Black Mirror | As fronteiras entre a realidade física e a virtualidade em ‘Striking Vipers’ tem explicação?

Danny (Anthony Mackie) e Karl (Yahya Abdul-Mateen II) são amigos de longa data, desde cedo, o videogame fez parte da relação deles. Mesmo depois de adultos, continuaram a jogar um jogo de luta no estilo Street Fighter. Depois de ficarem afastados por 11 anos, se reencontram na festa de aniversário de Danny. Karl lhe presenteou com o jogo que costumavam jogar quando eram mais jovens, Striking Vipers, mas numa versão em realidade virtual.

Um dia decidiram jogar online e ao começarem a partida, Danny percebe o quanto aquele jogo era diferente de todos que já havia visto, pois após escolher o lutador, ao começar o round, ambos “incorporaram” os personagens selecionados. Além de poder aplicar os golpes, quando atingidos, podiam sentir a intensidade das pancadas. Encerrado o round, as dores e os hematomas desaparecem. Pouco tempo depois de iniciarem uma luta, Karl por meio de sua personagem feminina, rouba um beijo do avatar de Danny e em seguida, transam no meio da luta.

Rapidamente os dois percebem a situação embaraçosa e confusa pela qual se encontravam. Afinal ambos são heterossexuais, Danny é casado há algum tempo e sua esposa quer engravidar dele. A relação do casal já se mostra um tanto distanciada, depois de desenvolver uma estranha intimidade virtual com Karl, Danny passou a evitar mais ainda o contato sexual com a esposa, sempre alegando que estava cansado por causa da sua rotina de trabalho. Por mais que os dois amigos tentassem romper com o sexo virtual proporcionado pelo jogo, não conseguiam negar o quanto era prazeroso.

Um dia, Danny chegou a questionar a sua sexualidade e a do amigo. Na tentativa de acabar com a dúvida, eles se beijaram na realidade física, entretanto, não se sentiram atraídos um pelo outro. Se a situação já era absurda para o protagonista, que cogitou a possibilidade de ser homossexual, apesar de manter uma relação heterossexual virtual com o seu amigo, para Karl era ainda mais bizarro, pois ele transava com um avatar masculino em uma posição feminina, consequentemente atingia orgasmos como uma mulher. O que atrapalhou nas suas relações sexuais físicas com as mulheres. Ou seja, no jogo, Karl ocupava uma posição transgênera, afinal era um homem transando no corpo virtual de uma mulher!

No âmbito virtual os amigos obtinham muito prazer um com outro, talvez em um nível jamais atingido em outros relacionamentos. Por outro lado, no mundo físico, encerrada as “partidas”, os conflitos retornavam com força. Danny muitas vezes tentou resistir aos encontros, mas Karl quase sempre conseguia convencê-lo a retornar. Karl até tentou transar com outros jogadores, sempre utilizando a mesma avatar, porém, nunca teve o mesmo prazer como das vezes em que jogava com Danny.

No limite da sublimação

Uma questão importante de pensar é se realmente a dupla de amigos chegou a ter relações sexuais, o quanto o encontro deles não foi sublimado por ser um encontro virtual. Por outro lado, como tiveram sensações orgásticas, as fronteiras entre o físico e o virtual se confundem. Para a Psicanálise, a sublimação é uma maneira de deslocar a libido para finalidades intelectuais, artísticas ou simplesmente que se distingam do ato sexual. Lembrando que a libido, apesar de ter como finalidade original o sexo genital, ela é um impulso inconsciente que nos direciona para as relações amorosas, fraternas e para a vida em um sentido amplo.

De certa forma, uma relação de amizade é uma relação sublimada, pois apesar do investimento libidinoso afetivo, não costuma haver relações sexuais, assim como jogar videogame. A sublimação é um mecanismo fundamental para a manutenção da civilização e de um código moral e ético. Sem a canalização da libido pela via da sublimação, não seria possível a vida em sociedade e o desenvolvimento intelectual.

Talvez o maior êxito desse episódio, Striking Vipers, o primeiro episódio da 5° temporada (2019) de Black Mirror, dirigido por Owen Harris, seja o de bagunçar a forma e os limites dos relacionamentos a partir da virtualidade. Danny ao transar virtualmente com Karl, traiu a sua esposa? A relação entre os dois amigos pode ser considerada homo afetiva, ainda mais por obterem um gozo único entre eles? Karl pode ser classificado como um transgênero, pois aparentemente obtém mais prazer em uma posição feminina? Provavelmente não há repostas objetivas para essas perguntas.

O maior feito do episódio é justamente o de afrouxar as barreiras entre o físico e o virtual, propiciando novas identidades e novos formatos de relacionamentos. A imersão no mundo virtual ainda está no início de seu desenvolvimento, mas é muito provável que em breve seja viável realizar uma série de atividades jamais pensadas outrora nesse admirável mundo novo.

O mais confuso seria como estabelecer regras nesse novo universo virtual, mantê-lo cindido da realidade física sem limites estabelecidos, criar um novo código de conduta, levando em consideração relacionamentos amorosos? Ou até mesmo poder ter duas ou mais identidades completamente diferentes uma da outra com sexos antagônicos, ser homem na realidade física e mulher na virtualidade? Com o avanço da virtualidade as questões serão intermináveis e as possibilidades serão infinitas.

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Dante Carelli Ferrara

Psicólogo clínico, apreciador de filmes, séries e literatura desde criança. Esforça-se em fazer relações entre entretenimento e psicanálise, suas duas maiores paixões.