Análise | ‘It: A Coisa’: Pennywise e a angústia onipresente

Em uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos, eventos macabros passam a ocorrer misteriosamente. Logo no início da história,It – A Coisa (2017) já mostra a que veio. Um inocente garotinho perde o seu barco de papel na chuva e corre atrás dele até o bueiro da rua. Entretanto o barco não foi tragado pela corredeira, um palhaço, aparentemente amistoso, o segura. Rapidamente se apresenta como Pennywise (Bill Skarsgaard), conversa com ele e assim ganha a atenção do garoto.

Quando o menino diz que precisar ir pra casa, o estranho palhaço o lembra de pegar o barco. Ao colocar a mão dentro do bueiro o Pennywise lhe agarra e arranca o seu braço, em seguida o arrasta para dentro do esgoto, revelando assim o jogo perverso e abusando da ingenuidade da vítima. Curiosamente, a cena inicial do filme talvez seja a mais chocante e violenta. Provavelmente com o intuito criar o clima de suspense e tensão desde o começo da narrativa.

Depois de 8 meses do brutal assassinato, o foco do filme passa a ser cotidiano de um grupo de 7 garotos. Propositalmente os jovens representam grupos minoritários da sociedade. Há um judeu, um gordo, um negro, um menino de óculos, entre outros. Consequentemente, sofrem bullyng pelos garotos mais fortes e mais velhos; todos são rechaçados como o clube dos perdedores. No decorrer da história Pennywise retorna e amedronta os garotos com uma série de sustos e assombrações bizarras. Nesse momento, o palhaço fantasmagórico, capaz de surgir em qualquer lugar milagrosamente e adquirir qualquer formato, apesar de sequestrar algumas crianças, preocupa-se mais em pregar peças nesse grupo.

Um dia o bando dos garotos discriminados conversam a respeito da onda de desaparecimentos envolvendo crianças e adultos. Um deles afirma que a cidade é recordista em desaparecimentos e desde a sua fundação, eventos inexplicáveis têm ocorrido. Após investigarem o passado macabro da cidade, percebem que os sequestros acontecem em um ciclo de 27 anos. Nas gravuras é possível notar o palhaço diabólico há séculos, como se ele fosse um espírito que amaldiçoasse a cidade desde a sua fundação.

It: A Coisa (2017)

Conforme o grupo descobre as informações sobre Pennywise, mas ele tende a persegui-los, um a um, e reproduz o maior medo de cada um, quanto mais apavorados ficam mais poderoso ele se torna. Apesar de a entidade maléfica criar ilusões terroríficas, ele é capaz de machucar e matar. Na busca de encontrar o paradeiro das vítimas sequestradas, encontram o poço onde ele se refugia. Muitas vezes pensaram em desistir da caçada, devido a série de incidentes ocorridos, entretanto sabem que enquanto não o enfrentarem ele voltará repetidamente.

Quando o grupo está todo reunido, o palhaço se intimida apesar de perturbá-los e causar alguns arranhões, ele perde grande parte de sua força, pois tende a agir diante do medo paralisante. Por fim, depois de muitos duelos e armadilhas, o clube dos perdedores o enfrenta uma última vez, dentro da toca dele. Dessa vez todos o encaram com pedaços de pau e de ferro e o malham como Judas! O palhaço estremece, prova do próprio veneno e some. Graças a união e a coragem venceram o representante máximo do terror.

O INOMINÁVEL

A partir da psicanálise, pode-se pensar que Pennywise é uma metáfora para a angústia, condição humana existente desde o nascimento. Para Freud, desde o começo da vida, nos deparamos com o sofrimento do desamparo, da desorganização mental, produzindo assim a angústia. Com o desenvolvimento, adquirimos mecanismos para nos defender do horror desse sentimento que não possui um nome específico ou uma causa clara, pois é inerente a existência. A partir do meio social e principalmente pela entrada na linguagem, o aparelho psíquico recebe um contorno, contendo assim parte da angústia.

Mesmo na vida adulta, nos deparamos inúmeras vezes com ela. Uma forma muito comum utilizada desde a infância para dar borda para angústia é a fobia, pois a partir dessa defesa é possível canalizar o medo para apenas um objeto específico.

It: A Coisa (2017)

Em muitas cenas do filme, o palhaço-fantasma se transforma no objeto mais temido dos garotos. Ao assustar um deles, se torna uma imagem de um quadro, para outro surge como um corpo sem cabeça, em outra situação como um zumbi. É interessante notar que para cada um, ele se transforma em algo diferente, pois a fobia justamente tem uma relação intrínseca com a história de vida de cada sujeito e com a sua fantasia inconsciente. Já a angústia não, é inominável, assim como o palhaço na sua forma pura. Não é à toa que no título do filme se referem a ele como a coisa.

Assim como Pennywise, a angústia é atemporal e onipresente, todas as pessoas se deparam com ela de diversas maneiras. Diante dela, nos fragilizamos e nos deixamos tragar pelo bueiro do desespero assim como o menino que perdeu o barquinho de papel na chuva. Dois transtornos comuns representantes da angústia seriam o transtorno de ansiedade e o do pânico. Eles se diferem no que se refere ao grau, e, no pânico, há a sensação de morte iminente.

É importante destacar o cuidado da direção de arte e fotografia em criar um clima de suspense e tensão para a pacata cidade interiorana fictícia. Derry é retratado como um lugar decadente, sujo, perigoso e com casas abandonados. Apesar do filme ocorrer na grande maior parte do tempo no verão, o telespectador não contempla o frescor ou a atmosfera agradável de uma cidade interiorana. Pelo contrário, ainda que haja algumas piadas para dosar o tom angustiante, na maior parte da história, prevalece a sensação de que algo terrível e surpreendente ocorrerá. Por se tratar de uma cidade pequena e insegura, há a constante expectativa em ser encurralado pela coisa.

It – A Coisa (2017) faz jus ao sucesso obtido na bilheteria assim como a aprovação da crítica especializada, em muitos aspectos se mostra superior a antiga versão dos anos 90. Apesar de ser um remake, se mostrou um filme necessário e com uma adaptação melhorada. O próprio Stephen King, autor do livro, elogiou bastante a nova versão cinematográfica. Os efeitos especiais foram feitos com muito cuidado e precisão, sem ter uma conotação artificial e forçada.

It: A Coisa – Capítulo 2 (2019)

O diretor (Andrés Muschietti) foi bastante eficiente, permitindo que o ótimo grupo de atores juvenis pudessem improvisar em boa parte das cenas, contribuindo assim para um realismo ainda mais apurado. A atuação de Bill Skarsgaard foi um fator decisivo para êxito do filme também.

No próximo mês a segunda parte estreará no cinemas brasileiros. Provavelmente o palhaço em forma de angústia e fobia deve retornar ainda mais aterrorizante, apesar dos garotos terem amadurecido e se tornado adultos. Afinal a angústia nunca morre, tende a voltar e ser constantemente polimórfica.

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Dante Carelli Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.