Crítica | ‘Bacurau’ é um suspense que dialoga com o atual cenário político

Num futuro recente, após a morte de Dona Carmelita (Lia de Itamaracá), aos 94 anos, os moradores da pequena cidade de Bacurau, no sertão nordestino, descobrem que o local desapareceu dos mapas. A partir disso, situações estranhas começam a acontecer: o aparecimento de drones, assassinatos misteriosos e a presença de pessoas estrangeiras na região. Logo os moradores percebem que estão sob ataque e precisam se proteger de alguma forma.

Kleber Mendonça Filho foi um cineasta brasileiro tão comentado nos últimos anos que parece que ele tem uma longa carreira no ramo. Porém, Bacurau é apenas o seu terceiro longa de ficção. Acontece que os seus dois últimos filmes chamaram muita atenção não só dos brasileiros, mas da crítica internacional. Com O Som ao Redor (2013), o diretor conseguiu apresentar a sua impressionante habilidade de discutir profundamente questões sem precisar expor completamente estas; um tema social disfarçado de ficção.

No caso de Aquarius (2016), Kleber, dentre várias questões, aborda um tema político, no mesmo formato e através de metáforas. Além disso, o filme chamou muita atenção com os protestos realizados no tapete vermelho do Festival de Cannes devido aos rumos que a política no Brasil estava tomando após o ano de 2016. É o cinema autoral, que infelizmente, parece não ter tanto espaço na concorrência com filmes hollywoodianos nos cinemas brasileiros, mas que tem muito a dizer sobre o Brasil.

Para realizar Bacurau , que ganhou o Prêmio do Júri em Cannes (algo que só tinha acontecido com O Pagador de Promessas, de Ancelmo Duarte), Kleber Mendonça se junta a Juliano Dornelles na direção. Ele já havia trabalhado como diretor de arte nos filmes anteriores do cineasta.

Bacurau (2019) – Vitrine Filmes

Bacurau também tem muito o que dizer, pode ter certeza. Mas, ao mesmo tempo que certas características do diretor são bastante perceptíveis, parece que é uma outra pessoa por trás daquele filme. Kleber e Juliano trabalham com muitos personagens – vinte ou mais -, num roteiro bem desenvolvido com bastantes reviravoltas e constantes mudanças de gêneros. Porém, sempre tendo como base o protagonismo daquela cidade nordestina e a forte crítica aos EUA (será melhor desenvolvido com o passar do texto).

Um dos melhores aspectos do roteiro é o fato de você não saber para onde a trama está indo. O primeiro ato, além de cumprir muito bem o objetivo básico de apresentar os personagens da história, não dá pistas sobre o que está prestes a acontecer ou qual será o possível conflito. Algumas premonições ou sensações ruins acontecem para aumentar o suspense, como o caixão cheio d´água, conforme aparece no trailer. Com o desenrolar do filme, fica cada vez mais claro que o grande protagonista é a cidade de Bacurau. E em relação aos outros personagens? Todos eles seriam coadjuvantes. Além disso, o roteiro toma o cuidado de dar um espaço de tela necessário para cada um deles, ou seja, eles aparecem durante o tempo certo, nem mais, nem menos do que isso. É interessante analisar também toda a calma com a qual todos são apresentados. O roteiro, num primeiro ato longo, trabalha bem a questão do relacionamento e de até um sentimento de pertencimento de cada pessoa com Bacurau.

Enquanto o primeiro ato trabalha com o dia a dia dos personagens no local, o segundo traz novas figuras e o grande problema que aquela cidade enfrentará. Nessa passagem de um ato para o outro, o filme ganha um novo formato, que se aproxima muito de filmes Hollywoodianos. Elementos de gêneros como ação, western e ficção científica – modelos bastante presentes no cinema estadunidense -, começam a aparecer. Todos eles dentro de uma camada de suspense. No entanto, não é como se Kleber e Juliano simplesmente tivessem abandonado ou esquecido o fato de que esses elementos não dialogam diretamente com as questões presentes por aqui no Brasil. Tem um propósito para essa mudança repentina no segundo ato.

O roteiro representa, através de metáforas, as figuras do colonizador e daqueles que esse tenta colonizar. Sob esse aspecto, os primeiros personagens a aparecerem são os de Karine Teles e Antonio Saboia. O encontro entre eles dois e os moradores de Bacurau trabalha muito bem essa alegoria. A estranheza, os vestuários bem diferentes, a tentativa por parte daqueles dois, de conhecer aquele local, mas sem querer se misturar, tudo isso é colocado a prova nessas cenas. E claro, como em todo encontro entre uma pessoa com essa proposta colonizadora e o povo que infelizmente está recebendo essa “visita”, os assassinatos começam a ocorrer.

Bacurau (2019) – Vitrine Filmes

A partir disso, as pessoas por trás desse encontro são apresentadas. Kleber e Juliano realizam uma fiel representação de estadunidenses. Boa parte desse segundo ato é em inglês. E com esses novos personagens, o filme muda de cara, como foi dito anteriormente. O público vai se sentir como se estivesse assistindo a um longa produzido por algum estúdio em Hollywood. Por isso, a mudança de gêneros. Tudo isso com a proposta de criticar o projeto imperialista e colonizador dos EUA, que se mostrou tão presente no século passado e que se mostra tão presente atualmente. Logo, de maneira bem inteligente, entra nessa crítica a estrutura dos filmes norte-americanos, que trabalham com fórmulas bem definidas.

Nesse sentido, uma das melhores cenas do filme é a da reunião desse grupo de pessoas que só falam em inglês. Nela, ficam expostos, de maneira resumida, todos os preconceitos por parte dos norte-americanos. As generalizações, a total falta de respeito com os personagens de Karine e Saboia por eles serem brasileiros e a tentativa desses dois de se aproximar do restante do grupo, dizendo que eles são diferentes porque vinham da Região Sul, uma região mais “rica”, “parecida” com os EUA. Justificativas que com aquele grupo não colaram, obviamente, porque, assim como boa parte dos norte-americanos, as representações deles no longa também pensavam que todo mundo que vive abaixo da fronteira com o Texas é “mexicano”.

Também chama muita atenção a falta de motivo para o plano desse grupo. A simples vontade de querer matar ou atirar em alguém pode ser entendida como outra referência aos EUA, no que diz respeito à sua política com as armas. Uma cultura, que infelizmente, estão tentando implementar aqui durante esse momento sombrio pelo qual o Brasil está passando. Mas, o roteiro não deixa também de realizar uma certa sátira sobre isso, tornando esses personagens superficiais (o que não deixa de ser um dos pontos da fórmula hollywoodiana de se fazer um filme), a ponto de dois deles começarem a fazer sexo no meio da mata, após darem alguns tiros, numa determinada cena. Não há um grande plano por trás daquela história. Aquele grupo só quer se satisfazer.

Outra questão levantada é sobre o autoritarismo daquele grupo. Uma cena muito interessante é quando Michael (Udo Kier), o líder, é chamado de nazista. Por mais que as atitudes extremas e a vontade de exterminar quem está do outro lado por parte do personagem se associem a um ideal nazista, Michael se sente bastante ofendido. É o roteiro de Kleber Mendonça Filho tentando colocar o público para refletir sobre atitudes de certas pessoas que podem estar no poder.

Bacurau (2019) – Vitrine Filmes

Algumas atuações se destacam nesse enorme grupo de personagens, mesmo que eles tenham um tempo reduzido na tela. No núcleo dos moradores de Bacurau, Sônia Braga está ótima como Domingas, mas a melhor performance é de Silvero Pereira, que interpreta o personagem Lunga. Ele é uma figura misteriosa, sempre citada com um certo receio; perseguido pela polícia, mas protegido por aquela comunidade. Quando ele aparece, é para dar um novo rumo aos moradores de Bacurau. No núcleo dos norte-americanos, Udo Kier também desempenha um ótimo papel. Bárbara Colen, Thomás Aquino e Wilson Rabelo estão bem no filme, dentro do que lhes é permitido pelo roteiro.

O terceiro ato segue o mesmo caminho, renovando-se. Este lembra muito um filme de Quentin Tarantino, do qual Kleber Mendonça gosta muito. É frenético, violento, sangrento e tão bom quanto os outros dois atos. Já a montagem do filme é marcada por algumas transições entre cenas pouco utilizadas, mas que ali se encaixaram muito bem. A fotografia captura a paisagem do sertão nordestino, com lindas tomadas do imenso céu que cobria a locação. A trilha sonora apresenta muito bem o suspense do longa.

Bacurau é um excelente filme. Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles conseguem refletir sobre questões importantes através de uma história de ficção, que vai se transformando ao longo das 2 horas e 12 minutos de duração. O roteiro, além de ser imprevisível, usa muito bem a sua grande quantidade de personagens e sabe como construir as suas críticas, que não ficam apenas no âmbito do texto, mas atingem também o estilo/gênero(s) do longa. É um filme produzido no ano passado, que se passa no futuro e que dialoga completamente com o que o Brasil enfrenta atualmente. Obrigatório assistir nos cinemas!

BACURAU
5

RESUMO:

Bacurau é um filme, que através de muitas metáforas, dialoga com o atual cenário político do Brasil, retomando certas questões primárias.

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Paulo Victor Costa

Depois que descobriu "The Truman Show" e "Lost", passou a viver de filmes e séries. Também é muito fã dos filmes do Spielberg. Tenta assistir de tudo para poder debater com outras pessoas.