Crítica | Good Omens: 1ª temporada reúne humor, ironia e charme na medida exata

A peculiaridade da obra de Neil Gaiman é algo notável. Um dos autores mais aclamados da atualidade já teve uma de suas notáveis  criações adaptadas para a TV em American Gods, e agora, vê de perto como showrunner, sua cocriação ao lado de Terry Pratchett, Good Omens, ganhar vida no Amazon Prime Video.

A série estreou 30 anos após a primeira publicação da obra, lançada em 1990. No Brasil, ganhou fama com o nome “Belas Maldições”. O enredo é simples de entender. Conforme o fim do Mundo se aproxima, um Anjo espalhafatoso (Michael Sheen) e um Demônio de espírito livre (David Tennant), que se apegaram à vida na Terra, se veem forçados a formar uma dupla inesperada para impedir o Armageddon. Porém, eles perderam o Anticristo, um menino de 11 anos desavisado de que seu destino é concretizar a destruição do planeta, o que força a dupla a embarcar em uma jornada para encontrá-lo e salvar o mundo antes que seja tarde demais.

Conforme já fora dito, a trama não apresenta complexidade. Narrada por Frances McDormand (Três Anúncios para um Crime) no papel de Deus, a história catalisa todos os seus principais movimentos em torna da relação entre Aziraphale (Sheen) e Crowley (Tennant), e suas ações no mundo desde a queda da humanidade, com a expulsão de Adão e Eva do paraíso. Ao longo do tempo, estes personagens se mostram tão confortáveis com sua vida mundana que não querer perder o privilégio de viver. Mesmo que para isso, impedir a maior profecia da Bíblia, ou, o plano inefável.

A partir de uma narrativa cínica e jocosa, Gaiman apresenta, a improvável amizade entre anjo e demônio, que leva alguns milhares de anos para que eles compreendam a relação como ela verdadeiramente é. Inferno e Céu aparecem como organizações semelhantes à empresas, com níveis hierárquicos definidos e até mesmo serviços de espionagem e colaboração. O humor é uma bela forma de crítica não somente ao engessamento de tais conceitos, mas também do livre arbítrio. É uma abordagem interessante, que encontra nesta forma caricaturalmente exagerada (uma marca da série) e ao mesmo tempo charmosa (típico de produções britânicas), seu ponto de maior destaque.

Good Omens acerta em cheio na duração de seus episódios – são apenas seis. No entanto, a duração dos mesmos pode incomodar um pouco, a partir do desenvolvimento de subtramas que não parecem ser tão interessantes por conta de alguns fatores. Tomemos como exemplo o núcleo infantil, encabeçado pelo anticristo Adam Young (Sam Taylor Buck). Tanto ele quanto os demais atores mirins não entregam atuações tão convincentes e destoam do restante da produção.

Por outro lado, Michael McKean (Better Call Saul) mostra que o humor lhe cai bem, na pele do Sargento caçado de bruxas Shadwell. O personagem não encontra nenhuma semelhança com uma pessoa real, a não ser, é claro, que fosse alguém louco, e isso é um mérito. Ned Dennehy e Jon Hamm também se destacam em seus pequenos papéis, enquanto que outro casal improvável, Adria Arjona e Jack Whitehall tem seus momentos, embora a trama dos dois seja constantemente apagada pelo interesse na jornada da dupla de protagonistas.

Vale destacar também algumas sacadas inerente à obra que tornam a série irônica em sua essência, sem elevar tanto ao tom da crítica. Desde os questionamentos ao longo da história da humanidade feitos por Aziraphale e Crowley aos cavaleiros do apocalispe – Morte (Brian Cox), Guerra (Mireille Enos), Fome (Yusuf Gatewood) e Poluição (Lourdes Faberes) – os pontos chave da trama são compostos por momentos que arrancam risadas e instigam o espectador a querer conhecer o desfecho da trama.

Ao fim, Good Omens encerra sua primeira temporada com um saldo positivo. Em que pese um certo incômodo com o parco CGI e um desenvolvimento que só é pleno para a dupla Sheen/Tennant, a série é uma das boas produções de comédia a estrear em 2019, e se terminar aqui, já vale a recomendação para um fim de semana sem grandes pretensões dramáticas.

GOOD OMMENS - 1ª TEMPORADA
3.5

RESUMO

Com boas doses de ironia e leveza, Good Omens acompanha a improvável amizade entre um anjo e um demônio que precisam impedir o Apocalipse.

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Léo Barreto

Carioca, apreciador de filmes e séries em tempo integral, quando o Bernardo (filho dele) deixa. Iniciou sua admiração pela sétima arte com os clássicos da sessão da tarde e se apaixonou pelo mundo das séries quando o Voo 815, da Oceanic, caiu misteriosamente em algum lugar no meio do nada...