Crítica | Em ‘Democracia em Vertigem’, Petra Costa aborda com sensibilidade a atual conjuntura política brasileira

Os documentários da mineira Petra Costa são conhecidos por abortar fatores do seu âmbito mais pessoal. Em Elena (2012), a diretora contou a história de vida de sua irmã, Elena Costa. Em Olmo e a Gaivota (2014), Petra apresenta a vida de uma atriz de teatro, algo de seu íntimo, e as implicações da gravidez em sua vida. Em seu novo filme, Democracia em Vertigem, ela aborda a história dos últimos anos da presidência do Brasil, apresentando a conjuntura que levou ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff 

Assim, pela primeira vez em sua filmografia, a diretora não se atém a algo de sua pessoalidade, levantando um tópico que possui em comum com todos os brasileiros, o governo do país. Entretanto, foi a história privada da artista que a levou pesquisar acerca do tema, gerando assim o novo documentário produzido pela Netflix. Com filmagens feitas desde que o ex-presidente Lula foi eleito, Petra reconstrói a história dos últimos anos da presidência, a partir de ganchos de sua própria vida e de sua família. 

A política sempre esteve muito presente na vida de seus pais, ambos militantes que lutaram durante a ditadura militar. O processo político, então vivenciado pela jovem, foi todo traçado a partir de seus mentores. Devido a isso, desde muito nova Petra se viu no âmbito político, lutando pelos mesmos ideais de seus pais.

Algumas filmagens presentes no documentário fazem parte do acervo pessoal da diretora, explicitando as vivencias da mesma nesta esfera: seu primeiro voto, suas comemorações e manifestações. Assim como também estão presentes depoimentos de seus familiares que ajudam a compor o imaginário social no qual ela cresceu. São essas imagens que trazem ao filme o sentimentalismo e sensibilidade marcantes da diretora. Sem elas, o filme seria apenas mais um lembrete mental da sujeira que abarca a política brasileira, e como a mobilização social talvez não seja o suficiente para se fazer valer. 

Justaposto com as memórias de Petra, estão as imagens que acompanham Dilma Rousseff, Lula e outros políticos que estiveram ativamente envolvidos, não apenas no processo da eleição presidencial, mas também no impeachment. Primeiro é possível destacar a forma com a qual Costa conduz os protagonistas do documentário. Apesar de ter seu parecer e posição política explícita em Democracia em Vertigem, ela vai atrás e apresenta todos os discursos que tem acesso, podendo assim apresentar a história de forma clara e convincente, sem que seja necessário muito, além do próprio discursos desses políticos.

Por si só, as filmagens gravadas com câmera na mão desde 2015 pela diretora, já bastariam para um bom material. Entretanto, sua voz em off narrando o que sentiu a cada movimentação parlamentar emprega ao filme a pessoalidade tão presente em suas obras. O íntimo é alcançado a partir do todo. 

Apesar de conhecer as figuras históricas apresentadas no longa, já que são figuras públicas que compõem o cenário político brasileiro, o filme aborda suas personas de forma mais intimista ao público, desprovendo-os de máscaras e de estereótipos propagados por manchetes de revistas. Claro que, não se pode comprovar que de fato ali está presente a sua mais pura essência, mas, a forma como Petra conduz suas figuras, evidencia o que, talvez tenha sido, o que chegou mais próximo ao âmago de personalidades tão populares como Lula e Dilma. 

Democracia em Vertigem é um título literal para o que está sendo exposto em cena. Sendo este os bastidores de tudo aquilo que o público brasileiro acompanhou de fora, seja em protestos, em manifestações contrárias, ou em casa apenas absorvendo o que estaria por vir. Todo o processo apresentado no filme desemboca nas divergentes opiniões existente nas ruas, evidencia o que leva a sociedade brasileira a se dividir e o porquê de tantas pessoas mudarem suas posições com o passar dos anos. 

Não sendo fácil abordar o que ocorre no âmbito político, Costa utiliza de sua voz em off para esclarecer termos e facilitar o acesso às informações, o que torna o documentário mais dinâmico. O mesmo é feito com protestos e movimentos ocorridos no passado que foram de grande importância para o atual cenário político brasileiro. Ademais, a diretora não deixa de abordar como este cenário continua conservador e escasso de qualquer minoria. Destaque para um dos momentos mais emocionantes e revoltantes do filme, quando políticos justificam o porquê de votarem sim no impeachment da primeira presidente mulher do país. 

Costa termina o documentário da mesma forma que o Brasil está agora, sem um final conclusivo e a espera do que está por vir. A situação política atual, assim como ela apresenta, não ocorreu do nada, foi premeditada e conquistada com a grande mobilização socialAssistir filmes como forma de escapismo da realidade é improvável quando o assunto é Petra Costa, principalmente neste caso.

Democracia em Vertigem é frustrante, sensível, mas acima de tudo, necessário para que, nós, brasileiros, entendamos em qual conjuntura estamos inseridos e o que podemos fazer a partir de agora. Estejamos satisfeitos, ou não. 

DEMOCRACIA EM VERTIGEM
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RESUMO:

Novo documentário da Netflix, Democracia em Vertigem, de Petra Costa, apresenta o processo de impeachment de Dilma Rousseff, o seu antes e depois, através de sua experiência pessoal.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.