também serão tragados. Consequentemente, toda e qualquer produção humana será apaga implacavelmente. No final das contas, resta a pergunta: de que nos serve nos preocupar em deixar um legado ou uma obra imortal? Afinal, cedo ou tarde, tudo será tragado, seja pelo tempo ou pelas calamidades naturais.

CONTEMPLANDO O MORRER

Em um de seus textos mais poéticos, Sobre a Transitoriedade, Freud trata do destino inevitável de todos os objetos: a morte. Mesmo as maiores belezas estão fadadas a eliminação completa de si. Mas como ele mesmo escreve, as coisas não devem ser contempladas pela sua capacidade de duração. Existem flores capazes de alcançar o ápice de sua graça por apenas uma noite e logo em seguida murchar, nem por isso, elas devam ser desprezadas. No processo de luto é comum as pessoas se apegarem aos objetos perdidos e recusarem os novos. Passado algum tempo, depois de elaborar o luto, é possível investir energia psíquica em novos objetos e vínculos.

No caso de C, por se tratar de sua própria morte, o que o mantém apegado a sua vida perdida é a casa. Talvez esse tenha sido um dos poucos lugares em que tenha se sentido satisfeito e com uma relação saudável, apesar de alguns conflitos, no que se refere ao desejo de M em querer se mudar. Em sua tentativa em se manter a todo custo na casa, permanece em uma condição objetal. Não pode ser visto, nem escutado ou se relacionar com as pessoas. Apesar de manter uma certa consciência metafísica, sua existência foi apagada, restando apenas sua memória para algumas pessoas. Se a vida pode ser sem sentido e vazia, imagine a morte! C pode ser uma metáfora para a melancolia, é muito comuns pessoas neste estado relatarem se sentirem mortas e completamente apáticas, como se nada mais importasse.

Muitas religiões se esforçam em oferecer um acalanto para os indivíduos frente a morte, com as promessas de uma “vida” posterior e uma premiação com algum suposto paraíso. Claro que para os fiéis desobedientes e rebeldes há o castigo do inferno ou do limbo. Ainda assim, parece ser preferível até mesmo a possibilidade do inferno do que de uma morte absoluta, uma ideia intolerável para o inconsciente. Talvez um dos aspectos mais incômodos de Sombras da Vida seja o vagar de C como um fantasma sem corpo ou qualquer interação, preso a um limbo da observação inerte, sem nenhuma resposta ou significado aos mistérios da vida e da existência.

Na parte final do filme C contempla as várias transformações da casa, atravessando as barreiras do tempo. Em um momento a casa é derrubada e se transforma e um enorme prédio. Em outro, milagrosamente, C vai para o século XIX, lá há uma família de camponeses planejando se estabelecer no local da casa, antes de sua construção, mas são assassinados por índios. Apesar de C adquirir uma aura onisciente, no que se refere aos acontecimentos da localidade da casa, se mantém preso em sua falta de corpo em uma espécie de (r)existência fantasmagórica. Até finalmente encontrar o pedaço de papel escrito por sua esposa, colocado dentro de um batente da porta e desaparecer, restando somente o lençol.

Em um de seus seminários, Lacan fala da impossibilidade em compreender a morte em si, é possível ter contato com cadáveres, sangue e restos mortais. O autor compara a morte com o Sol, apesar de estar sempre à espreita no horizonte, não é possível olhar diretamente para ele. A morte parece que sempre guarda dentro de si um espectro de mistério, por mais que muitas religiões busquem um sentido para ela, não há nenhuma garantia de seu deciframento, mesmo depois da extinção da vida.

Sombras da Vida é um filme bastante peculiar. Dirigido por David Lowery, vai totalmente na contramão da indústria cinematográfica do entretenimento e dos vorazes blockbusters. Apesar do filme ser elogiado pela crítica especializada, grande parte do público o classifica como enfadonho e desnecessário. Talvez o que não fique claro é que a intenção é a de que o filme seja de fato exaustivo, frio, retratando a vida sob uma perspectiva niilista, sem as distrações e alívios de diálogos engraçados ou cenas de ação.

Em O Sexto Sentido, o protagonista passa grande parte do filme negando a sua própria morte, enquanto o telespectador se engana juntamente com ele. Já em Sombras da Vida não há essa dúvida, assim como a vida, a morte é retratada com toda a sua crueza e com ainda mais impossibilidade, não há uma nova aventura, ou a descoberta de uma revelação redentora.

De fato, esse não é um filme divertido ou que valha a pena ser revisto várias vezes, principalmente pela angústia que ele causa. Entretanto, a reflexão que ele provoca, articulada principalmente com a Psicologia e a Filosofia, traz um grande diferencial enriquecedor. Importante destacar a beleza da fotografia do filme, o que contribuiu para a contemplação do nada que a vida representa. Apesar de todos os esforços em preenchê-lo de alguma forma e assim ter alguma distração, enquanto se aguarda o destino derradeiro.

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Dante Carelli Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.