Análise | Uma sequência azarada de infortúnios em ‘O Apartamento’

Análise do filme O Apartamento. Contem spoilers.

Um dia, o prédio em que Emad (Shahab Hosseini) e Rana (Taraneh Alidoosti) moram começou a rachar e quase desabou devido a uma construção próxima. Diante do imprevisto, se mudaram temporariamente para um apartamento emprestado. Passados alguns dias, Rana estava sozinha em casa e é surpreendida por um invasor. Emad volta do trabalho e nas escadas observa marcas de sangue no chão que vão até o banheiro de sua casa. Rana não estava em casa, foi levada às pressas para o hospital.

Ao chegar lá, Emad encontra a esposa no quarto com os dois vizinhos que a socorreram. Segundo eles, escutaram os gritos dela e uma correria nas escadas, viram um homem correndo com o pé sangrando, mas não conseguiram identificá-lo. Enquanto Rana estava desmaiada no banheiro com um corte na cabeça. Um outro vizinho disse a Emad que antes de se mudarem para lá, uma prostituta morava no apartamento e que talvez o invasor fosse um cliente dela e não sabia que a moça já não estava mais lá.

Rana se recuperou bem, seu ferimento foi devidamente cicatrizado, entretanto, o trauma do incidente permaneceu. O casal de protagonistas atuam juntos em uma peça de teatro, A morte do cacheiro viajante, de Arthur Milller. Após a invasão no apartamento, Rana foi profundamente afetada, algumas vezes não conseguiu se apresentar e abandonou a peça no meio, pois não se concentrou. No decorrer do filme, Emad se preocupa, sente a nítida mudança de comportamento da esposa. Aos poucos ele se descontrola, seja pelo abalo psicológico de Rana, como também pelo mistério do incidente. Em nenhum momento ela lhe contou o que aconteceu, contribuindo assim na construção das fantasias paranoicas do marido, além de sua busca maquiavélica na resolução desse enigma.

No palco, Emad, enquanto atuava com um outro ator, inventa parte de suas falas e o xinga desnecessariamente. Aparentemente, não havia nenhum motivo plausível para fazer isso, aproveitou a oportunidade da briga entre os personagens da peça para descarregar a sua raiva. Além de trabalhar como ator ele é também professor em uma escola para garotos. Em uma das aulas, passou um filme para eles e cochilou, os alunos não perdoaram e o ridicularizaram, um deles chegou a filmá-lo enquanto dormia. Após perceber a brincadeira, ele ferozmente arrancou o celular da mão do aluno e o expôs na frente de toda sala.

Emad compreende o quanto o infortúnio ocorrido com a sua esposa naquele dia afetou as suas vidas e decide ir atrás do invasor. Um dos vizinhos conseguiu anotar a placa da caminhonete no momento da fuga. Por meio dessa informação, pediu para um aluno, em que o pai trabalha no departamento de trânsito, identificar o endereço do veículo. Descobre então que a caminhonete pertence a o dono de uma padaria, apesar do veículo ser dele, outros homens o utilizam para fazer entregas. Rapidamente desconfiou de um dos rapazes e Emad propõe para que ele realize uma mudança em seu apartamento com a intenção de armar uma arapuca.

No dia da falsa mudança, aparece um outro homem, um senhor de idade, ele disse que o outro rapaz é seu genro e estava indisponível, portanto ele veio em seu lugar. Emad estava crente na ideia de que o rapaz era o invasor e o acusou para o senhor. Depois pediu para ele ligar para o genro para que ele viesse ao apartamento e assim pudessem acertar as contas.

O senhor teve uma atitude de esquiva em um primeiro momento, o protagonista desconfiou dele, pois também não tinha o número do celular do genro. O velho começou a agir de uma maneira ansiosa e queria ir embora. Emad então o fez tirar o sapato, como uma espécie de inversão do conto de Cinderela. Então a dura revelação surgiu, ele estava com o pé enfaixado cobrindo um ferimento e admitiu ter entrado no apartamento naquele dia.

Segundo o senhor, ele se comunicava com a prostituta até que um dia ela deixou de responder as suas mensagens e ele decidiu ir até ela. Quando chegou no apartamento tocou o interfone, Hana sem perguntar quem era, abriu a porta esperando que fosse o marido. O senhor pensou que a prostituta estava no chuveiro, ao escutar os gritos de Hana, correu e machucou o pé. Emad não acredita nessa versão, acha que ele poderia ter abusado de sua esposa. O protagonista descontrolado manda o invasor ligar para a sua esposa e quer que ele conte tudo para ela, inclusive o envolvimento com a prostituta.

Ao ameaçar envolver a sua família na história, os dois brigam e Emad o empurra para dentro de um quarto e o tranca lá. Ele deixou o senhor trancado a tarde toda, quando retornou com Hana, Emad colocou os dois frente a frente. Hana se compadeceu do invasor e ameaçou se separar de Emad caso ele contasse o incidente para a família dele. Enquanto sua família ainda estava a caminho, o senhor passou mal, o casal ficou desesperado e buscou os seus remédios na caminhonete.

Antes dele ir embora com os seus parentes, Emad disse que tinha uma última conta para acertar e devolveu o dinheiro que o invasor havia deixado na gaveta para a prostituta e por fim deu um tapa na cara do senhor. Antes de descer a escada carregado pelo seu genro, passou mal novamente, ficou deitado em estado grave na escada aguardando a ambulância.

Tragédia do Não-Dito

O Apartamento (2016) é a história de uma confusão trágica da qual envolve uma série de mal-entendidos e não-ditos. Apesar de um certo descuido de Hana ao abrir a porta sem perguntar quem era, somado a um certo azar do destino, talvez a pior parte tenha sido a de não esclarecer a história ao marido. Afinal nem o telespectador sabia o que de fato se passou!

Ao chegar no apartamento e se deparar com o sangue e a ausência de sua esposa, Emad poderia ter fantasiado muitas situações, principalmente depois de tê-la encontrado no hospital com o corte na cabeça. Para ele, Hana poderia ter sido estuprada ou espancada. A forma como o incidente atravessou a relação do casal é clara, por mais que tentassem esquecer, permaneceram marcados. Hana se mostrou traumatizada e um tanto impotente para seguir em frente. Emad não deixou de lado a sua sede por vingança.

Ao descobrir a identidade do invasor, Emad não se contentou com a versão dada por ele da história e se excedeu, chegando ao ponto de mantê-lo em cárcere privado. Um aspecto interessante do filme é o de observar Emad, que é um bom marido e uma boa pessoa, cometendo atos impulsivos e amorais em nome da honra e da decência, pois estava convicto da má intenção do senhor. No fundo Hana apenas se acidentou, se assustou com a invasão no apartamento e se cortou, mas não foi agredida.

Entretanto, o silêncio de Hana, ou seja, o não-dito do incidente, contribuiu para Emad fantasiar com uma história de uma suposta tentativa de abuso. Somada a uma certa mentalidade machista em ter que defender a sua esposa a toda custo e lavar a sua honra, Emad talvez estivesse mais focado em se vingar de alguma forma do que compreender a situação com mais frieza. Ao expor o senhor em uma situação vexatória diante de sua família, apesar de não ter revelado a confusão para eles, o invasor desabou, talvez tanto pela vergonha em ter seu caso com a prostituta exposto, além da devolução do dinheiro e do tapa na cara; como pelo sentimento de culpa em ter ocasionado acidentalmente o mal-entendido.

O Apartamento, dirigido por Asghar Farhadi, possui uma trama complexa fugindo dos estereótipo e desafiando as questões éticas. Em seus personagens não há traços maniqueístas, cada um tem a sua responsabilidade na história ao mesmo tempo em que são vítimas de um terrível mal-entendido. O filme é contado principalmente do ponto de vista de Emad o que facilita uma certa empatia do telespectador com a sua causa, mas aos poucos suas errâncias são reveladas, flertando com uma posição de anti-herói.

A grande maioria das cenas são filmadas em plano americano (com a câmera direcionada da cintura pra cima dos personagens), talvez com a intenção de criar uma maior proximidade do telespectador com os personagens. O filme faz jus as suas premiações internacionais, seja pela palma de ouro em Cannes como o Oscar de melhor filme estrangeiro.

Apesar de ter um ritmo um tanto lento na sua primeira metade, o que talvez ocorra para aprofundar a relação do casal e o seu cotidiano, principalmente depois da invasão no apartamento. Entretanto nos derradeiros 40 minutos há uma virada fundamental, a partir do instante em que o senhor sobe ao imóvel, para talvez não sair de lá vivo. Enfim, de uma maneira dramática e bem construída, O Apartamento  mostra as graves consequências da falta de diálogo, das palavras não ditas e mal ditas.

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Dante Carelli Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.