Crítica | ‘Carnival Row’: fantasia Vitoriana do Amazon Prime Video impressiona em sua 1ª temporada

O ano de 2019 pode ser um ponto de inflexão para o Amazon Prime Video. Na contramão das produções de super-heróis, no mês passado, a plataforma de streaming lançou The Boys, sem muito alarde mas com ótima qualidade e boa recepção do público e da crítica. Agora a bola da vez é Carnival Row, série que se passa em um mundo de fantasia Vitoriana repleto de criaturas mitológicas imigrantes, cujas terras exóticas foram invadidas por impérios do homem.

Mas o que isso implica na mudança de direção? É muito simples. A nova aposta da Amazon pega carona no vácuo deixado por Game of Thrones, se apresentando como uma boa opção do gênero fantasia, com contornos políticos e alegóricos, embora não deva ser comparada tematicamente a esta. O que inevitavelmente vai acontecer, mas de forma errada. Isto posto, se há dúvidas do que a Amazon pode fazer com a série de O Senhor dos Anéis, o valor de produção em Carnival Row nos dá uma boa ideia.

Com oito episódios de uma hora de duração, a série é estrelada por Orlando Bloom (Piratas do Caribe, O Senhor dos Anéis) e Cara Delevingne (Esquadrão Suicida, Valerian). Bloom se sente confortável em um terreno que domina, e tem espaço para apresentar uma composição mais adulta, com direito a cenas mais quentes. Já Delevingne não é, nem de longe, a mesma atriz dos seus trabalhos anteriores. O papel de fada durona lhe cai bem, os protagonistas (nem sempre juntos em tela e com agendas próprias) possuem química e mantém a narrativa envolvente sem que o roteiro necessite forçar um romance. Ponto para os escritores, que nos fazem querer ver mais dessa dinâmica em tela, e apresentam explicações para pontas, aparentemente soltas, através de um episódio que elucida dúvidas sobre o passado dos dois.

O piloto – coescrito por ninguém menos que Guillermo Del Toro – estabelece bem o universo, embora precise de uma hora para apresentar um sem-número de informações. No entanto, a peteca não cai. A primeira cena,  uma perseguição de roer unhas, já mostra todo o potencial temático e visual que a série possui, com cargas de CGI muito utilizadas, mas de maneira satisfatória. A ambientação das cidades em movimento – é  como se Sherlock Holmes tivesse viajado para a era Vitoriana de Penny Dreadful  – e o design de produção enchem o quadro de detalhes interessantes, reforçando o valor de produção. Não é difícil ficar imerso no que é mostrado.

Orlando Bloom e Cara Delevingne em “Carnival Row”

A série se beneficia, e muito, de suas alegorias. Proibidos de viverem, amar e voarem com liberdade, as fadas lutam para coexistirem com os seres humanos. Muitas delas trabalham como prostitutas, e isso rende cenas de sexo que se tornam fantásticas não pelo ato em si, mas pela inventividade do que é mostrado. Aliás, o design das asas das personagens impressiona.

Temas atuais como a crise de refugiados da Europa, preconceito, e a intolerância racial amorosa permanecem acesos, tanto na relação entre os personagens de Bloom e Delevingne, quando pelos faunos, espécie mostrada na em posição de servidão aos humanos, propositalmente, penso eu, retratados por negros. Agreus, interpretado por David Gyasi (Interstellar), é um fauno rico que, justamente, subverte o status quo social. Sua simples presença ao lado da suposta elite já é suficiente para causar embaraço, e a série explora isso de forma sutil e misteriosa.

No entanto, a série de assassinatos horríveis que acontece na cidade é também um dos elementos centrais em Carnival Row. E a série é bastante cru neste sentido. Uma espécie de conspiração cerca a narrativa, e nos primeiros episódios, poucos detalhes são fornecidos. É preciso dizer que isso pode incomodar alguns, até por causa da quantidade de temas e subtemas, mas vale a pena permanecer investido. Embora a narrativa se apresente de maneira lenta, tanto os diálogos bem escritos quanto os movimentos de câmera engajantes e a bela trilha sonora se complementam.

Outro ponto positivo da série é o seu elenco. Jared Harris (Chernobyl) sempre costuma conferir credibilidade aos seus trabalhos como ator, e aqui não é diferente, no papel de Absalom Breakspear, chefe de uma família poderosa que exerce enorme influência em Burgue. Porém, neste núcleo, que rouba a cena é Indira Varma(Game of Thrones). Piety Breakspear é descrita pela sinopse como uma matriarca astuta, mas, é muito mais do que isso. Seu primeiro ponto de virada diz bem ao que a personagem veio. Os irmãos Spurnrose também merecem destaque, em especial Tamzin Merchant (Salem). A jovem mulher é quem dá as cartas em uma família aristocrática falida, e ela é capaz de movimentos ousados para reverter a situação.

Tamzin Merchant e David Gyasi em “Carnival Row”

Em última análise, Carnival Row oferece uma visão de mundo sombria, que lida com temas atuais através da fantasia, em uma miscelânea de mitos que servem de alegorias para temas no nosso mundo, mas que funcionam muito bem por si só. No fim do dia, o seriado, já renovado para uma segunda temporada, se apresenta não apenas como uma nova opção do gênero fantasia, mas como a opção possível, para uma audiência que não esteja apenas disposta a buscar um escapismo, mas permitindo àqueles que assim desejam o fazerem.

CARNIVAL ROW – 1ª TEMPORADA
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RESUMO:

Em sua primeira temporada, Carnival Row estabelece um rico universo de fantasia vitoriana com alegorias ao mundo atual, com um bom arco de mistério e conspiração.

Carnival Row estreia dia 30 de agosto apenas no Amazon Prime Video.

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...