Crítica | ‘O Rei Leão’ é nostálgico e um deleite aos olhos, mas falha ao tentar trazer a alma do original

É inegável dizer que a Disney vem tomando conta do cinema com a onda de live-actions de seus desenhos animados clássicos. A empresa encontrou uma mina de ouro trazendo versões atualizadas e realistas de seus maiores sucessos, tocando o público onde eles mais pareciam desejar serem tocados, na nostalgia. Isso, em partes, tem alguns pontos positivos, por exemplo, para a nova geração que ainda não teve contato com as animações originais, poderem começar a adentrar neste mundo com essas versões ultrarrealistas.

Mas, por outro lado, e deve-se dizer o mais preocupante, é que esses filmes conseguem deixar de lado a inovação no cinema, trazendo menos projetos originais, e mais remakes/live-actions, além de tirar a oportunidade das crianças de terem o primeiro contato com essas histórias com as versões animadas dos clássicos. 

Para se ter uma ideia, somente neste ano, a Disney trouxe 3 versões live-actions de seus filmes antigos: Dumbo, Aladdine agora O Rei Leão, considerada uma das, se não a maior animação de todos os tempos. Trabalhar com a história de Simba é como andar em um campo minado, pois pode-se tirar algo brilhante dali, mas como pode também se tornar um verdadeiro desastre.  

A nova versão de O Rei Leão não é o desastre que a imprensa americana apontava ser, mas ela sofre com a falta do que a animação de 1994 tinha de mais forte: alma e carisma. A intenção de Jon Favreaudiretor do filme, era clara: entregar uma versão ultrarrealista da história que impactou a infância de muitos, focando na nostalgia, e trazendo nomes de peso para a dublagem e trilha sonora. A receita de sucesso estava feita, independente se iria funcionar ou não. 

A história é a mesma, com direito até à alguns frames e diálogos iguais aos da animação, sendo um verdadeiro deleite para quem é fã e assistia a famosa fita cassete verde incansáveis vezes durante a infância. E é exatamente aí onde Favreau mais acerta. É impossível não se emocionar e se sentir nostálgico com a excelente abertura ao som de “Circle of Life”, por exemplo, e poder reviver vários momentos e músicas marcantes da animação em tela grande. Se o remake contasse com a história modificada, ou contada por um ponto de vista que não fosse o de Simba, o público não receberia bem. 

Mas, ao mesmo tempo em que o maior acerto do filme é a fidelidade com a obra original, onde ele mais erra é, devidamente, no modo em que decide representar e dar vida aos seus personagens. Já se foi muito discutido se este remake era realmente necessário já que ele também não passa de uma animação feita em computador. Afinal, por mais que os animais e os cenários sejam extremamente realistas, tudo ainda é computação gráfica. Representar a selva e o mundo animal dessa forma fez com que os personagens não conseguissem passar ao público as reações esperadas deles, tornando tudo realista até demais.  

Esse problema também consegue afetar diretamente nas cenas musicais, que aqui perdem o encanto, deixando de lado todo o colorido, vida e alma que possuíam na animação, para algo minimalista ao extremo. Números musicais incríveis como “O Que Eu Quero Mais É Ser Rei” e “Hakuna Matata” são reduzidos aos personagens somente correndo pela selva, sem nenhum carinho a mais dado pelo diretor.  

Porém, por mais que os números musicais tenham perdido a força, o mesmo não pode ser dito da trilha sonora cantada por grandes nomes como Beyoncé Donald GloverEles conseguem dar às músicas a força que as cenas em si não conseguiram. A voz de Beyoncé é um show à parte, e sua parceria com Glover em “Can You Feel The Love Tonight” é um dos grandes momentos do filme. Porém, o que funciona tão bem nessa cena, além do conjunto de vozes, é que os personagens não estão performando a música, ela apenas é inserida ao fundo enquanto é mostrado Simba e Nala se reencontrando e se reconectando novamente. Se eles estivessem cantando, e tivessem que demonstrar o sentimento que a letra deseja passar, não teria funcionado tão bem. 

Entretanto, não leve a mal, o filme é um espetáculo visual. Nunca havia se visto animais e paisagens tão impressionantes. Cada mísero detalhe dos bichos foi planejado, desde os pelos até os barulhos que cada um faz, fazendo com que pareça que estamos assistindo à algum documentário do Animal Planet. Essa comparação já foi feita diversas vezes, mas não há como fugir dela. Jon Favreau conseguiu entregar outro nível de CGI, o qual deve fazer futuras produções trabalharem muito pra chegarem no mesmo nível.  

É preciso ressaltar o trabalho de voz do elenco que consegue trazer de volta, em sua grande maioria, a mesma personalidade dos personagens da animação, com destaque para o Timão e Pumpa de Billy Eichner Seth RogenO único afetado é Scarinterpretado por Chiwetel Ejioforque perde o carisma e o tom irônico para dar espaço a algo muito mais sério e aterrorizante. Essa mudança de personalidade se encaixa no problema da decisão do diretor de deixar tudo extremamente realista, de forma que os trejeitos e as expressões debochadas do vilão não conseguem ser representadas em tela.  

Por fim, o “live-action” de O Rei Leão não é o desastre que poderia ser. Há muito o que aproveitar aqui, e é uma boa forma de apresentar a história para uma nova geração. Ele perde força ao deixar de lado a expressividade dos personagens, mas consegue se destacar no visual grandioso e impecável, além das vozes e canções contribuírem bastante para que a experiência não seja totalmente estranha e incômoda. O que faz essa história ser o que sempre foi está presente aqui. A lição de vida é a mesma. É apenas uma pena que não tenha sido possível representá-la da forma tão vivida e cheia de coração que a animação original.  

O REI LEÃO | THE LION KING (2019)
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RESUMO:

O live-action de O Rei Leão é um deleite visual. Seus personagens e paisagens extremamente realistas trazem algo extremamente inovador e impressionante ao cinema. Porém, devido a isso, a alma e energia que a história possuía na animação é deixada de lado.

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.