Crítica | ‘Brinquedo Assassino’ é o melhor episódio de Black Mirror do ano

A série de filmes slasher do boneco assassino Chucky pode não ser a mais prestigiada e amada pelos fãs do gênero de horror, mas, com certeza, possui um lugar marcado no coração de muita gente. Por esse motivo, e considerando a atual fase que Hollywood se encontra de produzir remakes e reboots de antigos sucessos, seria inevitável não trazer a franquia de volta as telonas com uma nova repaginada.  

Para falar a verdade, Chucky nunca deixou devidamente seu público. Filmes como A Maldição de Chucky (2013) O Culto de Chucky (2017) deram continuação e um novo fôlego a franquia sendo lançados direto no mercado de homevideoSe estes últimos filmes foram bem recebidos ou não, não é algo a ser debatido aqui. Porém, Brinquedo Assassino (2019) é o reboot que a franquia não precisava, mas que acabou sendo muito bem-vindo. 

Ao rebootar uma franquia de sucesso, é preciso que uma ideia inovadora seja colocada em pauta para que o filme não pareça somente uma obra reciclada que se vende como algo inovador, mas que no fundo, não está inovando em nada, entregando apenas mais do mesmo. Com Brinquedo Assassino isso não acontece. A origem do boneco é modificada, deixando de lado todo o elemento sobrenatural que a franquia possuía antigamente, para dar espaço à algo mais atual, tecnológico e, devo dizer, bastante Black Mirror 

A história gira em torno de Andy, interpretado por Gabriel Bateman (qualquer semelhança com o dono dos brinquedos de Toy Story não é mera coincidência) que recebe de aniversário de sua mãe (Aubrey Plazade Legion Parks and Recreation) um Buddi, dublado de forma genial por Mark Hamill, que é uma espécie de amigo e assistente pessoal em formato de boneco. O público acompanha a trajetória deste Buddi em específico desde a sua fabricação, até a chegada as mãos de Andy, o que nos deixa a par de que ele não está funcionando… vamos dizer… corretamente. 

O garoto cria uma relação com o boneco, que logo no primeiro momento ganha o nome de Chuckyaté que as coisas começam a sair do controle. Chucky vê Andy como seu melhor amigo, e não aceita que alguém faça mal a ele ou que seja trocado de alguma forma, matando todos que tentam tomar o seu lugar ou atrapalhar sua relação com o menino.  

O roteiro, claramente, quer discutir a relação do ser humano com a tecnologia, e faz isso de forma bastante aceitável, considerando o tipo de filme e o subgênero de horror que ele se encaixa. É como se fosse um episódio de Black Mirror que deu certo. Ele sabe cutucar a indústria tecnológica ao mesmo tempo que consegue divertir o público da forma mais escrachada possível, não se levando a sério em momento algum, o que é um ponto extremamente positivo. 

Mas, o que mais se espera de um filme do subgênero slasher são as mortes. Elas demoram a acontecer, mas o tempo de espera é compensado completamente. Não há economia de sangue aqui, as mortes são gore, absurdas, e divertidas como devem ser. Muitas deles vêm acompanhadas de ótimas sacadas, causando não só um ótimo suspense, como também uma boa dose de comédia.  

O humor é sempre ácido e irônico. O roteiro sabe que não há como essa situação ser levada a sério, e usa a oportunidade para fazer tiradas hilárias. A personagem de Aubrey Plaza caiu muito bem no papel, sendo necessário apenas estar em cena para conseguir arrancar risadas do público. Por ter saído de Parks, a atriz entrega uma boa dose de comédia e ironia, juntamente do Detetive Mike Norris, interpretado por Bryan Tyree Henry (Atlanta). 

O ato final eleva o absurdo à nona potência, entregando situações ainda mais sangrentas e divertidas. A sequência que envolve o lançamento de uma nova versão do Buddi é uma das melhores do filme, adicionando novos elementos ao caos, e finalizando a história de forma satisfatória. Não há pontas deixada em aberto para uma possível continuação, mas se considerarmos a atual fase da indústria cinematográfica, não seria uma surpresa se eles conseguissem tirar mais uma casquinha da franquia em novos filmes. 

Brinquedo Assassino é o melhor “episódio de Black Mirror” do ano, e uma grata surpresa. Não é revolucionário – e nem se propõe a ser – mas é uma boa adição a franquia, trazendo uma nova roupagem à um personagem que já foi visto diversas versas nas telonas (e telinhas). O humor e o gore são certeiros, divertindo o público durante os 90 minutos de duração. Quando se trata de Chucky, é somente isso que importa: diversão, sangue e risadas, e o filme sabe disso muito bem.

BRINQUEDO ASSASSINO | CHILD´S PLAY
3.5

RESUMO:

Brinquedo Assassino é, inesperadamente, o melhor episódio de Black Mirror do ano, entregando uma boa dose de humor e gore ao público, e dando uma nova roupagem à uma franquia que já mostrava sinais de saturação.

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.