Crítica | Os Últimos Czares: lendas, realidades, fraqueza e influências erradas são destaque em produção da Netflix

É de conhecimento geral e notório os trágicos acontecimentos da madrugada de 16 para 17 de julho de 1918, quando a última família imperial russa foi executada no porão de uma casa afastada em Ecaterimburgo. Assistindo a Os Últimos Czares, dirigido por Adrian McDowall (ganhador do BAFTA) e Gareth Tunley, porém, iluminam-se um pouco mais os motivos que levaram os bolcheviques a cometerem essa brutal chacina que até hoje causa consternação.

Para quem gosta de história e seriados de época, essa produção da Netflix é um prato cheio, já que mistura os formatos de série e documentário, intercalando as cenas da narrativa com depoimentos de historiadores especialistas na história russa.

A intenção era fazer um relato sério e rápido de um dos episódios mais marcantes da história moderna que agradasse a todos os tipos de espectador, já que Os Últimos Czares possui apenas 6 episódios. E pode-se dizer que a intenção foi cumprida (apesar dos rangeres de dentes dos russos, que não ficaram muito satisfeitos com a “americanização” da obra).

A princesa Anastácia, filha mais nova do czar Nicolau II, e o místico Rasputin são, sem dúvida, as duas figuras mais conhecidas dessa história, que já virou uma espécie de conto de fadas. Foram tantos livros, peças e filmes com referência a eles, que não é surpresa a realidade ter sido obscurecida pela lenda.

Para citar apenas alguns exemplos, em 1956, foi lançado o filme Anastácia, a Princesa Esquecida, que rendeu um Oscar de Melhor Atriz a Ingrid Bergman. Em 1997, a Fox lançou a animação Anastasia, indicado ao Oscar de Melhor Canção Original para ‘Jornada ao Passado’ e Melhor Produção Musical/Comédia Original.

Mas o fato é que há muito mais a aprender sobre o contexto histórico da Rússia desde a coroação de Nicolau II, em 1894, até sua execução, em 1918, do que aprendemos em sala de aula.

Ao longo dos episódios de Os Últimos Czares, assistimos à decadência do império russo, em muito devido às decisões erradas do próprio czar, que culminou com a Revolução Russa e o nascimento da União Soviética.

Chega a ser enervante a falta de visão de Nicolau, um homem ingênuo, influenciável e completamente cego a tudo. Seu desespero por um herdeiro acabou por deixá-lo alheio a cumprir seu próprio papel como governante, o que, no final, levou à sua abdicação, pôs fim ao longo reinado de sua família e deixou seu filho, Alexei, sem um país para governar.

Todo o roteiro é construído para que víssemos a história do ponto de vista dele, de seus familiares e, claro, de Gregori Rasputin. É por isso que, apesar de o sofrimento do povo russo ser mencionado o tempo todo, ele não é muito retratado. Tudo é feito de maneira que o espectador enxergasse as coisas da mesma forma que a família imperial: fragmentos dos acontecimentos que se desenrolavam.

Mas o mais interessante de tudo é que, no final, percebemos como havia pessoas boas e ruins dos dois lados – na realeza e no povo que se rebelou.

O triste é descobrir que um pouquinho mais de visão política do último czar, ou um pouco mais de bom senso em escutar as pessoas certas – e não sua mulher despreparada ou um místico depravado – poderia ter feito uma enorme diferença no que veio a seguir na história mundial: o holocausto, a Segunda Guerra e a Guerra Fria.

Os Últimos Czares não é uma grande produção (apesar de algumas cenas serem bonitas de se ver) nem uma escola de boa atuação, mas é uma fonte bem rica de informação e cultura no formato entretenimento/documental.

OS ÚLTIMOS CZARES – 1ª TEMPORADA
3.5

RESUMO:

A história dos Romanov já virou lenda, mas o seriado da Netflix Os Últimos Czares têm mais coisas a revelar sobre a fraqueza de uma potência de dimensões continentais.

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Flávia Leão

Cinéfila mineira que ama os filmes desde quando os clássicos da Disney ainda eram em VHS e os seriados desde que Jeffrey Lieber e J.J. Abrams inventaram Lost.