Ancine aprova filme sobre eleição de Bolsonaro a captar R$ 530 mil para produção

A Ancine, Agência Nacional do Cinema, autorizou a captação de R$ 530 mil para a realização do documentário Nem Tudo Se Desfaz, de Josias Teófilo (é isso mesmo daí!). O longa apresentará a história do movimento conservador que foi crescendo no Brasil desde os protestos de junho de 2013 até a vitória do Presidente Jair Bolsonaro nas eleições do ano passado. O projeto poderá captar o valor através da Lei do Audiovisual.

Eleitores de Bolsonaro e membros de sua base política estão tratando o longa como uma resposta ao filme Democracia em Vertigem, de Petra Costa, que estreou recentemente pela Netflix.

Em comunicado, a Ancine registrou: “Vale lembrar que essa aprovação não significa que a Ancine está aportando recursos no projeto. Ela representa somente um reconhecimento de que ele reúne as condições para buscar recursos junto a empresas e instituições no mercado.”

O cartaz foi divulgado pelo filho do Presidente, o deputado federal por São Paulo Eduardo Bolsonaro. Ele, no momento, está concorrendo a vaga de embaixador do Brasil nos EUA, porque sabe falar inglês e já fritou hambúrguer numa lanchonete (que não vendia hambúrguer) de lá. Veja abaixo:

Josias Teófilo dirigiu o documentário Jardim das Aflições, que conta a história da vida do suposto filósofo Olavo de Carvalho. O cineasta também se manifestou nas redes sociais, escrevendo: “O meu filme, Nem tudo se desfaz, não é sobre Bolsonaro, mas sobre as causas da eleição de Bolsonaro, que, na narrativa do filme, remontam a 2013. E nunca ouvi falar que a Lei do Audiovisual seja exclusiva para esquerdistas.”

O filme ganhou destaque depois que o Presidente manifestou sua indignação em relação à Ancine por causa de relatos de projetos aprovados, considerados por ele como absurdos.

Numa reunião com o Ministro da Cidadania, Osmar Terra, Bolsonaro decidiu transferir a agência do Rio de Janeiro para Brasília e deixou claro que deseja ter mais influência sobre ela. Além disso, foi assinado um decreto que transfere o Conselho Superior do Cinema, do Ministério da Cidadania para a Casa Civil, chefiada por Onyx Lorenzoni (você deve se lembrar dele do episódio da tatuagem sobre Caixa 2).

Jair, após a reunião, disse: “Não somos contra essa ou aquela opção, mas o ativismo não podemos permitir em respeito às famílias. É uma coisa que mudou com a chegada do governo.” Ele ainda criticou a produção Bruna Surfistinha, dirigida por Marcus Baldini. “O Brasil não pode mais financiar com dinheiro público filmes como o da Bruna Surfistinha, produção de 2011 que narra a história de uma garota de programa.”, disse o Presidente indignado com um filme (e não com o alto índice de desemprego no país, por exemplo), ao qual, ele mesmo afirmou em seguida, não ter assistido. Além disso, ele também afirmou: “se não puder ter filtro, nós extinguiremos a Ancine” (censura?).

O longa conta a história da vida da ex-garota de programa Raquel Pacheco. Em entrevista à Folha de São Paulo, a atriz Deborah Secco disse: “Fico um pouco chocada com o ‘Bruna’ ter sido colocado nesse lugar, porque o filme retrata uma história real não só da Raquel, mas de outras milhares de mulheres que se encontram nessa situação. (…) Queria muito que nenhuma mulher estivesse nessa situação, que tivesse que se vender para sobreviver, mas essa não é a realidade do nosso país. A gente precisa falar sobre isso.”

Raquel Pacheco, cuja história inspirou o filme, criticou Bolsonaro. Veja abaixo:

O cineasta Kleber Mendonça Filho, diretor de Aquarius e Bacurau – que estreia no dia 29 de agosto – também se posicionou em defesa do longa, relembrando os importantes dados, como empregos diretos e indiretos e renda, que o projeto trouxe na época. Veja abaixo:

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Numa Democracia, qualquer tipo de filme pode ser feito.

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Ao ficar sabendo sobre a liberação dos 530 mil reais para o documentário, Jair Bolsonaro se manifestou no Twitter (como já é de costume). Veja a seguir:

Parece que o Presidente achou essa ideia incoerente. Mas foi só essa ideia mesmo. Os outros absurdos ele curtiu.

A Ancine é uma agência reguladora, criada em 2001, e tem como atribuições o fomento, a regulação e a fiscalização do mercado do cinema e do audiovisual no Brasil. Ela está ligada diretamente ao Ministério da Cidadania. Sua missão é desenvolver e regular o setor audiovisual brasileiro.

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Paulo Victor Costa

Depois que descobriu "The Truman Show" e "Lost", passou a viver de filmes e séries. Também é muito fã dos filmes do Spielberg. Tenta assistir de tudo para poder debater com outras pessoas.