Artigo | A era das petições e abaixo-assinados na cultura pop

Há alguns anos um curioso fenômeno surgiu nas redes sociais, as petições e abaixo-assinados criados por fãs em relação a algo que não tenham aprovado sobre uma determinada franquia de filmes ou séries. Muitos desfechos, mortes de personagens e mudanças bruscas na trama das histórias causaram extrema revolta em milhões de fãs.

Uma das queixas mais recentes foi referente a oitava e última temporada de Game of Thrones, lançada pela HBO em abril desse ano. Milhares de pessoas assinaram uma petição, o que gerou bastante incômodo e reações negativas em parte do elenco da aclamada série. Para uma parcela dos telespectadores, o ritmo da temporada foi apressado e alguns conflitos resolvidos levianamente, em um tom de descaso dos roteiristas. Além disso, criticaram a transformação radical de uma das personagens e a forma como foi descartada no episódio final.

Outra franquia que sofreu uma enxurrada de condenações e petições foi Star Wars. Desde o lançamento do filme Os Últimos Jedi (2017) os fãs tem implicado com a Disney. Esse filme pode ser considerado um divisor de águas na trilogia nova. Luke Skywalker não agiu como o esperado, revelando-se um personagem amargo e com atitudes duvidosas e inverossímeis para milhares de telespectadores. O vilão Snoke foi outro personagem prejudicado, muitos esperavam que sua origem e motivações fossem mais esclarecidas, porém isto não ocorreu e no final das contas foi surpreendentemente morto pelo seu pupilo, Kylo Ren.

Pouco tempo depois do término de Game of Thones, a Disney anunciou que os roteiristas da série escreveriam uma nova trilogia de Star Wars, mas sem nenhuma relação com a família Skywalker. O contexto dessa trilogia se passará há milhares de anos antes do nascimento de Darth Vader. Provavelmente retratarão os eventos ocorrido na Velha República, talvez com inspiração nas histórias dos games. Logo após a divulgação dessa notícia, um grupo de fãs já se manifestou contra, pois acreditam que se os roteiristas de Game of Thrones “estragaram” a última temporada, provavelmente destruiriam mais um projeto.

O mais incrível do fenômeno das petições não é a crítica ou a frustração dos telespectadores em si, mas a forma como os fãs tentam manipular e alterar a produção das obras cinematográficas. Utilizam um mecanismo político para impor a vontade deles, como se uma obra de ficção fosse digna de tanta importância.

Star Wars: Os Últimos Jedi (2017)

As petições surgiram com a proposta da população participar de uma forma mais ativa, não se contentando apenas em votar em candidatos para ocupar cargos nos poderes legislativo e executivo. Apesar de não exercerem uma influência direta muitas vezes, servem como uma forma de expressão e protesto frente a certas mudanças legislativas ou medidas governamentais feitas pelo Estado. Em certos casos, quando a pressão popular é grande, os governantes se intimidam. No caso dos fãs inconformados, apenas banaliza-se um importante mecanismo sócio-político.

Um argumento muito utilizado por esses telespectadores é o de que essas poderosas franquias não seriam nada se não fossem pelo apoio e consumo deles. De certa forma isso é verdade, a indústria do entretenimento é movida pela bilheteria dos cinemas e pela audiência. Entretanto, os fãs não fazem parte da produção de nenhuma das franquias contempladas, mas não conseguem se contentar com uma condição passiva. Se colocam em uma posição de clientes insatisfeitos e buscam algum tipo de ressarcimento.

A IMPOSSIBILIDADE DA UNANIMIDADE

Em termos psicanalíticos, talvez esse estranho fenômeno ocorra devido a uma forte identificação dos telespectadores com esses conteúdos citados. De alguma maneira, esses fãs se sentem pertencentes a esses universos fictícios, quando ocorre alguma mudança drástica nesse mundo paralelo, rapidamente se enfurecem e se queixam, como se fossem cidadãos de uma certa comunidade. Esse tipo de reação é tão impulsivo e inconsciente que se assemelha a um chilique de uma criança pequena.

O maior motor dessas atitudes irascíveis é o narcisismo primário. Segundo Freud, esse é um estágio do desenvolvimento psíquico em que o bebê ainda não consegue se desassociar dos objetos externos a ele, como se tudo ao seu redor fosse parte integral deste. O sentimento oceânico é um resquício infantil do narcisismo primário, pois apesar dos sujeitos atingirem muitas vezes certa maturidade psicológica, esse sentimento perdura. Ele é muito presente nos movimentos de massa, como nas seitas religiosas e nas torcidas organizadas dos times de futebol. Os sujeitos quando estão na massa, se sentem pertencentes a algo muito maior do que eles, proporcionando uma sensação ilusória de completude e de uma onipotência indestrutível.

Cena da oitava temporada de “Game of Thrones” – HBO

Infelizmente esses fãs pertencentes a uma espécie de seita, com relação a alguma franquia, não percebem o quanto podem ser destrutivos e narcisistas. As manifestações por meio das petições somente atrapalham no processo criativo dos produtores e responsáveis na concepção de alguma obra. Todos tem o direito de opinar e criticar, mas os abaixo-assinados se mostram desnecessários e birrentos.

Os produtores de Game of Thrones não farão uma nova 8° temporada e Os Últimos Jedi será mantido no cânone do Star Wars. Ao acompanharmos uma obra de ficção, precisa-se aceitar o risco de que muitas vezes, certas partes, rumos e desfechos da história, não serão prazerosas. Se cada um pudesse rescrever algo de uma narrativa, a proliferação de possibilidades seria incalculável. É preciso contentar-se com a impossibilidade de agradar a todos.

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Dante Carelli Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.