Crítica | Areia Movediça: série sueca da Netflix faz bonito ao abordar temas contemporâneos complexos

Abordando temas polêmicos complexos, Areia Movediça chegou na Netflix quase que imperceptivelmente para mostrar que as produções europeias estão fazendo bonito em expandir nossa limitada cultura americana.

Antes de mais nada, é preciso deixar claro um ponto: o seriado sueco dá uma aula de como fazer suspense e nos brinda com um roteiro mais do que aguçado, mas brilhante mesmo, tanto pelo seu paradoxal dinamismo lento, como pela sutileza da narrativa.

Dito isso, não é possível continuar sem antes fazer um mergulho rápido no enredo, cujo epicentro é o relacionamento tóxico entre Maja (Hanna Ardéhn) e Sebastian (Felix Sandman). Tudo começa quando os dois adolescentes entram armados em sua sala de aula e, ao que tudo leva a entender, assassinam um professor e seus colegas de classe.

Toda a atenção, então, se volta para Maja, a única sobrevivente desse episódio terrível. É aí que a narrativa se divide em duas linhas, alternando-se entre o passado – mostrando o que se passou desde o começo de seu namoro com Sebastian -; e o presente – quando acompanhamos o processo de acusação e julgamento da garota.

Esse vai e vem na linha temporal é um método conhecido que já foi utilizado em várias outras produções, como 13 Reasons Why, mas que, em Areia Movediça, funciona de forma a nos manter vidrados na tela da TV. E nisso fomos ajudados sobremaneira pela atriz principal.

O processo de construção da protagonista, Maya, foi desempenhado com maestria por Ardéhn, que nos guia pela mudança gradual no estado psicológico e comportamental da personagem durante a história com extrema competência. E o mais interessante é que, em nenhum momento, a série tentou vitimizar ou comover alguém.

Areia Movediça não se utiliza de temas tão importantes como chacina em sala de aula, drogas e estupro como mera forma de sensibilização. Na verdade, o que seriado quer mostrar é que ninguém é totalmente vítima, nem totalmente culpado. Todos somos um ou outro em determinado momento.

Sebastian era um milionário que não correspondia às expectativas do pai, um homem tosco que o espancava e jamais perdia a oportunidade de jogar em sua cara o sucesso do irmão Lucas, estudante de Harvard, enquanto ele próprio, era um fracasso que nunca realizava nada. Com personalidade fraca, a solução que encontrou foi se refugiar no conforto das festas regadas a álcool e drogas. Vítima? Sim. Monstro? Também! Será que seu sofrimento justifica uma chacina na escola?

Já Maya jamais conseguiu se livrar da responsabilidade auto imposta de cuidar do cara por quem havia se apaixonado, mesmo quando a paixão passou, mesmo quando ela a levou pelo caminho das drogas, mesmo quando ele abusou dela e a estuprou. Sua escolha foi ir se rebaixando junto com ele. Culpada? Sim. Se ela mesma se afundou numa vida alucinada, como poderia ajudá-lo?

Tudo isso se desenrola num roteiro genial que, muito antes de dourar a pílula, apelando para o emocional e para o romantismo, equilibra os dois lados da situação absurda que, mais do que enredo de seriado, é uma triste realidade.

Que tribunal pode julgar isso?

AREIA MOVEDIÇA - 1ª TEMPORADA
4.5

RESUMO:

Em Areia Movediça, quando Maja é encontrada coberta de sangue pela polícia após um tiroteio numa sala de aula, o mundo a culpa pela chacina. Mas será que ela é realmente culpada?

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Flávia Leão

Cinéfila mineira que ama os filmes desde quando os clássicos da Disney ainda eram em VHS e os seriados desde que Jeffrey Lieber e J.J. Abrams inventaram Lost.