Crítica | ‘O Cristal Encantado: A Era da Resistência’ é diferente e encantador

Em 1982, o falecido Jim Henson (1936-1990) levou para o cinema O Cristal Encantado, longa feito com bonecos animatrônicos, conhecidos como Muppets. Sim, aqueles mesmo que você já deve conhecer e deram origem a personagens como Caco e Garibaldo da Vila Sésamo. Dentre outras contribuições de Henson está a coprodução de Família Dinossauro, outra produção da qual você com certeza já ouviu falar. Entretanto, em 2019, o prequel de seu primeiro longa-metragem, O Cristal Encantado: A Era da Resistência, chega à Netflix para se tornar a produção mais impressionante dentro do universo criado pelo autor.

A história dirigida por Louis Leterrier (O Incrível Hulk) se passa em um mundo mágico chamado Thra, planeta com três sóis cheio de florestas, desertos, mares cintilantes e é claro, criaturas mágicas. Os anos são contados como trines, você precisa se acostumar. Dentre as inúmeras espécies estão os Gelfling, humanóides mais antigos deste mundo, divididos em sete clãs. A terra é dominada pelos skeksis, uma espécie alienígena parecida um pássaro bem asqueroso, que após fugir de seu planeta, enganou a guardiã de Thra. Com o Cristal da Verdade sob sua proteção, recorrendo ao seu poder e corrompendo sua fonte de energia, eles dominam tudo o que podem.

Essa premissa é apresentada logo nos primeiros minutos da produção. É ai que a grandiosidade de O Cristal Encantado: A Era da Resistência surge. Um mundo minucioso, colorido, bem construído, e sobretudo, encantador. Não é exagero dizer que, passados alguns minutos de estranhamento inicial pelo fato de vermos bonecos em tela e pela quantidade de informações, a narrativa flui naturalmente, e essa, aliada ao design de produção, é justamente o que ganha o público, sobretudo àquele investido em fantasia e magia. Uma parcela ampla, diga-se, pois a série é capaz de agradar a todas as idades sem soar necessariamente infantil.

Além do óbvio uso dos bonecos, há um nível de CGI evidente, mas bem aplicado, o que torna o seriado bonito de assistir. Porém, a direção de Leterrier é preciosa em captar momentos minimalistas, como os do início do segundo episódio. Você se esquece, por alguns instantes, que não são pessoas. Os movimentos de câmera e a fotografia, que não apenas opta pelas cores vivas mas fornece planos lindíssimos, se encarregam de complementar o trabalho, dando senso de unidade ao mesmo.

O Cristal Encantado: A Era da Resistência – Netflix

Os cinco episódios liberados para apreciação pela Netflix destacam o poder e a corrupção a partir disso. Os Skeksis, que se tornaram Senhores do Cristal, também são uma boa analogia à exploração e colonização. No início, quase todos os Gelfling adoram os Skeksis como deuses, servindo como guardas e pagando tributos. Os podlings são criaturas, digamos, inferiores, e há um humor físico nisso, contido nas criaturas mais desajeitadas por natureza. O que acontece até mesmo nos Skeksis, criaturas que são as mais temidas e repugnantes. Mas, como fora dito, A Era da Resistência não é uma série boba, e entrega drama, aventura e suspense na mesma proporção.

Não é necessário assistir ao filme de 1982 para entender os acontecimentos da série, é bom que se diga. Eles funcionam de forma independente e autônoma. Para os familiarizados com O Senhor dos Anéis, Harry Potter, Game of Thrones e outras séries e filmes que abordam fantasia, é um prato cheio.

É necessário destacar ainda o elenco de vozes. E ela é tão grande quanto ilustre: Anya Taylor-Joy, Caitriona Balfe, Helena Bonham Carter, Taron Egerton, Nathalie Emmanuel, Lena Headey, Natalie Dormer, Alicia Vikander, Sigourney SWeaver, Bendeict Wong, Eddie Izzard, Toby JonesJason Isaacs, Simon Pegg, Andy Samberg e Mark Hamill. Porém, o sucesso dos dubladores seria impossível sem o trabalho brilhante dos marionetistas. Repare as expressões faciais e o cuidado com os quais líquidos caem e árvores e papéis se movimentam. Tudo é muito bem feito. Junte a isso o belíssimo trabalho de design de som, aliado à trilha sonora, episódica nos momentos cruciais.

Porém, a alto poder visual acaba se tornando um dos poucos pontos negativos da série. Explico. Há um conjunto de cenas em todos os episódios que são absolutamente lindas, mas pouco tem a acrescentar à narrativa, a não ser que o seu senso de contemplação seja grande. Isto posto, dada a quantidade de minutos por episódio – 50 a 60 minutos -, pode incomodar os mais ansiosos pelo desenrolar da história.

O Cristal Encantado: A Era da Resistência – Netflix

O Cristal Encantado: A Era da Resistência é uma das opções mais diferentes e divertidas da TV. Disponível na Netflix a partir de amanhã (30), a partir do momento em que você está disposto a se entregar para uma história que se passa em um planeta totalmente totalmente diferente, subjugado por pássaros alienígenas, terá um prato cheio em mãos.

O CRISTAL ENCANTADO: A ERA DA RESISTÊNCIA
4.5

RESUMO:

O Cristal Encantado: A Era da Resistência honra o legado de seu criador, Jim Henson, e se torna uma série de fantasia acessível, diferente e encantadora.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...