Crítica | ‘Fora de Série’ é uma aula de como se fazer uma comédia adolescente

É interessante notar como o cinema independente vêm tentando dar uma nova roupagem às comédias/dramas adolescentes com seus filmes coming of age. Diferente do que a indústria de massa costuma produzir para esse público, focando seus produtos em algo muito mais mainstream e repleto de clichês do gênero, esse tipo de produção mostra que existem outras formas de explorar a vida adolescente sem parecer que estão fazendo o mesmo filme várias e várias vezes. Fora de Série

Coming of age, em sua essência, significa “amadurecimento” ou “vinda da maioridade”, e tem sido tema de grandes filmes como Lady Bird As Vantagens de Ser Invisível. Estes dois exemplos são tomados como referência para o gêneropois conseguiram reverter as expectativas do público em cima do cinema adolescente, entregando roteiros simples, porém profundos e extremamente relacionáveis.  

Fora de Série, por mais que não tenha como foco o drama, se encaixa perfeitamente nessa nova leva de filmes coming of age, mas com um olhar bastante específico e divertido. Ele segue a história de Amy (Kaitlyn Dever) e Molly (Beanie Feldstein), duas amigas que passaram o Ensino Médio focando apenas nos estudos para ingressar nas melhores faculdades no futuro. Agora, prestes a se formar, elas descobrem que seus colegas, que aparentemente não pareciam ter se esforçado na mesma proporção que elas, entraram em faculdades melhores sem deixar a vida social e de farra de lado. Sendo assim, decidem tirar a última noite antes da formatura para compensar os anos que abriram mão dessa vida. 

A premissa, por mais que pareça simples e típica de filmes adolescentes (por exemplo, Superbad fez algo parecido na década passada), consegue ir além do esperado, entregando situações absurdas e completamente hilárias, mas também relevantes para discussões sobre amizade, amadurecimento, sexualidade e até mesmo liberdade própria. Todos esses assuntos conseguem ser perfeitamente abordados devido à mão certeira das quatro mulheres roteiristas: Emily Halpern, Sarah Haksins, Susanna Fogel e Katie Silberman.  

O roteiro consegue transitar entre os assuntos sem parecer forçado, ou até mesmo irrealista. É fácil se identificar com os dilemas das personagens, e isso se deve ao fato da sinceridade com que as roteiristas conseguiram escrevê-las. Não é fácil escrever sobre a vida adolescente, ainda mais conseguir escrever de forma que pareça natural, e altamente relacionável.  

As duas protagonistas possuem uma química excelente, fazendo com que o público realmente acredite que elas se conhecem desde a infância. Cada uma possui suas inseguranças, mas compartilham do mesmo medo de ter que se despedir quanto a escola acabar. É difícil ter que deixar para trás uma fase da vida que tomou conta do seu dia a dia durante muitos anos. Ter que mudar os focos, mudar os ares, ter novas experiências e novos amigos, pode ser algo extremamente assustador e ao mesmo tempo motivador. Mas é nítido nas atitudes de cada uma que, por mais que demonstrem preparação para o que vem a seguir, ainda possuem inseguranças, e coisas que gostariam de viver antes do término do período da escola. 

E é neste ponto que o filme se sai, mais uma vez, perfeitamente bem. A partir do momento em que decidem ter uma última (ou primeira) noite de festa, as coisas começam a sair fora do controle, e acabam se colocando em situações hilárias, mas que, ao mesmo tempo, vão definir e expor os sentimentos que tentaram esconder durante muito tempo.  

A estreia na direção de Olivia Wilde é primorosa. Em Fora de Série, ela consegue encontrar equilíbrio entre os momentos cômicos e dramáticos sem deixar que o ritmo seja prejudicado. Os elementos visuais inseridos em momentos pontuais merecem ser destacados, pois mostram criatividade por parte da direção, que tenta fugir do convencional entregando cenas visualmente hilárias e com diálogos afiados.  

Fora de Série é uma aula de como se fazer um filme adolescente. Com um roteiro e diálogos excelentes, sem apelar para piadas ofensivas, o filme se enrique ainda mais com a presença de personagens secundários marcantes e a química entre as protagonistas. É gratificante ver um exemplar do gênero tão cuidadoso e representativo em meio à tantos que parecem se preocupar somente com o sucesso comercial. Uma pena que ele não esteja recebendo a atenção que merecia.

FORA DE SÉRIE | BOOKSMART
5

RESUMO:

Fora de Série é um forte exemplar a se tornar clássico do gênero adolescente. Engraçado e bem escrito, o filme consegue se enriquecer ainda mais com a química entre as protagonistas, e a presença de personagens secundários marcantes.

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Gabriel Granja

Jornalista apaixonado pela sétima arte. Acredita que o cinema tem o poder de mudar pensamentos, pessoas e o mundo. Encontra nos filmes e séries um refúgio para o caos da vida cotidiana.