Crítica | Histórias Assustadoras para Contar no Escuro

O que você mais temia quando era criança e ouvia histórias assustadoras? O Bicho Papão? O Lobo Mau? Um Espantalho? Provavelmente alguma dessas coisas, ou algo do tipo, te fazia ter pesadelos à noite e correr para a cama dos seus pais, tremendo de medo.

Na adolescência, o que te deixava sem sono? Ir mal numa prova da escola? Levar um fora do(a) garoto(a) que você curtia? Que a festa que você planejou fosse horrível? E agora adulto, o que te apavora mais? Entrar no cheque especial? Perder uma reunião importante? Ver seu filho seguir um mau caminho? Talvez isso e outras coisas mais.

Todos esses são medos justos e normais que fazem parte de cada época da vida. Mas em Histórias Assustadoras para Contar no Escuro, do diretor André Øvredal, os temores não evoluem. Eles ficam ali, na infância, e se perpetuam ao longo da vida, assombrando sua fase adolescente e adulta.

Sarah Bellows (Kathleen Pollard) foi uma garota que, por ter características físicas diferentes, sofreu agressões terríveis de seus familiares. Trancada no porão do casarão onde vivia e cheia de raiva, ela escrevia histórias de terror. Seu livro permaneceu preservado no porão até que, anos mais tarde, na noite de Halloween, Stella (Zoe Margaret Colletti) e seus amigos resolvem invadir o local, agora abandonado, e o encontram, “acordando” Sarah. A partir daí, coisas assustadoras começam a acontecer com todos que estavam na casa naquela noite.

Halloween, uma casa mal-assombrada, uma caixinha de música, um fantasma mal, monstros medonhos, um espantalho, luzes que piscam, chuva e trovão, sustos… Tudo isso é clichê de terror e você vai encontrar em Histórias Assustadoras para Contar no Escuro.

Se fosse só isso, o filme seria péssimo. Se você não é criança, já superou há muito essa fase de medos. Ora, a expressão de Anthony Hopkins encarando a câmera no clássico O Silêncio dos Inocentes (1991) é infinitamente mais assustadora do que o “homem furioso” que Ramón (Michael Garza) teme e que mais parece um homem-caranguejo feio; ou o cadáver descarnado sem o dedão do pé que apavora Auggie (Gabriel Rush), que é mais nojento do que tudo. Nenhum dos dois garotos é mais criança.

Mas estamos falando de André Øvredal e de Guillermo del Toro (que foi o produtor do longa). Então, se há clichê, ele pelo menos é muito bem feito. É por isso que Histórias Assustadoras está longe de ser um filme ruim e jamais poderá ser considerado uma produção pretensiosa.

A excelente fotografia e a incrível maquiagem trazem bastante realidade nas imagens e, apesar da previsibilidade, os sustos são bem colocados e sincronizados com a também boa trilha sonora. As atuações não são maravilhosas, mas não chegam a incomodar. A jovem atriz Zoe Margaret Colletti, de 17 anos, carrega bem a história e é convincente.

Além do mais, o thriller de terror lembra muito o excelente A Múmia (1991), de Stephen Sommers, na questão da existência de um livro que não poderia ser lido sem liberar um mal terrível – nesse caso, Stella assumiu o papel de Eve (Rachel Weisz) quando leu o que não deveria ser lido e “acordou” Sarah, da mesma forma como Eve “acordou” a Múmia.

O filme também faz referência ao icônico It: A Coisa, de Stephen King. Assim como a Coisa, no romance de King, Sarah pode “ler o medo” individual de cada pessoa (apesar de que, como dito, fazer isso muito mal, porque só alcança os medos infantis de cada um), usando-o para afetá-las profundamente. E assim como em It, temos uma gangue de garotos mais velhos fazendo bullying com meninos mais novos e sendo vencidos por eles, por serem muito mais inteligentes.

Desse jeito, entre monstros e clichês, assistir Histórias Assustadoras para Contar no Escuro é como fazer uma visita à sua infância e aos medos que você sentia naquela época, chegando a ser até mesmo divertido. Não será assustador para um adulto, pelo menos não como Hannibal Lecter e seu olhar, esse sim, de arrepiar. Lembrando que a censura do filme é de 13 anos.

HISTÓRIAS ASSUSTADORAS PARA CONTAR NO ESCURO | SCARY STORIES TO TELL IN THE DARK
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RESUMO:

Histórias Assustadoras para Contar no Escuro não vai assustar um adulto, mas é uma boa pedida para revisitar seus medos de criança.

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Flávia Leão

Cinéfila mineira que ama os filmes desde quando os clássicos da Disney ainda eram em VHS e os seriados desde que Jeffrey Lieber e J.J. Abrams inventaram Lost.