Crítica | A jornada do autoconhecimento através do passado em ‘Deslembro’

A memória da ditadura está viva em muitos brasileiros, inclusive naqueles que não viveram o período militar. No cinema o tema já foi tratado das mais diversas formas, e a partir das mais diferentes visões. Uma dessas é através da visão de jovens, como por exemplo O Ano em Que meus Pais Saíram de Férias (2008). Se encaixa no caso, também, o novo filme de Flávia Castro, Deslembro.

O filme acompanha a jovem Joana que se muda com sua família da França para o Brasil após um tempo morando fora. Ao voltar, Joana passa a reviver memórias, reconstituindo seu passado e as implicações que a ditadura teve em sua vida, enquanto vive os prazeres da adolescência. 

Joana, interpretada de forma singela, mas destemida por Jeanne Boudier, perdeu o pai durante a ditadura militar, entretanto, não há provas concretas. Sua mãe não responde às perguntas que lhes são feitas, ao mesmo tempo em que, ela e sua família tentam se adaptar ao seu novo lar, o Rio de Janeiro. A partir da premissa, Joana se afunda em suas lembranças para tentar resgatar algo do seu passado. 

No longa, a volta ao passado é representada a partir de cenas curtas, embaçadas, apresentando a protagonista na presença de situações em sua memória que a ajudem a criar sequências, entretanto lembranças um tanto indefinidas. Em contrapartida, Joana, que está passando pela adolescência, ganha novas responsabilidades em casa, e um novo amor, enquanto está fora dela. 

O filme imprime grande destaque ao ambiente natural que permeia as locações do longa. A forma de refúgio, que não apenas ela, mas toda sua família, encontra na natureza sobressai, tornando-se um novo personagem a trama. Seu irmão mais velho se afeiçoou pelas praias e surfe do Rio de Janeiro, enquanto sua avó paterna mora próximo a rochedos e pedras que não passam despercebidas. Já Joana, quando pode, busca por respostas e momentos de reflexão enquanto está a céu aberto, pois busca sempre por algo que não encontra em seu lar. 

A diretora e roteirista Flávia Castro volta a um tema já trabalhado. Em Diário de Uma Busca (2010), Castro reviveu a história de seu pai, também morto durante a ditadura, o que leva a Deslembro ser em parte, autobiográfico, já que toda a experiencia e carga pessoal da mesma está inserida nos semelhantes contextos. 

Além do meio ambiente, a arte pulsa em Deslembro. O pai de Joana, vivido por Jesuíta Barbosa, era cantor. Isto, assim como ele, é um dos aspectos mais presentes no filme, a música. Nos momentos de maiores emoções vivenciados pela protagonista, a música se faz presente, enriquecendo não apenas a cena, mas criando uma melancolia para a intenção da imagem. Isso se encaixa tanto para as músicas em off, quanto também para aquelas cantadas pelos personagens, de fato. Como é o caso de Cajuína de Caetano Veloso, que marca uma das mais intimas e belas cenas do filme. 

Outro ponto que se destaca positivamente também é falho no filme: o roteiro e a forma como ele apresenta os fatos da trama. Em alguns pontos a história é costurada de forma cautelosa na qual os diálogos tornam-se espontâneos e os fatos sobre o pai da protagonista acabam sendo palpáveis, mesmo em meio a tantas dúvidas. Entretanto, em outros momentos, novas informações são despejadas em torno da personagem de forma presunçosa que não convencem na situação vivida. A situação pode ser vista quando, durante um dia na casa de uns amigos de sua mãe, um velho amigo de seu pai cospe informações em Joana acerca dele e do dia de sua morte. As informações no geral são convincentes, entretanto a forma como ocorre o diálogo é estranha e insensata, desprimorosa ao ponto de não passar a verdade necessária. 

Deslembro é um bom filme para acompanhar a vida de uma jovem que, com tantas pulsões, possui a maior delas em tentar conhecer a si própria através de seu passado. Apesar dos altos e baixos do roteiro, a sutileza em alguns momentos juntamente com a trilha sonora transporta o telespectador em uma viagem literal e afetiva, junto com a protagonista. 

DESLEMBRO
3.5

RESUMO:

Deslembro, de Flávia Castro, aborda a história de uma jovem que teve o pai assassinado pela ditadura militar, e busca recuperar memórias dessa época.

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Juliana Oliveira

Estudante de psicologia e fascinada pelo audiovisual. Acredita que o cinema seja uma arte de teor político que dá voz a quem não é ouvido. Gosta de conhecer novas culturas e acredita que o cinema seja a melhor forma para isso, expandindo assim a visão de mundo dentro se sua limitada realidade.