Crítica | ‘The Boys’: Sátira violenta de super-heróis acerta em cheio na 1ª temporada

Embora sejam uma realidade consolidada, filmes e séries de super-heróis ainda são tratados como um subgênero da ação, mesmo já sendo parte intrínseca da cultura pop, e por consequência, do cinema. Porém, poucas produções audiovisuais tem a aspiração de subverter a premissa heroica nesse formato. The Boys, que estreia dia 26 no Amazon Prime Video, apresenta uma sátira divertida e proporcionalmente sangrenta, que de forma jocosa e ao mesmo tempo sombria, acerta em cheio na sua primeira temporada.

Renovada para uma segunda temporada durante a Comic-Con em San Diego, a série baseada nas HQs de Garth Ennis (autor de Preacher e que desteta super-heróis) e Darick Robertson, mostra um cômico e irreverente olhar sobre a o que acontece quando super-heróis – que são populares como celebridades, tão influentes quanto políticos e adorados como deuses – abusam de seus poderes ao invés de usá-los para o bem. Uma jornada dos sem-poder contra os poderosos se inicia quando The Boys se comprometem a expor a verdade sobre The Seven e Vought – o conglomerado multibilionário que administra estes heróis e encobre todos seus segredos.

A sinopse acima já é suficiente engajante por si só. Imagine um mundo onde os super-heróis fazem parte da cultura de um país, mas de forma real. Isso quer dizer que os poderes, que teoricamente seriam utilizados em nome da nobreza e heroísmo (e que eles cinicamente atribuem a Deus em uma alfinetada aos cristãos estadunidenses), também se tornam parte da satisfação de desejos e anseios pessoais. Por trás de figuras heroicas, existem essas pessoas, de um modo geral, retratados como babacas corrompidos, cheios de arrogância e cinismo. Assim como no mundo em que vivemos, onde posições de poder são corruptíveis, o que aconteceria se isso se desse através de poderes extremamente ameaçadores?

Há, no entanto, um parentese a ser feito. Não é uma exclusividade em trazer para o mundo real esse tom fantástico que os heróis podem conferir. Obras como Hancock, Watchmen  – que também vai virar série este ano na HBO, Kick-Ass e em última instância a visão de Zack Snyder sobre o seu Homem de Aço e o Batman, também tentaram chegar ao equilíbrio entre o que seria um mundo com humanos superpoderosos, cada qual ao seu jeito.

The Boys (2019) – Amazon Prime Video

Porém, a característica peculiar de The Boys, tanto temática quanto explicitamente gráfica (muito gore e sangue são vistos na tela) abre espaço para uma série de questionamentos. Não apenas no que diz respeito a questionar o papel de um herói, mas, de fato, se eles sequer podem ser tratados como tal, uma vez que vemos produtos sendo explorados ao máximo por corporações. Para o grande público, são ídolos, figuras pré-fabricadas e moldadas aos olhos de uma nação que, tal qual a nossa realidade, consome a aparência que está na frente.

A série também apresenta uma crítica declaradamente ácida ao mundo do entretenimento e como a manipulação da informação pode ser capaz de influenciar pessoas; no nosso mundo, não é fácil observar artistas e pessoas que são amados ou criticados pelo que demonstram ser, e não necessariamente pelo que são? Sem falar nas consequências desmedidas dos atos dos Sete, que algumas obras já trataram, sim, mas sem a mesma volúpia, e digamos, consequências sangrentas.

Na primeira temporada, há um direcionamento claro do showrunner Eric Kripke (Supernatural) e da equipe de produtores que incluem Seth Rogen e os próprios criadores da HQ. Mostrar o heroísmo como um produto de marketing e vilanizar os ditos heróis faz parte do processo, mas, seria um caminho unidimensional tratar apenas esses personagens dessa forma. Há um pouco humanização aqui,mesmo que não em sua totalidade – alguns personagens se desenvolvem de forma rasa. Porém, podemos perceber que mesmo com o poder e fama, problemas psicológicos e traumas não deixam de existir.

The Boys (2019) – Amazon Prime Video

Sem mocinhos, sem vilões, com muito cinismo

Os “Supers”, como são chamados os “The Seven”, não são as únicas pessoas a terem superpoderes, e ao longo da narrativa descobrimos isso através de novos personagens revelados, como um líder religioso e um ator que usa seu dom para se promover, fazer séries de TV e ganhar dinheiro. Porém, a concentração das ações dos poderosos se dá através do líder Homelander (Antony Starr, ótimo por sinal), uma mistura de Superman com Capitão América cristão. Uma figura heroica, patriótica e religiosa, um ícone da perfeição americana, que esconde atrás dessa aura uma psicopatia assustadora.

Completam a equipe Rainha Maeve (Dominique McElligott), uma espécie de Mulher-Maravilha; A-Train (Jessie T. Usher), o equivalente ao Flash, só que muito mais inescrupuloso (ele é o primeiro super que você vai odiar);  The Deep (Chace Crawford), com poderes semelhantes ao Aquaman, só que mais bobalhão e escroto; o misterioso Black Noir (Nathan Mitchell); e o invisível Translúcido (Alex Hassell).

Cada um desses super-humanos possuem uma característica em comum, embora tenham poderes e motivações distintas. Todos eles, com apenas uma exceção, sabem de sua condição superior, a partir da vulnerabilidade dos demais. Quem foge à regra é Starlight (Erin Moriarty), que participa de uma espécie de processo seletivo/reality show, e, uma vez dentro da equipe, descobre que aquele mundo é bem diferente do que imaginava. É o elo de ligação, também, entre a humanidade que já não existe nos superiores e os humanos comuns. Em última análise, seria a visão das pessoas sem poder ao descobrir as entranhas podres desse mundo.

The Boys (2019) – Amazon Prime Video

Porém, que rouba o show em diversos momentos é Elisabeth Shue, que na verdade, é quem move as peças do tabuleiro. Madelyn Stillwell, Vice-Presidente Senior de Gerenciamento dos Heróis da Vought, é o tipo de personagem calculista, cruel e que também mantem bem as aparências e o controle da situação.

Da mesma forma, há um espelhamento comportamental entre os grupos antagônicos da série. Entre os “The Boys” está Hughie (Jack Quaid), primeiro personagem dito “normal” que conhecemos, afetado de forma brutal por um ato desmedido do velocista A-Train. Um momento INCRÍVEL, diga-se. Ele e seu pai (Simon Pegg, convidado especial) são os vulneráveis menos terríveis por assim dizer, embora Hughie vá se corrompendo aos poucos no processo. Isso porque, da mesma forma como os Sete são especialmente errôneos – e mesmo que isso possa justificar o combate dos mesmos – não há ninguém bonzinho no grupo dos The Boys.

Karl Urban entra totalmente no personagem e oferece uma das performances mais divertidas. Billy Butcher, ex-CIA, é uma figura que se apresenta como algo que obviamente não é. O que sabemos de fato e escancaradamente é que ele nutre uma raiva absurda pelos Sete, recorrendo ao uso da esperteza para combater seus ditos inimigos. Mas, o mais interessante é que seu ódio pelos ditos heróis, em especial Homelander, faz o personagem tomar atitudes tão questionáveis quando seu alvo.

The Boys (2019) – Amazon Prime Video

Nesse contexto de rivalidade, outras característica interessante da série são as interações entre o grupo que se opõe aos Sete. Mother’s Milk (Laz Alonso), Frenchie (Tomer Capon) e The Female (Karen Fukuhara, excelente aqui) e os já citados possuem boa química entre si, o que possibilita bons momentos quando a equipe precisa agir, sobretudo pelo fato de não possuírem poderes – pelo menos até um certo ponto – e terem que recorrer a planos mais cerebrais. O roteiro utiliza momentos tensos e engraçados para tal, como quando eles conseguem burlar a visão de raio-X de Homelander, ou quando um bebê com poderes é utilizado como arma numa cena bizarra e ao mesmo tempo sensacional.

Os elementos narrativos fazem com que The Boys funcione como sátira, mas também prendem a atenção com sua ação bem executada e os mistérios que envolvem os planos dos grupos apresentados. Em outras palavras, é uma série provocativa e que toca em vários assuntos pertinentes de forma debochada, mas sem se esquecer que é, de fato, um entretenimento. Há, obviamente, um certo exagero em muitos momentos, até por conta da construção desse universo. Mas, uma vez que está estabelecido, isso não se torna mais um problema.

A narrativa é construída através de oito episódios, todos eles bastante engajantes, seja pela agilidade do roteiro, que mescla diálogos divertidos e espertos com ação bem filmada e humor, ou pela boa produção, que ao mostrar poderes e heróis em ação, não decepciona nos efeitos especiais. Felizmente, o CGI da da série é bom o suficiente para convencer e agradar. Junte a isso uma trilha sonora que mira na cultura pop e cria identificação imediata com o público e temos um produto audiovisual que acerta em seu debute, dentro da sua proposta.

The Boys (2019) – Amazon Prime Video

Em última análise, The Boys não se encaixa exatamente dentro da farta demanda que existe hoje, com séries e filmes de heróis sendo oferecidas aos montes. Mas, para quem possui um gosto pela disrupção das convenções de gênero, a série pode agradar não apenas por este fato, mas pelo simples fato de cumprir sua missão: mostrar como seria um mundo em que seres super poderosos usam isso para o seu benefício e como seria possível combater essa ambição, explorada midiaticamente. Tudo isso com sarcasmo, alfinetadas e humor sombrio.

Abrindo caminho para um futuro promissor, The Boys é, hoje, uma das melhores ofertas no catálogo do Amazon Prime Video. Se conseguirá manter a pegada daqui para frente, só as decisões criativas dirão. Mas, é bom que se diga: não é uma série para todos. Mas, quem decidir embarcar nessa, terá uma boa viagem, com o bônus de um frescor ante um saturado sem-número de histórias de heroísmo fofo.

THE BOYS - 1ª TEMPORADA
4.5

RESUMO:

Em sua primeira temporada, The Boys apresenta um universo em que super-heróis não são o que aparentam, em uma abordagem ácida, violenta e bem produzida.

The Boys (2019) – Amazon Prime Video

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...