Crítica | ‘Orange is The New Black’ se despede com uma 7ª temporada emocionante

Orange is The New Black começou com uma premissa diferente da maioria das séries sobre a vida na prisão. Se em séries como Oz e Prision Break, o foco da narrativa se desenvolvia principalmente no que se relacionava ao aspecto violento entre os presos, em Orange, essa característica ainda está presente, porém, o foco está em outras questões.

A série, que começou com a ingressão de Piper (Taylor Schilling), uma mulher branca e privilegiada, na prisão, onde teria que lidar com pessoas muito menos favorecidas do que ela, mostrando a discrepância promovida pela desigualdade social, na verdade, tinha isso apenas como o pontapé inicial, pois essa obra procura discutir acerca de um assunto muito mais complexo: as mulheres.

Sim, Orange is The New Black é uma série sobre prisão, mas também é uma série sobre mulheres e que, por intermédio de sua narrativa, procura discutir assuntos como machismo, violência e a própria injustiça, mas também aborda como existe força no chamado ‘sexo frágil’. E, diga-se de passagem, é gigante a força dessas mulheres.

São as mulheres que geram os filhos, que tem que carregá-los durante nove meses dentro de si e também são as mulheres que mais sofrem por eles, especialmente quando o destino destes está em jogo. Também são as mulheres, por terem sempre sido tratadas como inferiores, as que são mais exploradas pelos homens, nas mais variadas esferas. E também são as mulheres quem mais precisam reunir forças e se impor, tornando-se muitas vezes, mais poderosas que muitos homens, graças à natureza difícil de suas realidades.

Dessa forma, os seriado se desenvolveu de uma forma bastante humana. Com um clima ligeiramente leve, com cores claras e uma boa dose de humor, os episódios sempre trataram de assuntos sérios de uma forma agradável, com personagens extremamente carismáticas e que logo ganharam a empatia do público.

Nessa nova empreitada, acompanhamos uma Piper recém saída da prisão, tentando recuperar sua antiga vida, manter-se em um emprego e lidar com seus dramas de família, apenas para perceber que a vida fora da prisão, para uma ex-detenta, pode muitas vezes se apresentar como tão difícil quanto era atrás das grades. Os problemas com Alex (Laura Prepon) estão ainda maiores e a vida de casada acaba por se tornar cada vez mais complicada.

Dentro da prisão, várias prisioneiras continuam com suas rotinas, mas a que mais ganha destaque é Taystee (Danielle Brooks), outrora uma das personagens mais otimistas da série, agora que foi traída por Cindy (Adrienne C. Moore) e condenada à prisão perpétua por um crime que não cometeu, se torna sombria e pessimista, protagonizando um dos maiores arcos de personagem de toda a série, bem como um dos desfechos mais reflexivos, chegando a representar de uma forma geral, a própria essência da série e da vida de uma detenta, tendo que lidar com a rotina, seus sentimentos e até mesmo a tendência a se auto-destruir.

Porém, uma nova adição à narrativa, foi a inclusão de um novo departamento, o responsável pela detenção de mulheres que se encontram ilegais nos Estados Unidos (fazendo uma óbvia citação à política radical de Donald Trump) e é talvez nesse cenário, onde tomamos os mais fortes ‘socos no estômago’ de toda a série. É nesse lugar onde conhecemos as histórias de mulheres que se esforçam para ter uma boa vida e para criar seus filhos, mas que por causa de uma complicação burocrática, são enviadas à países onde muitas nunca pisaram na vida.

Em uma cena em particular, quando nos despedimos de uma personagem muito querida, observamos as mulheres desaparecendo nos assentos de um avião, simbolizando como essas pessoas são literalmente lançadas ao ostracismo, são ‘descartadas’ da sociedade que amam.

Partindo dessa lógica, percebe-se logo nos primeiros episódios que, apesar de se tratar da última temporada e portanto, também a temporada de despedida, nem todas os personagens terão finais felizes e essa é uma das principais características de Orange is The New Black, pois sua história tenta se aproximar ao máximo da vida. A vida sempre busca um destino otimista, porém, nem sempre é isso que ela nos reserva, pois muitas vezes, o final é simplesmente amargo.

Muitas das personagens por quem o público aprende a amar, sofrem finais extremamente desagradáveis, como é o caso de Maritza (Diane Guerrero), Red (Kate Mulgrew), Lorna (Yael Stone), entre várias outras. Contudo, assim como às vezes a vida também relega boas surpresas, há várias personagens que encontram algum tipo de felicidade.

Apesar de sentirmos a falta de alguns personagens importantes que foram simplesmente desvalorizados (muitos graças à incompatibilidade de agenda de alguns atores), é interessante acompanhar o desfecho de de Nicky (Natasha Lyonne), Daya (Dasha Polanco), Aleida (Elizabeth Rodriguez) e até mesmo de Joe Caputo (Nick Sandow), que apresenta uma ótima dinâmica amorosa com a emblemática Figueroa (Alysia Reiner), mas que também protagoniza um dos maiores (se não for o maior) arco de redenção de toda a série, uma vez que mesmo ele não sendo um detento, nas primeiras temporadas, também se encontrava em um estado motivado por machismo e preconceito, mas que após uma longa jornada de auto-conhecimento, descobre suas falhas e se esforça para compensá-las, aceitando até mesmo a punição por seus erros.

Orange is The New Black se despede com lágrimas, mas também a sensação de dever cumprido, uma série composta por muitos personagens que vão deixar saudade.

ORANGE IS THE NEW BLACK – 7ª TEMPORADA
4.5

RESUMO:

7ª Temporada de Orange is The New Black  se despede de uma forma emocionante e com clima de saudade.

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Jeziel Bueno

Cineasta independente e amante de filmes e séries. Nutre uma intensa paixão pela habilidade que só o ser humano tem de transmitir os aspectos de sua alma por meio da Arte...