Crítica | ‘Mindhunter’: 2ª temporada’ mantem excelência e explora a injustiça racial nos Estados Unidos

Na contramão do que muitos acreditavam que veriam em uma segunda temporada de Mindhunter, a segunda fase dessa que é, sem dúvida, uma das melhores séries já exibidas pela Netflix, aposta em uma narrativa ligeiramente diferente do que no começo de sua jornada.

Acompanhando a divisão liderada por Holden (Jonathan Groff) e Bill (Holt McCallany), agora temos uma narrativa ainda mais rica que na primeira fase. Se na temporada anterior, os dois personagens eram pioneiros no ramo de entrevistar assassinos em série em busca da criação de perfis psicológicos para apreender outros assassinos em série, agora, com a divisão estabelecida no FBI e com sua reputação cada vez mais crescente, o desafio para a dupla e para seus companheiros agora é outro.

Enquanto acompanhamos o lento desenvolvimento dos crimes realizados pelo assassino BTK (Amarrar, Torturar, Matar), os protagonistas se veem envolvidos na dura jornada em prol de solucionar o caso dos misteriosos e hediondos assassinatos de Atlanta, que assolaram os Estados Unidos no começo da década de 70, quando ocorreu uma série de desaparecimento de meninos negros, fato esse que chamou a atenção de todo o mundo.

Esses desaparecimentos acabaram por promover a discussão acerca da violência racial contra os negros, assim como a dificuldade de pessoas dessa categoria de conquistarem justiça perante a Sociedade. A problemática fica ainda maior quando Holden insiste que o assassino era um homem negro, integrante comum da sociedade negra, fato este que gerou ofensa à comunidade, visto a quantidade de agressões sofridas por eles ao longo da história.

Interessante também é a desconfiança inclusive, do envolvimento da Klu Klux Klan, acerca da responsabilidade dos assassinatos.

Outro fato que muito enriqueceu essa temporada de Mindhunter  foi a tão esperada entrevista com Charles Manson (Damon Herriman, que fez o mesmo papel em Era Uma Vez em… Hollywood), especialmente pela carga emocional vivida por Bill, uma vez que está enfrentando uma delicada situação envolvendo seu filho, que foi influenciado por outros garotos até a consumação da morte de outro menino em circunstâncias bastante bizarras. A semelhança do caso do filho de Bill com Manson e os jovens que ele manipulou para cometer assassinatos é gigantesca.

A técnica da série permanece impecável. Os atores estão todos acertados e assim como o ritmo lento e contido da narrativa, as atuações seguem minimalistas, o que gera em alguns momentos, situações de angústia pelo expectador, uma sensação que quase implora para que algo aconteça, mas assim como a realidade, as coisas se desenrolam em seu próprio ritmo, independente da vontade que queremos que elas aconteçam.

A 2ª temporada de Mindhunter consegue ser ainda mais rica e impactante do que sua antecessora, levantando questionamentos acerca de sexualidade, preconceito e a dificuldade de lidar com assuntos envolvendo as pessoas amadas, especialmente quando estas se envolvem em situações criminosas, mas não deixam de ser as pessoas que amamos.

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Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...