Crítica | 1ª temporada de ‘Euphoria’ é surpreendente e chocante

É preciso de muito cuidado e cautela ao abordar assuntos que possam ser gatilho para o público, principalmente adolescente, no audiovisual. Ultimamente, temos vistos diversas produções que tentaram iniciar conversas sobre alguns desses assuntos, mas falharam tentando apenas chocar, ao invés de seguir as recomendações de especialistas que alertaram que o conteúdo não era adequado a ser mostrado para o público alvo da produção – sim, é de você mesma que estamos falando 13 Reasons Why. O que está sendo mostrado em um produto audiovisual, apesar de ser com uma boa intenção, não pode passar uma imagem contrária, e, ao invés de alertar, acabar prejudicando o espectador, ocasionando em gatilhos fortes e até mesmo traumas.  

Euphoria, nova série da HBO estrelada por Zendaya, colecionava polêmicas antes mesmo de ir ao ar. Diversas opiniões receosas foram aparecendo devido a forma como a série poderia abordar alguns assuntos, e até mesmo foi dita como uma nova versão de Skins, série adolescente britânica que também gerou muitas discussões no final da década passada. Mas, apesar dos temas entre as duas serem semelhantes, elas se diferem, praticamente, em todos os outros sentidos, sendo a série da HBO uma aula de como se fazer um seriado sobre adolescentes, sem ser direcionada a eles especificamente. 

Sexo, drogas, sexualidade, violência, pornografia, relacionamento abusivo e aborto são alguns dos principais assuntos que fazem de Euphoria uma das séries mais cruas, complexas e atuais sobre a adolescência em exibição. Ela reconhece a seriedade do terreno que está adentrando, e se preocupa constantemente em contar a história de forma que alerte o espectador, e não o prejudique. Um exemplo disso é quando a Rue, personagem de Zendaya, fala explicitamente sobre os métodos que já utilizou para conseguir se safar dos testes de drogas. A forma como ela conta procura sempre mostrar o lado negativo e as consequências dos seus atos. Nunca a série mostra algo dessa forma que não seja para alertar e mostrar como tudo aquilo pode se tornar algo extremamente negativo e prejudicial a vida da pessoa.  

Por ser uma produção da HBO, a nudez está presente em grande quantidade, mas aqui ela não é mostrada de forma gratuita, e sim com um contexto inserido. Antes mesmo da série estrear, foi noticiado que uma cena conteria aproximadamente 30 pênis expostos. A partir disso, um burburinho se formou na internet, o qual a própria série previu e gostaria de causar, de forma que iniciasse a discussão do porquê a nudez feminina é tratada com tanta normalidade, e a masculina ainda é dada como tabu. Logo no primeiro episódio, por exemplo, é exposto uma prótese de pênis ereto do personagem de Eric Dane, mas que não é colocada de forma que seja o foco da cena. Muito pelo contrário, a direção quer que o espectador foque na reação de Jules (Hunter Schafer)ao estar naquela situação. Mas, infelizmente, o resultado foi o oposto, provando mais uma vez o ponto que a série gostaria de discutir.  

Euphoria – HBO

Direção 

A direção é algo que merece ser destacado. O jogo de câmeras é inventivo, sempre criando novas formas de mostrar situações comuns, deixando a experiência sufocante em alguns momentos, principalmente durante os devaneios e viagens que as drogas proporcionam à Rue. A câmera e, principalmente, a fotografia e as cores acompanham os personagens, criando montagens espetaculares para tentar mostrar ao espectador a euforia de seus sentimentos sem precisar verbalizá-los.   

O trabalho de maquiagem também possui muito a dizer sobre a personalidade de cada um dos adolescentes. Por exemplo, a chegada de Jules na cidade é marcada por maquiagens vivas e coloridas e, conforme o tempo vai passando e os conflitos vão aparecendo, a maquiagem vai mudando para algo mais confuso, perdido e bagunçado. O mesmo pode ser dito de Rue, que passa a maior parte do tempo sem maquiagem alguma no rosto, mas quando está junto de Jules, seus olhos ganham sombras de glitter, iguais aos da amiga. O relacionamento das personagens é muito bem exemplificado pela maquiagem e edição.

Personagens e roteiro 

Apesar de Euphoria conseguir se destacar com uma direção completamente alucinógena, vibrante e criativa, o que faz a série ser o que é são os personagens e o roteiro. Sem eles, tudo seria em vão. Os personagens são o ponto forte da narrativa, encabeçada pela presença e narração de Rue, que mostra o seu ponto de vista – às vezes não confiável – de todos os acontecimentos, contando desde a infância de cada um dos colegas, até o momento catártico em que estão vivendo.  

Euphoria – HBO

Todos os episódios iniciam com Rue nos contando um pouco de algum dos personagens, o que ajuda consideravelmente no desenvolvimento deles e a entendermos melhor o que os fizeram ser o que são atualmente. Isso traz uma relevante discussão sobre como o que vivemos na infância consegue moldar nossa personalidade futura. A infância é a causa principal dos personagens se tornarem o que são, deixando claro que nenhum deles é perfeito e isento de problemas. 

Rue é o fio condutor da narrativa, mas apesar de ser a personagem central e narrar toda a história, nem tudo gira em torno dela. Ela é viciada em drogas, sofreu uma overdose, e mesmo depois de sair da clínica de reabilitação, ainda continua lutando contra o vício, e é possível acompanhá-la errando e acertando, ao mesmo tempo que adentramos em sua cabeça em momentos de loucura e imaginação. 

Zendaya é uma das principais surpresas da série, conseguindo entregar uma atuação crua e sincera para uma personagem bastante complexa. Esse é o primeiro papel em que ela teve a oportunidade de mostrar seus verdadeiros talentos e, mesmo ainda sendo cedo para apostar, se houvesse uma indicação a ela no Emmy 2020 não seria injusto.  

As personagens femininas são as que ganham o melhor desenvolvimento. Além de Rue e Jules, há um grande foco em Kat – interpretada pela brasileira Barbie Ferreira – Maddy (Alexa Demie) e Cassie (Sydney Sweeney). A série acerta em cheio ao abordar a amizade delas sem rivalidade alguma, o que é raro de se encontrar em programas voltados ao público adolescente. Não há rixas aqui, todas estão ali para ajudar uma a outra, o que é exemplificado perfeitamente pela cena do baile no último episódio.  

Euphoria – HBO

É válido ressaltar a personagem de Barbiepois ela foge completamente dos estereótipos e o que se espera dela. Kat se esconde atrás de uma autoestima gigantesca que conquistou a partir do momento que viu que poderia usar seu corpo para se proteger das suas inseguranças. Por ser gorda, Kat acredita muito pouco em si mesma, e acha que não vai conseguir receber o amor que merece. A partir do momento em que muda seu visual e até mesmo sua personalidade, ela passa a se empoderar mais, entregando uma das frases mais marcantes da série “Não há nada mais poderoso do que uma garota gorda que está pouco se fod****”. 

Hunter Schaferque interpreta Jules, é mais uma incrível descoberta que Euphoria proporcionou. É o primeiro papel da atriz de apenas 20 anos, que passou pela transição de sexo na adolescência, e hoje em dia, além de seguir com a carreira de modelose posiciona e luta a favor de causas LGBTQ+. Jules encaixou perfeitamente com a personalidade da atriz, que trouxe muito de sua vida pessoal para a construção da personagem. Seu relacionamento com Rue, apesar de inconstante e um pouco problemático se for analisado romanticamente, é uma das partes mais fascinantes da série. A sequência em que as duas se beijam pela primeira vez mostrada em paralelo com vários momentos vividos por elas é de tirar o fôlego. 

Indo para os personagens masculinos, Nate (Jacob Elordi) é o principal ponto de destaque da trama. Extremamente detestável e ao mesmo tempo intrigante, ele faz com que a narrativa ande com sua personalidade explosiva e controladora, ao mesmo tempo que vamos conhecendo um pouco mais sobre os motivos que o fizeram ser do jeito que é. Elordi, que estrelou o original Netflix A Barraca do Beijosurpreende aqui, e deixa de lado qualquer dúvida que o filme possa ter deixado em relação ao seu talento. Sua atuação é assustadora e de arrepiar, e consegue se destacar ainda mais no último episódio durante a cena entre ele e seu pai. 

Euphoria – HBO

Euphoria não tem medo de confundir o espectador, e entrega uma finale com várias pontas em aberto, o que, em certas partes, consegue segurar a atenção do público, mas ao mesmo tempo causa uma certa frustração por várias tramas desenvolvidas ao longo da temporada não terem tido um ponto final. O último episódio é explosivo e metafórico, e encerra com uma sequência musical impressionante, que prova mais uma vez o talento de Zendaya. 

Essa não é uma série para adolescentes. O universo retratado aqui pode não ser a realidade de muitos, mas é algo que deve ser alertado, principalmente, aos adultos. É uma produção corajosa e arriscada, mas que acerta em cheio em tudo que se propõe a fazer. Euphoria se torna mais uma cartada certeira da HBO, que adentra pela primeira vez nas séries adolescentes da melhor maneira possível.  

EUPHORIA – 1ª TEMPORADA
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RESUMO:

Polêmica antes mesmo de ir ao ar, Euphoria, nova série da HBO, é uma excelente surpresa e uma aula de como abordar assuntos delicados com responsabilidade, e ao mesmo tempo, sem perder o peso que cada um possui.

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.