Festival de Veneza | Dia 1: Ausência de diretoras e Catherine Deneuve em ‘The Truth’ são os destaques

No dia 28 de agosto de 2019 deu-se início a 76ª edição do Festival de Veneza, festival que ocorre anualmente no Palazzo del Cinema, na ilha de Lido, Itália.

Um dos festivais mais antigos de cinema teve início com a conferência de abertura feita pelo júri presidido pela cineasta argentina Lucrecia Martel (Zama), indicada pelo diretor do festival Alberto Barbera. Além dela, o júri é composto pelo CEO e diretor executivo do Toronto International Film Festival, Piers Handling; pela atriz francesa Stacy Martin; pelo diretor de fotografia mexicano Rodrigo Prieto; pelo cineasta e ator japonês Tsukamoto Shinya; pelo ator, roteirista e diretor italiano Paolo Virzì, pela escritora e diretora canadense Mary Harron; e pela diretora e roteirista australiana Jennifer Kent.

Durante a conferência, a polêmica que perdurou durante as entrevistas foram questões acerca das políticas sobre mulheres, pois, de 21 diretores que competem pelo Leão de Ouro – grande prêmio do festival – apenas duas são mulheres: Haifaa al-Mansour e Shannon Murphy. Sobre a falta de diversidade de gênero vigente no Festival de Veneza, o diretor Alberto Barbera apontou ser contra a implantação de cotas, já que em sua visão, isso prejudicaria a qualidade da seleção de filmes. Entretanto, Martel discordou do diretor e apontou a necessidade da implantação, já que, apesar de não ser a melhor solução seria a ideal para reafirmar a posição das mulheres nesses espaços.

“A questão das cotas é difícil e a resposta nunca é satisfatória… Não há outras soluções que incluam a discussão sobre dar às mulheres o lugar que elas merecem. E acho que as cotas são de fato pertinentes no momento. Eu gosto delas? Não. No entanto, acho que não conheço nenhum outro sistema que force essa indústria a pensar de forma diferente e a considerar filmes dirigidos por mulheres”, disse Martel. Além disso, a diretora também indagou Barbera sobre o decaimento da qualidade nos filmes: “Imagine uma situação em que temos uma formação de 50-50. Você tem certeza de que a qualidade realmente diminuiria ou isso levaria a uma situação diferente na indústria? Esse tipo de transformação é tão profunda que talvez não seja tão ruim se implementarmos uma situação como essa.” (via The Hollywood Reporter)

Entretanto Barbera mantém sua posição quanto à negação as cotas. Ele apresenta a dificuldade diante de encontrar filmes que cumprissem os padrões da competição, e devido às datas de lançamento do estúdio ou às decisões de marketing, outros não puderam estar presentes. “Espero estar isento de qualquer preconceito quando vejo um filme… Eu adoraria convidar mais diretoras de alguns dos filmes dirigidos por mulheres, mas não acho que elas tenham a qualidade de serem convidados”, completa.

Juri do Festival de Veneza – Foto: Vittorio Zunino Celotto / Getty Images

A premiere de An Officer and a Spy, de Roman Polanski, no festival

Durante a conferência, Matel foi questionada acerca da premiere do novo filme do diretor Roman PolanskiJ’accuse (An Officer and a Spy) e sua posição quanto ao histórico do diretor. Em março de 1977, o diretor Roman Polanski foi indiciado em Los Angeles por cinco crimes contra a menor de 13 anos, Samantha Geimer acerca das acusações de: estupro com uso de drogas, perversão, sodomia, atos libidinosos com uma adolescente com menos de 14 anos, e por fornecer drogas controladas a uma menor de idade. Polanski, que foi condenado em 1978 em Los Angeles, entretanto, o mesmo fugiu do país antes de ser sentenciado, e hoje reside na França.

Seu novo filme integra a competição oficial do festival de Veneza, quando questionada sobre seu posicionamento acerca disso, Matel respondeu que não separa o artista de sua obra. “Eu não divido os artistas de suas obras de arte. Acho que aspectos importantes sobre a obra de arte emergem do homem… Eu também acho que, para todos vocês, a presença de Polanski com o que sabemos sobre ele no passado, é de alguma forma difícil de enfrentar. Mas eu fiz algumas pesquisas na Internet e também consultei alguns escritores, alguns jornalistas que lidaram com esse assunto, e eu vi que a vítima considera este caso como um caso fechado, dizendo que Polanski havia cumprido o que tinha sido exigido dele. Polanski concordou com os pedidos do tribunal, por isso não posso julgá-lo depois da decisão do tribunal”.

Ainda assim, a diretora completou afirmando que não ter motivos para celebrar juntamente com o diretor. “Eu posso expressar minha solidariedade à vítima e é difícil para mim entender se este é um evento fechado para a vítima. Eu não participaria do jantar de gala organizado para Polanski, porque eu represento muitas mulheres que estão lutando na Argentina por esse tipo de problema e não vou estar lá para parabenizá-lo… Mas acho que é certo que o filme de Polanski esteja aqui neste festival. Temos que desenvolver nosso diálogo com ele. Este é o melhor lugar possível para continuar com este tipo de discussão.”, finalizou Lucrecia.

Jean Dujardin e Louis Garrel em “J’accuse”, de Roman Polanski

The Truth, de Hirokazu Kore-eda

A abertura do Festival de Veneza ficou a cargo de La vérité (The Truth), primeiro filme falado em inglês do diretor japonês Hirokazu Kore-eda (Assunto de Família), indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2018. O seu novo longa é protagonizado por Ethan Hawke, Catharine Deneuve e Juliette Binoche. No filme, Fabienne (Catherine Deneuve) é uma famosa atriz francesa que resolve transformar a história de sua carreira bem-sucedida em um livro de memórias. Sua filha Lumir (Juliette Binoche), que foi viver nos Estados Unidos para fugir do temperamento arrogante da mãe, resolve voltar à França para participar do lançamento do livro. A reunião entre as duas mulheres faz com que desavenças e sentimentos mal resolvidos voltem à tona, constrangendo todos ao redor.

O filme, no geral, agradou ao público, mas não tanto quanto seus longas anteriores.

O site The Guardian destaca a performance de Catherine Deneuve e pontua o filme com 3 estrelas de 5. “Kore-eda ganhou a Palma de Ouro em Cannes com seu filme anterior, Shoplifters, uma gloriosa carta de amor para uma série de pequenos ladrões. Mas esse foi um filme diferente, um festival diferente, e é injusto exigir esse relâmpago duas vezes. Se The Truth falta frescor e a selvageria do melhor trabalho do realizador, compensa com uma série de voltas e reviravoltas elegantes enquanto a câmara circula Fabienne e Lumir, vendo-as de todos os ângulos; observando como elas se encaixam. Sim, o conto de Kore-eda é quente e reconfortante, beirando o aconchego. Mas contém um núcleo duro de verdade emocional, como a ervilha debaixo do colchão que acordou a princesa.”

O site The Playlist pontuou o filme com B, elogiando a direção de Kore-eda e sua performance ao conduzir o filme em mais de uma língua. Além de destacar as características simbólicas dele como o fato de abordar temas pesados acerca da família, mesmo que em tela, se torne suave. O site destaca também a que o filme veio:

“Mas Deneuve, como Fabienne, é o centro reconhecido e faiscante deste globo de plasma, o planeta em torno do qual todos os outros orbitam. E isso não é simplesmente projeção de dublês, para refletir o status do mundo real de Deneuve de volta a um papel sem que ela mova um músculo. Em cada fardo trocado, em todo gesto imperioso – e especialmente naqueles momentos em que a fachada se rompe brevemente -, Deneuve encontra fascinantes notas de fragilidade sob o temível autocontrole de Fabienne. Então, talvez a resposta para o dilema de onde colocar The Truth no cânon seja simplesmente isto: é um filme de Catherine Deneuve. Na verdade, é o filme de Catherine Deneuve que ela sempre mereceu, mas que, por alguma estranha razão, ela teve que esperar até agora, até que o diretor vencedor da Palma de Ouro por um agridoce filme japonês sobre pais/filhos, finalmente escrevesse para ela.”

As performances são destacadas na crítica do site TheWrap, além da atuação de Kore-eda ao conseguir manter sua essência, mesmo tendo mudado o país e língua nativa. “Se Assunto de Família de Kore-eda era sobre pessoas descartadas se unindo para formar uma família, talvez The Truth seja o oposto, onde relações de carne e osso têm que descobrir como perdoar, ou pelo menos entender, umas às outras. . Mesmo trabalhando em outro idioma e em outro continente, ele mais uma vez capta as complexidades da condição humana.”

Ethan Hawke e Juliette Binoche em “La vérité”

Pelican Blood, de Katrin Gebbe

Exibido na seção Horizonte do Festival de Veneza, o longa de Gebbe aborda a história de Wiebke (Nina Hoss), uma treinadora de cavalos que adota Raya, uma menina de 5 anos. Quando ela descobre que Raya sofre de uma doença que a impossibilita de estabelecer conexões emocionais ou sentir empatia, colocando a si mesma e todos a sua volta em perigo, Wiebke se vê em uma situação inimaginável. Conforme a menina fica cada vez mais agressiva e coloca a filha mais velha da família, Nicolina, em risco, Wiebke se vê obrigada a decidir se deve ou não ficar com Raya.

Tim Grierson que está cobrindo o Festival de Veneza para o Screen Daily, retrata o filme como um bom drama com quê de suspense que prende o telespectador a partir da relação mãe e filha, entretanto, se perde um pouco nos tons fantasiosos.

“Durante grande parte do filme, Pelican Blood permite que as raízes da monstruosidade imprevisível de Raya permaneçam misteriosas, apresentando ao público três possíveis possibilidades igualmente desconcertantes: ela tem problemas emocionais; ela é totalmente má; ou talvez tenha algo a ver com a própria Wiebke. Esse terceiro cenário se conecta à idéia mais emocionante do filme, que é que essa mãe solteira está sendo punida por sua necessidade de “resgatar” outras pessoas. Em seu trabalho, ela se orgulha de reabilitar cavalos difíceis de manejar – embora, como explica Wiebke, geralmente não seja culpa do animal, mas sim de seu cavaleiro – e Hoss articula o pânico silencioso no rosto do personagem ao perceber que, em Raya, ela pode ter encontrado a única criatura selvagem que ela não pode controlar.”

A Variety segue o caminho, destacando a performance de Nina Hoss e a intenção do filme, entretanto, seu ato final desagrada. “É essa ambiguidade calculada que impede que Pelican Blood atinja um horror total; o equilíbrio que atinge entre os respectivos pesadelos dos pais de A Órfã e Precisamos Falar sobre Kevin é delicado, ainda que derrubado por um ato final exagerado, mais preocupado com atmosferas espirituais exoticas do que com o exame psicológico de perto. É uma reviravolta desconcertante em um filme que, de outra forma, cultiva uma séria seriedade de intenções – seja nas lentes widescreen serenamente lindas de Moritz Schultheiss, com sua paleta suave de paus e pedras, ou nas performances apropriadamente agonizantes e bem escritas.”

Nina Hoss em “Pelikanblut”

O Festival de Veneza vai do dia 28 de agostou ao dia 07 de setembro. Acompanhe a programação aqui.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.